| Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda) |
No dia seguinte Bia acordou cansada, envergonhada. Naquela manhã de quarta-feira, ela passou tempo demais fitando a própria mão, os olhos castanhos afogados em incertezas, atracada com seu travesseiro como se fosse uma âncora, até que a avó a arrancou do transe.
— Bia-chan, desse jeito você vai se atrasar! — A doce voz que se seguiu às três batidas leves na porta era consoladora.
— Eu… Já vou levantar obachan. Só preciso terminar de acordar! — Ela se sentou na cama e se espreguiçou tão forte que parecia que as sombras da tarde anterior fugiriam dela. Com a barra da camiseta limpou as lágrimas secas dos olhos. Antes de se levantar, ela correu o olhar pelo quarto, como se procurasse alguém que não estava lá, parando apenas quando pousou os olhos nas bonecas que enfeitavam sua escrivaninha de imbuia.
Eram duas figuras de rosto redondo e impecavelmente branco, sentadas com elegância sobre as próprias pernas, que Bia herdara da mãe quando ainda era uma bebê. Ohina-sama, a boneca feminina, trajava um pesado junihitoe branco, cujas doze camadas de seda adornadas com flores de pessegueiro escondiam o vermelho vibrante do kosode por baixo. O cabelo, feito de fios de seda negra que pareciam reais, estava preso num osuberakashi preciso, coroado por um tenkan dourado que refletia a luz da manhã. Em suas mãos um leque aberto exibia uma floresta de folhas verdes, pintado a mão com cuidado como a tela de um quadro.
A seu lado estava Odairi-sama, a figura masculina. Trajava um sokutai carmesim sobre um kosode dourado. Sua cabeça sustentava um kanmuri negro e imponente, e ele segurava o shaku de madeira com toda a solenidade de um príncipe-regente. Depois de alguns segundos que lhe pareceram uma eternidade, enfim, Bia se levantou para abrir a porta. Do outro lado, a gentil avó a aguardava, como um sol dourado que aquece mas não queima.
— Não se preocupe que eu já preparei seu banho e café da manhã. Seja rápida menina! — Bia abraçou a mulher sorridente e com cheiro de sabonete de alfazema à sua frente com força, e deu um beijo em sua bochecha. Não eram necessárias palavras para explicar aquele momento, a avó retribuiu calada, dizendo que estava tudo bem com suas mãos entre os cabelos da garota que ela criara. O momento, para Bia, lembrava a noite fatídica em que seus pais morreram.
Ela tomou seu banho apressada e vestiu sua roupa com rapidez. Uma camisa branca básica de gola redonda, um cardigã cropped lavanda por cima, e uma saia plissada midi da mesma cor completava o conjunto. Ela amarrou o cabelo em uma trança e passou uma maquiagem leve. Era simples, mas acima de tudo, era verdadeiro, fiel à garota que ela sempre fora.
Ela desceu as escadas quase correndo, carregando uma pasta de reserva, leve demais para a sustentar. A menina não parou sequer para engolir o café da manhã, apenas colocou um pão com manteiga na boca e catou o obentô ainda quentinho que a avó lhe preparara antes de chispar para o pequeno vestíbulo da sala de estar, onde o converse All Star surrado a esperava junto de uma sacola preta de loja de departamentos com o paletó lavado mas ainda úmido do rapaz de ontem, passando direto pelo avô como se não pudesse o encarar. — Te amo, obachan! Te amo, ojiichan! Tô atrasada! Itekimasu! — Naquele momento a rotina matinal parecia errada, mas ela não podia voltar agora para um beijo que não fora dado, apenas reiterar o que sentia. — Amo vocês!
Bia fechou a porta no mesmo movimento que a abriu, ouvindo a avó gritar um “Também te amo, meu bem!” da cozinha. Ela apurou o passo sobre o tapete amarelo que enfeitava o caminho entre o lar que ela deixava para trás e a rua à sua frente. Seu coração também estava apurado, ela precisava de uma resposta, ainda que machucasse.
A arquitetura brutalista do Villanova Artigas parecia ainda mais brutal naquele dia, ignorando com sua grandeza esmagadora a insignificante presença da garota de olhos tenros que procurava no caos de estudantes por seu redentor. Ela tentava cruzar os olhos com os dele, como duas retas que se encontram na perpendicular de um plano cartesiano, porém ela o via fugir por entre as frestas, como se eles pertencessem a duas geometrias diferentes.
Mas pela primeira vez, Bia sabia de alguma forma que ele prestava atenção nela, com seus olhos verde-esmeralda virados para ela com toda a frieza de uma espada. E ela precisava devolver o paletó dele, e exigir explicações.
— Bia! Ei, Bia! — A voz de Felipe se destacou do burburinho da multidão, chamando-a de volta. Ele brilhava com um azul-bebê honesto. “Combina com ele,” ela pensou.
— Você sumiu ontem, Bia… Do nada! Eu tentei te ligar, mandei mensagem, e nada. Você não atende mais o celular! Você correu atrás daquele cara e desapareceu na chuva. Eu achei que você tinha sido assaltada ou… — Ele parou, hesitando em revelar a extensão de seus pensamentos, enquanto seus olhos varriam o rosto dela em busca de feridas. — Você está bem? Voltou em segurança? Não importa porque você foi atrás dele, eu só… Preciso saber se você está inteira.
