terça-feira, 30 de junho de 2026

Capítulo 9: Velas na Janela

 

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O que restava da semana se arrastou como um pesadelo em câmera lenta. No campus da faculdade, Bia se sentia uma intrusa em sua própria rotina. Começou a evitar as áreas comuns, escondendo-se atrás de pilares e pranchetas, mas seus olhos sempre buscavam, contra a sua própria vontade, a silhueta de Gabriel, o herdeiro de um reino perdido e mágico que não deveria existir no meio do concreto de São Paulo, e que insistia em desaparecer pelas frestas de sua visão.

Ela sabia que toda vez que ele se aproximava, a cicatriz em seu peito aquecia, um diapasão invisível vibrando em resposta à frequência dele. Ele não conseguiria se esconder por muito mais tempo, e ela obteria dele o que ansiava, desde que conseguisse domar o próprio coração enfeitiçado.

Sexta-feira à noite chegou com o peso de uma sentença. Ela terminou a semana sem uma explicação para toda aquela situação, e com o paletó guardado em seu armário, dividindo espaço nos cabides com suas camisas mais fofas e seus vestidos preferidos. Ela queria se aproximar do homem misterioso, mas não sabia como.

Em casa, Bia ficava mais vulnerável. Vestia uma camisa oversized de algodão cinza, com mangas três-quartos e a estampa de um céu estrelado e uma estrela sorridente dizendo “suki” em hiragana. A camisa era grande o suficiente para cobrir o short de moletom azul marinho, suas pernas escondidas apenas pelas meias cinzas altas de gatinhos e arco-íris. O cabelo comprido preto, liso e sedoso como uma camisa cara, preso num rabo de cavalo alto completava o visual.

Desde que se apaixonara por Gabriel e começara a pesquisar, de forma desajeitada e romântica, sobre as tradições dele, Bia adotara um hábito: acender duas velas brancas no parapeito da janela de seu quarto ao pôr do sol de sexta. Ela não sabia as orações, não conhecia as leis, mas era o seu jeito secreto de tentar tocar a orla do manto daquele mistério que ele representava para ela.

— Beatriz Sato. Venha aqui. Agora. — A voz do avô, Seitoku, ecoou do corredor. Não era um convite; era uma convocação para o tribunal da sala de estar.

Bia terminou de acender o segundo pavio, as mãos trêmulas, e caminhou até a sala. A casa da Vila Carrão estava muda, o silêncio denso como água gelada, quebrado apenas pelo tique-taque do relógio de parede. Seu Seitoku estava sentado em sua poltrona de vime, a mesma que ele ocupava desde que ela se lembrava por gente. Ele era um homem pequeno, de mãos calejadas por décadas de trabalho pesado na oficina mecânica. Ele cheirava a sabonete em barra e óleo de motor, era palpável, quase próximo demais, diferente do cheiro de madeira e terra molhada do paletó de Gabriel. Sua presença preenchia o cômodo com a solidez de um carvalho mizunara secular.

Bia parou na entrada da sala. A aura dele era diferente da de Dona Yukimi. Se a da avó era um dourado suave, a de Seu Seitoku era um âmbar profundo e sólido, como uma rocha que guardava o calor do dia por muitas horas depois do sol se pôr.

— Senta. — ordenou ele, apontando com o dedo nodoso para o banco de madeira à sua frente. — Sua avó diz que você não come direito. Diz que você se tranca no quarto e chora até conseguir dormir. E tem essas velas, que você fica acendendo como se estivesse em um templo que não é o nosso. O que está acontecendo com você, Beatriz?

— É só… Um hábito, ojichan. Uma curiosidade. — Ela ignorou de propósito as duas primeiras coisas que o avô falou, como se responder a elas fosse a deixar desnuda, desprotegida, naquele julgamento.

— Não minta para mim. — A voz de Seu Seitoku subiu um tom, vibrando com uma autoridade que fez a luz da sala parecer oscilar. — Na noite de terça-feira que você chegou atrasada, suja, coberta com o paletó de um estranho, a roupa por baixo rasgada, e o olhar de quem perdeu a alma… Algo aconteceu. Eu conheço o cheiro do perigo. Eu já vi o que acontece quando o coração toma as rédeas e o mundo se desfaz. O que aquele rapaz fez com você?

— Ele não fez nada! — Bia disparou, as mãos fechadas em punho sobre os joelhos. — Houve um problema no caminho… Eu tropecei, e ele me ajudou!

— Ajudou? — O homem velho se inclinou para frente num movimento brusco, os olhos estreitos como fendas. A aura dele se acendeu com um tom avermelhado de irritação. — Ele é um Hazan. Eles são uma gente de livros, cujo dinheiro escreve o destino de miríades. Nós somos donos do nosso suor. Você está se perdendo em um labirinto que não foi feito para os seus pés. Eu trabalhei dez horas por dia, de domingo a domingo, para que seu pai fosse engenheiro e para que você pudesse desenhar casas. Para você crescer em segurança. — A irritação cedeu ao desaponto. — Não para você ser o passatempo de um menino rico que acha que o mundo é seu tabuleiro de xadrez!

— Você não entende! Ele é diferente! Ele é… — Bia tentou buscar a palavra, mas como descrever um príncipe com poderes mágicos para um mecânico que se recusava a se aposentar? — Ele é de outro mundo, ojichan!

— Chega! — Seu Seitoku bateu a mão no braço da poltrona, a resposta dela piorou tudo. — Eu proíbo. Você não vai mais atrás desse rapaz. Não vai correr atrás dele como uma tola na rua, e não vai aos mesmos lugares que ele frequenta. Se eu souber que você cruzou o caminho dele de propósito, eu mesmo vou até aquela faculdade falar com o reitor. Você é o nosso sangue, Beatriz. Não vou deixar você se esvair por causa de uma paixão tola.

Bia sentiu uma pontada de dor no peito, bem em cima da cicatriz. O conflito entre o amor pelo avô zeloso e a ligação inexplicável com Gabriel a estava rasgando ao meio.

— Seitoku-san, querido, deixe a menina respirar… — Dona Yukimi apareceu na penumbra da cozinha, segurando um pano de prato, a voz da petição da garota, que se recusava a sair de seus próprios lábios. — Você está assustando ela.

— Não a defenda, Yukimi-chan! Ela está enfeitiçada. Olha para os olhos dela, parece que está vendo fantasmas!

— E você não estava enfeitiçado quando me conheceu? — A avó deu um passo à frente, e sua luz dourada pareceu suavizar a dureza do âmbar de Seu Seitoku. — Esqueceu que meu pai o chamava de “mecânico sem futuro”? Esqueceu que ele dizia que sua família era pobre demais para a nossa? Você também era de um “mundo diferente”, Seitoku-chan. Mas você ficou parado debaixo da janela da minha casa por três noites até ele deixar você entrar. Naqueles dias, nós também éramos gentes que não se misturavam aos olhos dos outros.

O avô bufou, mas o brilho avermelhado de sua aura cedeu, e deu lugar a um leve esplendor que remetia à juventude. Ele desviou o olhar, as memórias amolecendo a linha dura de sua boca. Mas a preocupação com a neta era maior que a nostalgia.

— Era diferente. — Resmungou ele. — Eu era pobre, mas eu era real. Esse Hazan… Há algo nele que me dá arrepios. É um frio que não é de São Paulo.

Bia aproveitou o momento para se levantar. Suas pernas estavam bambas, e a cicatriz em seu peito latejava como uma ferroada.

— Eu só quero compreender, ojichan. Eu sinto que… Que não sou mais a mesma.

O silêncio que se seguiu foi cortante. O rosto de Seu Seitoku mudou drasticamente. A dúvida deu lugar a uma certeza amarga e terrível. Para um homem de sua geração e cultura, aquela frase, dita por uma neta que chegara em casa com roupas rasgadas e o olhar perdido, só tinha um significado.

— “Não é mais a mesma”? — Ele repetiu, a voz agora baixa e carregada de um desprezo dolorido. — Então foi isso. Você se entregou para ele num canto de rua, num terreno baldio qualquer? Ele tirou de você o que não era dele e agora você acha que “mudou”?

— Não! Não é isso! — Bia gritou, horrorizada com a conclusão dele. — Não foi o que você está pensando!

— Vá para o seu quarto, Beatriz! — Seitoku rugiu, virando o rosto, recusando-se a olhar para ela. — Vá chorar pelo que você perdeu por causa de um príncipe de mentira. Se você não é mais a mesma, então a neta que eu criei morreu naquela noite.

Bia sentiu o golpe como se tivesse sido física. Ela olhou para a avó, buscando socorro, mas Dona Yukimi tinha os olhos baixos, triste pela brutalidade das palavras do marido, sua luz dourada havia ficado muda. Bia fugiu para o quarto, trancando a porta e desabando contra a madeira. Ela se jogou na cama e abraçou o travesseiro com força, as lágrimas finalmente venceram a barreira.

Ela olhou para as duas velas no parapeito da varanda de seu quarto, que alumiavam as flores do ipê que caíam lânguidas lá fora. Elas queimavam com uma chama alta e constante, azulada na base. Bia levou a mão ao peito e sentiu o relevo linear sobre a pele. “Ele me amava?” Ela se perguntou, lembrando-se do desespero nos olhos verdes dele quando a chamou pelo nome. “Aquilo foi um beijo, né?” A imagem dos lábios dele apertando contra os dela acelerava seu coração. “Ou, talvez, ele me marcou como propriedade, e me transformou em algo que nem meu próprio avô reconhece?”

Gabriel Hazan não era um namorado. Ele era um sol negro que a puxara para sua órbita, e agora, até o amor de sua família parecia ser reduzido a cinzas pelo fogo que ele soprara em suas veias.

— O que você fez comigo, Gabriel-senpai? — Ela sussurrou para o escuro, enquanto as velas projetavam sombras que pareciam se mover sozinhas entre os personagens dos pôsteres pendurados nas paredes do quarto da antiga casa da Vila Carrão.


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