— Eu estou bem, Felipe. Sério. Só… Tropecei, e ele me ajudou. — A resposta saía automática, mas o tom era oco, como um escudo de madeira fina. Mas não havia tempo para conversas, o professor acabara de entrar.
As aulas andavam trôpegas, cada tique-taque do relógio sobre o quadro negro um passo desajeitado, lento. As horas se arrastaram até chegar a hora da saída, e quando o relógio marcou a hora e o minuto certo, Bia começou a arrumar suas coisas para buscar a solução para o mistério de sua nova vida.
— Fica aí, amiga. Eu preciso falar uma coisa. — Mariana se aproximou dela como uma labareda que parecia que a iria queimar. Os cachos do volumoso cabelo ruivo pareciam roubar a luz das lâmpadas só para eles. Diante daquela figura de autoridade, Bia não podia dizer não. Quando a sala se esvaziou, ela bradou. — Pode começar a falar, Beatriz. E não olhe para o Felipe com essa cara de acusação, ele não abriu o bico. Sua BFF não é burra, sabia?
— Mariana, agora não… — Bia tentou recuar. Não era uma negativa, era uma petição.
— Agora sim! — Mariana a segurou pelo braço e expulsou Felipe da sala com os olhos. — Que história é essa de sumir? Você tem noção que a gente tinha aquela conversa marcada com o pessoal do escritório, para o estágio? Você perdeu a chance, Bia! Tudo por causa de um babaca com um rei na barriga que nem sabe o seu nome!
Bia sentiu o peso da cicatriz pulsar. — Eu tropecei, Mari. Em um canteiro de obras. Um ferro me pegou, e ele me ajudou e… — De novo aquela história, aquela mentira por omissão, que já se tornara espontânea.
— Bia, olha para mim. Eu sou sua amiga, não sua avó. Essa história está mal contada. Você está com cara de quem viu um fantasma e agora está tentando virar um. Cria juízo! Aquele Hazan… Ele é veneno. Ele não é desse mundo, e desse jeito, você vai se afogar tentando alcançar ele.
Bia não respondeu, ela não podia. Até que ela sentiu a ressonância em seu peito, e seus olhos foram atraídos novamente para o vão das escadas. Lá estava ele de novo, Gabriel. No intervalo ele aparecera entre os pilares do subsolo, apenas para sumir assim que ela deu um passo à frente. Era um jogo de esconde-esconde cruel. Ele a evitava como se ela fosse uma mancha de nanquim em seu projeto perfeito, mas não conseguia parar de monitorar a garota que ele arrancara dos braços da morte.
Seu silêncio de espanto logo deu lugar a uma inquietação febril, ela precisava falar com ele. Bia se desvencilhou da amiga e correu até o corredor, mas ele sumira de novo, nas frestas do canto da visão. Ela olhou para Felipe buscando uma resposta para aquilo, mas o rapaz estava distraído jogando em seu celular.
— Bia, vamos logo, pega o seu material. O Erik disse que vai passar para nos pegar, vai te levar para casa hoje. — Mariana lançou um olhar desconfiado para a sacola preta e saiu da sala, a voz já não tinha mais cobrança, era de novo aquela irmã mais velha legal, a onee-chan que no ensino médio ajudara Bia a se integrar no novo colégio.
— Pode ir, Mari. Eu… Esqueci uma coisa na biblioteca. — Ela se preparou para sair correndo, agarrando com força a sacola com o paletó que a protegera na noite do dia anterior.
— Bia, não ouse. — O tom era de intimação, e ela soube naquele mesmo instante que não poderia ousar. A menina ficou ali, suspensa no alto da escadaria, uma estátua imóvel e delicada. Felipe a observava com cara de espanto, a boca entreaberta dum rapaz que não sabe bem o que dizer.
Na frente do edifício, o trio aguardava a chegada de Erik Schneider, o namorado de Mariana. Ele era um estudante do quarto ano de medicina. Loiro e alto, de ombros largos, pele avermelhada e a risada divertida de quem encontrou o ponto de equilíbrio. Quando ele parou com seu hatch na frente do prédio, Mariana correu para o abraçar, completando o protocolo com um selinho rápido, aquele gesto de casal amorzinho que fazia Felipe desviar o olhar, mas que Bia havia aprendido a apreciar, e que agora, entretanto, a perturbava.
Mariana era tão plena, dona de si, e dona de um lindo par de pernas que pareciam querer sair da calça jeans escura apertada. Não dava de a comparar com aquela menina plana, sem graça, que Mariana cuidava como uma irmã mais nova.
— Oi galera! Tudo bem? — O rapaz sorria enquanto falava, e brilhava com o branco de uma parede sólida e bem caiada. — Vamos para casa? A Mari me falou que hoje vou ter de fazer a corrida fiado. — A piada sem graça fez Mari dar uma cotovelada de leve no namorado, mas em seguida os dois se entreolharam, cada um com um sorriso pela metade, trocando uma confidência silenciosa que só quem se ama consegue.
— Pode deixar que depois eu acerto as contas com o meu CDF particular! — Mariana falou num tom travesso e em seguida olhou para Bia. Seu olhar era uma ordem silenciosa que não aceitava um não como resposta. Bia sabia que estaria em segurança se obedecesse, e por isso ela obedeceu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário