terça-feira, 11 de agosto de 2026

Capítulo 15: Perspectivas

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O céu da manhã de terça-feira de outono era um azul metálico opressivo, como se o sol houvesse banido as nuvens que poderiam esconder Bia de seu olhar impiedoso. A cicatriz em seu peito se tornara um metrônomo cujo pulso marcava o ritmo de sua nova e estranha vida, pulsando em uníssono com o estresse.

Os passos dela nos corredores do Vilanova Artigas eram curtos e tímidos; ela se movia sem fazer barulho, como pisar com mais força fosse quebrar o prédio e soterrar todos que se encontravam nele. Sua própria roupa parecia pesar: jaqueta anorak azul-marinho com a touca puxada sobre o coque baixo, camisa preta básica por baixo, calça cargo igualmente preta, e os tênis converse All Star surrados de sempre. Ela carregava sua pasta portfólio A2 como um escudo escondendo metade de seu rosto, quando Mariana a interpelou na entrada da sala.

— O que aconteceu ontem, Bia? A Bebê apareceu na saída perguntando por que você saiu disparada! Você não leu nenhuma das minhas mensagens ou do Fê! E agora você tá parecendo um zumbi! — A amiga a pressionava sem dar espaço para respiro; ela estava claramente zangada, mas mais por zelo que por raiva. — Eu já tava achando que você tinha sido sequestrada!

— Tá tudo bem, Mari… Eu só… — Bia começou a responder, a voz saindo num sussurro tragado pela acústica do prédio da FAU, quase se perdendo no eco dos estudantes conversando antes da primeira aula começar. Ela respirou profundamente, como que para tomar para si a coragem de sua melhor amiga. — Desculpa não ter respondido. — Bia se curvou num gesto automático, a touca de sua jaqueta anorak azul-marinho tapava a visão do rosto dela. — Foi impulso… Eu só queria me arrumar e encontrar ele… Só isso.

— Encontrar “ele”? — Mari arqueou as sobrancelhas e ergueu o canto dos lábios, numa expressão que misturava curiosidade, triunfo e traquinagem, o que deixou Bia tão desconsertada que seu rosto virou um pimentão. — E então? Desenrola tudo! — Mariana radiava. — Você correu metade da cidade para encontrar o seu príncipe? — A pergunta era carregada de implicância e estima dum jeito que só Mariana conseguia fazer. — Como foi o encontro? Foi num bistrô italiano daqueles chiques nos Jardins? Ou num sushi bar com reserva para daqui a seis meses? Dizem que gente rica adora comida japonesa, né?

Bia sentiu o estômago dar um nó. Gabriel sentado no chão com o braço todo ensanguentado coberto em retalhos de seda negra, a atadura improvisada que ela fizera com sua fita e que agora parecia tão imprestável, e o homem com os olhos que pareciam dois icebergs sentenciando sobre seu futuro, era tudo tão vívido que parecia que ela nunca tinha saído daquele momento. E ali estava Mari, a sua frente, quase rindo de entusiasmo.

— Não foi nada disso, Mari. A gente… A gente só se encontrou no Ibirapuera. Foi rápido. — Ela não queria decepcionar a amiga, mas não podia contar o que acontecera. Que caíra numa armadilha armada por caras que nem pareciam totalmente humanos e sangravam fuligem, que Gabriel quase perdera o braço tentando a salvar, ou que agora ela era a Fonte da Vida… Seja lá o que isso significava.

— Mas que pão duro! — Mariana urrou! — Me diz que depois ele te deixou em casa num carrão importado! Porque se ele te fez andar de ônibus depois daquele gelo todo, eu vou pessoalmente no nono período chutar as canelas dele! — Bia podia ver sua amiga brilhando num vermelho intenso, como se pegasse fogo. Ela precisava apaziguá-la de alguma forma. Só não sabia como.

— Não teve carrão. — Bia desviou o olhar para um pilar de concreto próximo. — Foi… Confuso. Ele é muito mais complicado do que eu imaginei. Aconteceram coisas que eu ainda não sei como explicar.

— “Complicado,” é? — Mari voltou a sorrir torto. — “Complicado” é apelido para “quero mais e não sei como pedir”, Bia! Mas agora é hora da “imouto” escutar sua “one-san”… — Os apelidos do ensino médio soavam tão “vergonha alheia” que Bia teve de se esconder ainda mais atrás da pasta A2. — Garotos ricos assim às vezes acham que o mistério compensa a falta dum Uber Black.

Felipe, que estava encabulado ao lado de Mari escondendo metade do rosto atrás de sua própria pasta A2, limpou a garganta. — Mari, talvez ela só não queira falar sobre…

Shiu, Felipe! Tô dando uma consultoria de vida aqui — Mariana o calou com um gesto de mão, voltando-se para Bia com uma seriedade súbita. — Escuta bem, amiga. — A voz dela baixou de repente. — Eu sei que para você ele é o “gênio incompreendido do nono período” e tem aquele jeitão de quem já viu de tudo, mas não vai caindo nos lençóis dele de bandeja, não. Homem desse tipo não dá valor quando recebe tudo fácil. Tem que fazer ele suar. Tem que fazer ele entender que para entrar no seu mundo, ele tem que ralar o joelho no asfalto.

Bia soltou um riso triste, quase inaudível. Ela pensou na fita de cetim verde manchada de sangue que ficara com ele.

— Eu acho que o problema é o contrário, Mari — murmurou Bia, forçando um sorriso amarelo, e os olhos lacrimejando levemente, enquanto o sinal para a aula ecoava pelo prédio como o gongo dum templo. — Eu é que entrei no mundo dele. E não tem uma saída.


Depois da aula, Bia correu para a Biblioteca Florestan Fernandes. Era uma catedral que exigia respeito na forma de silêncio absoluto. Beatriz estava cercada por uma muralha de papel que ela mesma erguera sobre a mesa de madeira. Diante dela, uma confusão de volumes de religião, esoterismo e filosofia.

Conforme Gabriel havia lhe orientado na noite anterior, ela procurou em especial uma Bíblia para ajudar em seus estudos, mas havia dúzias de versões e respectivas abreviaturas para as classificar. Com ajuda duma bibliotecária, ela pegou várias versões da Bíblia; algumas mais acadêmicas, e algumas judaicas.

Sem saber por onde começar, ela pegou: a Bíblia de Jerusalém de capa marrom; uma Bíblia de estudo de capa de courino vermelho; um robusto mas já bem velho volume em capa azul empoeirada intitulado Tanakh, em inglês e hebraico; e dois exemplares da Torá com capas de azul profundo, um em português subtitulado “A Lei de Moisés”, e outro em espanhol, denominado “El Jumash”. Para ela, pareciam todos iguais.

Como xintoísta, ela compreendia a reverência ao antigo, mas a centralidade absoluta que Gabriel dera àquelas páginas a atordoava. O sagrado para ela sempre fora algo vivo, presente na purificação e no altar simples de seus avós; ali, no entanto, tudo parecia codificado em uma fortaleza de tinta.

Ela sabia, de forma vaga, que a gente dele guardava um Deus único, como os cristãos, mas ainda esperava por um messias. Era essa a porta que, em sua simplicidade, ela tentara abrir ao acender velas na sexta-feira, esperando encontrar um caminho para o mundo de Gabriel. Mas, agora, diante daquela profusão de alternativas, a porta parecia pesada demais para as suas mãos.

Ela folheava o Tanakh com os dedos trêmulos. As letras hebraicas eram glifos angulares, coroados e sublinhados por uma miríade de pontos e traços minúsculos que pareciam formigas marchando em uma ordem rígida. Aquilo era muito diferente dos kanjis que ela conhecia; não havia a fluidez do pincel, apenas uma geometria que a fazia se sentir analfabeta.

— O Gabriel disse que os segredos do mundo estavam gravados aí, escondidos por uma fórmula matemática… Então isso deve ser a base de tudo. — sussurrou para si mesma, tratando os volumes com um respeito quase religioso.

Ao se preparar para sair, ela juntou as Bíblias selecionadas, acrescentando quase que por impulso um volume de capa preta e dourada chamado O Poder dos Arcanos e a Sorte Cigana que encontrara na seção de esoterismo — parecia sério e falava de símbolos, talvez ajudasse. Quando se levantou, cambaleando com o peso dos livros, uma sombra se projetou sobre a mesa.

Bebê estava parada ali, com as mãos nos bolsos duma calça de sarja larga. Tinha a pele morena bronzeada e uma linda cascata de cachos pretos fechados que emolduravam o rosto. Vestia uma bata indiana leve da cor da terra, mas seus olhos escuros estavam fixos na pilha de livros com uma seriedade que não condizia com o ambiente universitário.

— É perigoso carregar tanto peso duma vez, Bia. — A voz de Bebê era baixa, com uma ressonância que parecia vibrar no ar. Ela parecia analisar Bia com os olhos, de cima a baixo.

Bia teve um sobressalto, mas logo se recompôs. “Então ela é a namorada dele mesmo? Finge demência, Bia!” Ela fez um leve meneio com a cabeça, um gesto automático de sua vida familiar, mas seus ombros pareciam carregar um peso excessivo para um cumprimento tão simples.

— Bebê! Muito obrigada por ter se preocupado comigo ontem. — Disse ela, segurando os livros contra o peito. — Sobre aquela hora… Eu estou bem. Depois eu falei com o Gabriel e ele cuidou de tudo! — Ela abriu um sorriso de agradecimento tão sincero que poderia até mesmo fundir o coração de seu avô.

Bebê não sorriu. Ela deu um passo à frente e Bia sentiu um súbito calor emanar da luz rósea que circundava a amiga, como se o ar ao redor dela estivesse mais denso, como o calor duma tarde de verão sem vento.

— Ele cuidou? — Bebê parecia olhar para dentro da alma de Bia, e depois olhou para os livros. Bia precisava se justificar de alguma forma. Ela não roubaria o namorado da amiga! Ela precisava duma explicação rápida, mas ela não sabia se podia falar para Bebê que o rapaz era um mago, ou que a ensinaria magia.

— É que… Bem, eu não queria ser um incômodo, sabe? Eu vi o tanto que vocês são próximos. E eu só pedi ajuda com um trabalho… Só isso. Um trabalho sobre arquitetura antiga, e ele… Ele sugeriu alguma coisa sobre… Uhm… Templos judaicos. Sinagogas, né? E eu… Eu pedi uns materiais de pesquisa para entender… E ele me passou esses… — As orelhas de Bia queimavam tanto que pareciam se enrolar em si mesmas. Ela nunca vira Bebê tão séria, e sentia que não fora convincente. — Por favor… E-eu não tô tentando me meter entre vocês… — Ela baixou a cabeça, sem jeito, os olhos quase explodindo em lágrimas.

— Ele não é nada meu, Bia. Nunca foi. Eu só vim aqui te avisar. — A voz de canção de ninar de Bebê parecia agora um aviso sombrio, soava taciturna como se ela estivesse em um velório. — Essas páginas dizem a verdade, Bia. Eu também já estive debruçada sobre elas. Mas elas são um fogo que consome, e o Gabriel não vai te puxar para a segurança quando você se queimar.

Bia recuou um passo. Aquilo não era conversa de vida universitária, e isso a assustava. — O-o que você quer dizer, Bebê?

— Esse caminho pro qual o Gabriel te arrastou, é um caminho de luz, intensa e pervasiva. Mas essa luz arde, porque é real demais. E o Gabriel, ele tá machucado demais, e se acostumou. — Bebê não revelava tudo que sabia, mas sua voz recuperou a melodia. — Só toma cuidado, tá, meu doce! Você tá entrando num incêndio, se chegar perto das chamas, você vai se queimar. E tem gente que acha que se queimar é parte do processo.

— Eu não tenho escolha, Bebê. Eu já tô dentro. — Bia disse, olhando nos olhos de Bebê, mas ainda de cabeça baixa.

Bebê suspirou, e pareceu brilhar repentinamente com uma intensidade que afugentava a escuridão, e a própria energia a seu redor parecia se acalmar. Seu sorriso era aconchegante como um colo de mãe. — Eu sei. Não vou impedir. Mas fique sabendo que, quando o calor for demais e você sentir que vai derreter, eu estarei por perto.

A moça morena de cabelos cacheados abraçou Bia por entre os livros, e deu um beijo na sua testa, deixando uma marca de calor residual na pele da menina. Em seguida, ela saiu em direção à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, deixando Bia sozinha com seus livros de letras estranhas. Ela tinha medo, sabia que havia mais em Gabriel do que ela imaginava; mas a conversa de Bebê a deixou aliviada, sobre o mundo em que ela estava entrando, e sobre o próprio Gabriel. Agora, Bia só precisava passar no Parque Ibirapuera para encontrar algo que perdera, e de lá iria direto para casa.


O cheiro de gohan fresco e o som abafado da televisão na sala eram âncoras duma normalidade fora de lugar. Beatriz entrou em casa quase sem fazer barulho, trocando o sapato pelo chinelo de casa com toda cautela. Todavia, o peso da mochila com os cinco volumes bíblicos e o livro de "Sorte Cigana" faziam suas costelas gritarem a cada passo. No parque ela não encontrou o que procurava, mas ela se explicaria para Gabriel depois.

Tadaima… — murmurou, tentando deslizar para o corredor como uma sombra.

Okaeri, Bia-chan! — a voz da avó veio da cozinha. — Como foi com a Mari-chan ontem? Você estava tão apressada ontem. Conseguiram ver o que ela pediu?

Bia congelou. A mentira da tarde anterior, de que correra para ajudar a amiga, parecia um rascunho malfeito. — Foi… Tudo bem, obachan. Coisa de faculdade. E-eu… Já desço para ajudar a senhora, só deixa eu primeiro deixar uns materiais no quarto.

Ela escapuliu para o quarto, jogou a mochila em cima da cama e a cobriu com a colcha. Parecia estar escondendo um pecado. Em seguida ela passou no banheiro, limpou o rosto e voltou para a cozinha para ajudar a avó a terminar o preparo do jantar, sem entretanto pronunciar uma palavra. Sua cabeça dava voltas, mas sua avó respeitava o silêncio, como se picar as verduras juntas fosse em si uma forma de conversa.

A faca afiada cortava o nabo sem resistência, o fio refletindo a luz branca da cozinha. Ela observava aquilo, lembrando as últimas palavras de Aki antes de ir embora. A senhorita não é uma convidada. Se deseja continuar existindo neste mundo, precisará o entender. O preço da ignorância, a partir de agora, é a extinção.”


Após terminar seus afazeres domésticos, Bia subiu numa só carreira para seu quarto. Havia um tempo antes do avô chegar para o jantar. Ela puxou o exemplar da “Lei de Moisés” da mochila, sentou-se sobre a cama, pulou o prefácio, a introdução, algumas bênçãos que ela não entendia para que eram, a introdução ao Gênesis, e abriu o livro na primeira página do texto propriamente. Ela imediatamente sentiu o impacto da incompreensão.

“No princípio criou Deus os céus e a terra.”

Ela olhou para o texto original na página ao lado. Parecia estar alinhado para direita. “Deve ser tipo um mangá,” ela pensou, franzindo a testa. Ela tentava adivinhar o significado daqueles glifos estranhos.

Chichi… Pai… Mas acho que será um. Repete duas vezes, que nem o número um no outro lado. Parece ser o capítulo e o verso. — Ela pensava em voz baixa, como se fosse algo muito difícil para manter só na sua cabeça. — Depois essa letra, é grande… — Ela olhava para a letra, um bloco quadrado, aberto na esquerda, com uma base sólida. — Parece um ko de katakana, mas fechado demais. Será um “C” ao contrário? Ou um pote? Ko tipo uma criança? Ou um “A”? O livro deles deve começar com “A”, né?

A testa criava rugas de tanto que ela franzia o cenho, como uma arqueóloga tentando decifrar hieróglifos antigos sem uma pedra de roseta. — E depois… Parece um tsu, ou talvez um u, de hiragana, mas desenhado na régua… — Ela insistia naquele absurdo. — E agora… Chichi de novo? Kotsu hitotsu? — E então, o absurdo se tornou patente demais para ser ignorado. Os olhos marejaram e ela meneou a cabeça de um lado para o outro em frustração. — Doushitara iino!?

A garota resmungou, a frustração subindo pelo pescoço, e se jogou no travesseiro. “Você é burra, Bia? Que que você tá tentando ler aqui?” Nesse instante, seu celular tocou. Fazia tempo que ela não prestava atenção nele, mas agora, ela precisava parar para ver.

Era uma mensagem de Mari.

“Minha bebê do coração! Não perguntei antes, mas agora desembucha! Teve beijo? Foi seu primeiro!? Tô chorando aqui de emoção! Nem vem com ‘foi rápido’ que eu sei que foi um evento histórico para você!! Vê se me lê e responde, amiga! Me conta tuuudoo antes que eu vá aí te chacoalhar e te obrigar a falar! Por favorzinhooo!! Beijos da sua onee-san!”

Ela lembrou do dia em que ela voltou. Os lábios dele selando os dela, as testas se tocando, a mão sobre o peito dela… Então ela olhou para seu próprio corpo e se sentiu inadequada, ela não tinha as curvas de outras garotas de sua idade, ela não era como a Mari e a Bebê.

O rosto de Bia começou a esquentar, primeiro as bochechas, então as orelhas, então o pescoço inteiro, e então a frustração explodiu como um vulcão adormecido a tempo demais. Ela jogou o celular sobre o colchão, fechou o livro num só movimento, e começou a se debater na cama como se fosse uma personagem de anime em um surto colérico, chutando o ar e afundando o rosto no travesseiro para abafar o grito de raiva.

— Que ódio! Por que tudo nele tem que ser um enigma?! — Ela rosnou agudo, a voz abafada contra a fronha. — Por que ele não pode ser só um namorado normal? Por que não pode ser só um cara que me leva pro cinema e me dá um beijo sem que o mundo precise acabar no processo? Em vez disso, ele é esse segredo envolto num mistério, escondido num enigma, que ainda por cima se recusa a me deixar chegar perto… E quando deixa, é o Armagedom!

Ela estava furiosa, rolando na cama, discutindo com os pôsteres de personagens de anime que habitavam as paredes do quarto. Eu só queria um beijo romântico! — Ela bufava e encarava o teto do quarto, o fôlego curto. As palavras da Mari na faculdade voltaram como um eco irritante. “Não vai caindo nos lençóis dele de bandeja… Tem que fazer ele suar.

— Como é que eu vou fazer ele suar se eu não consigo nem ler o “A” do livro dele?!

Bia soltou um riso amargo. Na perspectiva de Mari, o “mundo” em jogo era o dela, mas era Bia quem estava ralando os joelhos no asfalto duma realidade proibida. O conselho de Mari parecia uma piada de mau gosto diante do gesto de Bebê, aquele beijo em sua testa que ainda parecia a aquecer como um abraço.

Essas páginas dizem a verdade… Mas elas são um fogo que consome.”A perspectiva de Bebê estava mais alinhada com a experiência de Bia. Não por ser mais verdadeira, mas por ser mais profunda. Isso a acalmou.

Bia tocou a cicatriz no peito e murmurou baixinho, quase inaudível. Ah… É porque ele não é um cara normal. Ele me ressuscitou, e agora vai me ensinar auto-defesa… Mágica… — A idéia pareceria absurda, se não fosse tão real. Ele não era normal, mas ela também não o era mais. O caminho até ele estava bloqueado por uma geometria impiedosa, mas ela sentia que precisava atravessá-la.

Ela abriu o livro de novo, com cuidado e acariciou a letra quadrada, o tal ko fechado demais que ela decidira ser o seu primeiro passo.

— Amanhã. — Ela disse baixinho para o papel, virando em seguida os olhos para a janela, enfeitada pelo ipê amarelo exuberante, cheio de flores. — Amanhã você vai ter que me ensinar, Gabriel. Eu preciso entender. E agora, você também precisa que eu entenda.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Capítulo 14: Aliança sob a Lua

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Gabriel se afastava de Beatriz com passos cuidadosamente coreografados, atraindo os inimigos para uma dança desencaminhante na escuridão entre as árvores, longe dos olhos indiscretos das estrelas, ou da face castiça da lua minguante.

O pulmão ardia, mas continuar se esquivando dos golpes de seus oponentes era menos desconfortável do que usar magia naquela hora. Ele sentia não ter mais forças físicas para manifestar e sustentar ainda mais poder nesse mundo. Enquanto lutava, o fardo das muralhas místicas que ele erguera na Vila Carrão espremia sua coluna.

Em sua consciência os pensamentos passavam com a velocidade dum farol de motocicleta numa rodovia vazia de noite. Ele se culpava por não ter feito o suficiente, por não ter previsto o que ocorreria, era tudo óbvio demais. Mas nenhum pensamento se demorava, não havia ensejo para isso; exceto por um. “Apenas mais quinze minutos.”


A descida de Aki até a garagem do condomínio foi ansiosa, aquele era todo tempo que ele tinha para desperdiçar, consumido pela lentidão do elevador. Assim que as portas de aço se abriram, ele disparou até a ducati, colocou seu capacete, deu a partida e, antes que o portão estivesse totalmente aberto, saiu do prédio numa só girada da manopla do acelerador.

A moto atravessou a cidade como um raio traçado por esquadro, zunindo em direção a seu destino. As placas de “Pare” e os sinaleiros vermelhos não o detinham; as buzinadas e xingamentos eram vagarosos demais para alcançar os ouvidos do velho finlandês.

“Eu não perderei outro Hazan.” O pensamento não era quente, era frio como a neve antiga, comprimida pela passagem dos anos até virar gelo. Esse era um juramento que ele havia feito ao avô de Gabriel, seu primeiro senhor, na mocidade. Salomão Hazan era um nome que exigia respeito mesmo do gelo polar. Alguém que ele até hoje chamava de amigo, ainda que não pudesse mais ser ouvido.


Bia estava aterrorizada. “Como eu posso ter sido tão boba?”, o pensamento se traduzia em lágrimas quentes e salgadas que escorriam com lentidão por suas bochechas. Gabriel a protegia mantendo a distância, ele se importava com ela, mas não se permitia a tocar pois, se o fizesse, o mundo inteiro desmoronaria.

Seu coração estava dilacerado, não pela cicatriz que insistia em brilhar em seu peito, mas por ter acreditado na promessa tola de seus shoujos, de que o amor podia salvar tudo, construir pontes e unir mundos que deveriam permanecer separados para sempre. E agora, o que a afastava do perigo no qual ela se colocara era um vendaval enfurecido que congelaria o próprio minuano, ou as suas mãos se ousasse o tocar.

“Ele está ofegante, o rosto vermelho demais… Ele cheira a suor… E sangue.” A imagem de Gabriel lhe servindo de escudo no momento em ela seria tomada pelos capotes cinzentos ficou gravada em sua consciência. E, agora, ele lutando alucinadamente contra aqueles mesmos homens bem diante de seus olhos não permitia que seu coração repousasse.

“Se continuar assim, ele vai acabar morrendo… Tudo isso é culpa minha.” Ela pensava em seus amigos, Mari, Felipe, Bebê, pensava em seus avós, Dona Yukimi e Seu Seitoku, e segurava com força o pingente no pescoço; a lembrança dos pais era um abraço que nunca chegava.


O mundo cheirava a amoníaco e terra úmida de sereno quando Galo abriu seus olhos. O coquetel de cachaça barata e pedra queimada ainda lhe queimava o esôfago. Mas o que o acordou não foi a ressaca ou a abstinência, e sim o estalo perturbador que ouvira.

Ele descobriu o cobertor velho de sobre o peito e se ergueu sobre o cotovelo, tentando focar a visão. A floresta era um breu que não conseguia ocultar o jogo de luzes que se desenrolava naquele lugar. Havia um jovem bastante alto vestido de bacana que brilhava como uma lâmpada incandescente pintada de verde, prestes a explodir. Havia também três personagens cinzentos cuja postura o lembrava policiais ou, talvez, assistentes sociais.

No meio de tudo, um esplendor dourado que o fazia sentir vergonha de si mesmo. Era uma estrela que atraia toda aquela dança para sua órbita.

A cena diante de seus olhos encheu Galo de pavor. Ele não sabia se estava tendo a viagem de sua vida, ou se o apocalipse decidira iniciar no Ibirapuera. Ele tentou se levantar, mas as pernas haviam virado gelatina. A dança das quatro figuras se aproximava perigosamente de Galo, que começou a gritar a plenos pulmões.

O rapaz se atirou a sua frente e ficou lá parado por um breve momento, como se o grito o tivesse suspendido no tempo. Seu rosto se virou para o maltrapilho, e Galo podia ver que era um tomate esbaforido. O grito não teve tempo de cessar. Foi tudo muito rápido quando os olhos vidrados do pobre diabo captaram a própria morte vindo pela mão dum dos homens cinzas, para além da figura verde trajada de preto.


Gabriel se mantinha de pé apenas pela mistura instável de sua vontade férrea com um instinto de sobrevivência feroz que ele não sabia que tinha até aquele momento. Era uma argamassa por demais fraca para sustentar a estrutura de seu corpo. As pernas criavam separação entre ele e seus oponentes, enquanto os braços defendiam com movimentos febris o rosto e tronco dos ataques de estilete que atravessavam a distância.

Suas roupas haviam se tornado um farrapo, os membros estavam cobertos de cortes que queimavam em sua pele, e seriam ainda piores não fossem os encantamentos primários de defesa sempre mantidos erguidos. O que deveria ser um embate corriqueiro contra inimigos débeis demais para um magus de seu calibre se tornara uma batalha de vida ou morte por conta de sua exaustão física, intelectual e mágica. Mas ele não morreria naquele lugar. Em sua mente, um pensamento monótono ecoava. “Apenas mais dez minutos.”

— O desfecho de nosso conflito já está determinado, Arquiteto. Insistir será infrutífero, e resultará em consequências imprevisíveis. — O capote cinzento que ele amputara antes não titubeava, apenas declarava a realidade que se apresentava. — Uma vez eliminado, o espírito familiar será incapaz de proteger a Fonte da Vida por muito tempo. É melhor que desista.

Senpai! Foge daqui! — Beatriz gritou com a voz chorosa de dentro de sua gaiola gelada. Mas Gabriel a ignorou, e respondeu à requisição do homem com um chute certeiro em seu peito que o derrubou de costas no chão, um baque molhado sobre a grama orvalhada. A contenda continuaria, e a decisão já havia sido tomada. Os operativos dos Arcontes agora seriam mais enérgicos.

Os outros dois homens cinzentos não esperaram o companheiro se levantar. Sua apatia burocrática deu lugar a uma aceleração mecânica e violenta. Eles não mais deslizavam pelas frestas; eles investiam como touros bravios para o eviscerar.

Um dos atacantes girou o braço, talhando um rasgo fundo no braço direito de Gabriel. Mas dessa vez o movimento não parou na carne dele; o impacto atingiu um poste de iluminação próximo. O metal grosso dobrou-se como papel, a lâmpada explodiu numa chuva de faíscas elétricas que banhou o caminho de asfalto próximo ao lago.

O segundo dos atacantes lançou contra ele uma lufada de vento magicamente comprimido. Ele se atirou, rolando na terra para um centenário salgueiro chorão, esquivando-se por apenas uma polegada da poderosa corrente de ar que arrancou um banco chumbado do chão e o atirou contra as árvores do bosque, partindo ao meio o tronco duma jovem quaresmeira que florescia temporã.

Gabriel começava a se aprumar quando um grito espectral cortou a atmosfera. Ele virou o rosto e viu um homem sujo, desmazelado e vestido de trapos se segurando sobre os cotovelos atrás de si. “Uma testemunha civil.” ele pensou consigo.

Sua atenção fora desviada, e por muito pouco ele não viu o terceiro ataque vindo do adversário mutilado, que já recuperara sua compostura e tinha uma linha de tiro limpa para ele. Era um projétil explosivo de escuridão concentrada envolto por vácuo, capaz de destruir um carro forte. Se Gabriel desviasse, o morador de rua atrás dele morreria, se tentasse o tirar do caminho, Gabriel morreria. Só havia uma coisa a ser feita.

Zroa barzel! — Gabriel esticou sua mão esquerda, concentrando o que restava de suas forças no braço esquerdo que brilhava com uma luz verde esmeralda, mas era insuficiente. O encantamento absorveria força do projetil, mas não havia energia o bastante para anular o impacto, ele seria apenas reduzido e desviado.

A ponta de lança constituída do mais puro nada atravessou a palma de sua mão, resvalando pelo rádio do braço até sair por seu cotovelo, o impacto reduzido e o trajeto alterado o suficiente para não causar mortes. A dor lancinante fez Gabriel arrevessar um grito surdo e torturado, abafado pelo grito do infeliz em pânico, que começava a perder o fôlego. Seus oponentes caminhavam com denodo em sua direção, para finalizar o trabalho.

Mas a aproximação dos capotes cinzentos foi interrompida pelo ronco do motor de uma motocicleta em alta velocidade. Ela foi desgovernada e atropelou um dos homens, dispersando os outros dois. Aki saltara de seu veículo naquele momento e, antes de seus pés tocarem o chão, ele atirou suas adagas prateadas contra seus adversários. Uma das navalhas atingiu a carótida dum dos que permanecia de pé, degolando-o. O corpo sem vida caiu no chão, se desfazendo em fumaça e vapor d’água.

— Você se adiantou cinco minutos ao que o cálculo previra, Aki. — Gabriel não levantou o olhar, o corpo não acompanhava a altivez de sua voz. Pela primeira vez em muito tempo, ele sabia que fora derrotado. A culpa, sua velha companheira, o acusava pelo desleixo de sua arrogância, pelo acúmulo de erros que se somaram numa única falha catastrófica; o coração pesava.

Aki caiu no chão sobre os pés, e se ergueu com agilidade felina, recuperando uma de suas adagas, cravada no solo, num único movimento fluido. Seus olhos estavam fixos nos oponentes que restavam, debilitados, um aferrolhado pelo motor quente da ducati ainda trabalhando seus pistões, outro com seu braço amputado.

Os homens de cinza se olharam sem mover o rosto, e desvaneceram pelas frestas do parque como sombras sugadas por um dreno invisível, a motocicleta com a roda ainda girando terminando sua queda num tombo que fora interrompido no atropelamento. Aki tentou acertar um deles atirando a adaga em sua mão com presteza, errando por menos da metade de uma polegada, a lâmina se fincando no tronco duma árvore no bosque escuro. A santidade daquele jardim fora profanada por um cheiro acre de ozônio, químicos, borracha queimada e gasolina.

E então, tudo se encerrou, não com um estrondo, mas com um murmurejo.


Atrás de Gabriel, o homem alucinado despencou num desmaio sufocado, o grito se encerrando junto de seu alento. Os ventos árticos que protegiam Beatriz se encerraram tão subitamente quanto haviam se iniciado, e naquele mesmo instante ela saiu correndo na direção do jovem ensanguentado. O primeiro desejo em seu coração não era agradecer seu salvador, mas enlaçá-lo em seus braços com força, como que para nunca mais o perder de novo.

Ela passou direto por Aki, como se carregada pela brisa da noite, e envolveu Gabriel num abraço apertado, encharcando suas roupas e feridas com lágrimas quentes que despencavam como uma cachoeira. No encalço dela, os passos do velho finlandês eram pesados, calculados, cada um deles uma decisão tomada como contingência.

— Gabriel-senpai, v-você tá todo machucado! S-seu braço… E-ele está sangrando muito. — Ela tirou a fita verde de cetim de seu cabelo e fez uma atadura improvisada. A mistura de sangue e suor de Gabriel, misturado às lágrimas da menina que embebiam o curativo era a prova de sua inocuidade. Mesmo assim, ele resistia o ímpeto de afastá-la de perto. “Por que o Senhor não resolveu isso falando pessoalmente com a Senhorita Sato?”, as palavras de Aki ainda reverberavam em sua cabeça.

— A garota se tornou o alvo principal, Senhor. As coisas não mais poderão continuar como estão. É hora da decisão. — A voz de Aki era clara mas poderosa como um sino de igreja. Bia virou o rosto para aquele homem que se parecia mais uma escultura de gelo. Os cabelos brancos longos amarrados num rabo de cavalo baixo tinham um brilho prateado sob a luz do crescente da lua, e seus olhos azuis claros emitiam uma luminescência de aço frio bem afiado. Ele era assombroso, mas Bia não sentia medo.

— Senhorita Sato, há um lugar seguro. — A voz de Gabriel tinha a rispidez de uma gentileza forçada, mas havia um fundo de preocupação hesitante. Os olhos de Bia se arregalaram, ela podia ler o temor que os olhos verdes agudos do rapaz não conseguiam mais esconder.

— Você não pode mais voltar para seu lar na Vila Carrão, Senhorita. Esqueça a vida que teve até agora. Há uma ilha particular na costa de Bornéu, com uma boa casa e pessoas que a atenderão. Lá a Senhorita estará segura. E confortável. — Aki foi incisivo, terminante.

Bia buscava aflita por consolo no olhar de Gabriel. — Eu não vou a lugar nenhum, Gabriel! Tenho família! Meus avós! Tenho amigos! A universidade! Aqui é meu lar! — As palavras saíam em gritos abafados, curtos e trêmulos, acompanhadas das lágrimas que escapavam, mas havia firmeza de propósito. — Você vai pensar num jeito… Você sempre encontra uma saída… — Mesmo assim, a voz falhava, e as lágrimas não aceitavam mais resistência.

— Eles estão vindo por você, Beatriz. Não por mim. — Ele parou, tentando encontrar as palavras certas, não para pedir desculpas, mas para se responsabilizar. — Eu fui leviano. Encarreguei você com a Fonte da Vida, sem considerar o peso daquilo que lhe impus. — Ele sentia a fratura da pilastra que sustentava a estrutura de seus planos se aprofundar.

Por tempo demais ele tentou ser um arquiteto distante, desenhando plantas baixas para retificar uma construção que, todavia, ele não desejava tocar, como se um mero esbarrão seu pudesse rachar e, por fim, deitar abaixo todo o edifício da realidade a partir de seus alicerces.

Ele levantou seus olhos para Beatriz, e depois para Aki. Em sua mente ele calculava os riscos e as probabilidades.

— O Senhor se provou inábil para protegê-la. — O mordomo já resolvera a equação enquanto limpava uma de suas adagas de prata. Sua fala não era uma crítica, era uma análise da realidade que se colocava a sua frente.

— E-então… — Bia encheu seus pulmões num único gole de ar, que se queimava com a brisa fria do outono de noite. Ela transformou aquele alento em ânimo, uma bravura grande demais para uma garota tão miúda. — Então me ensinem! Eu posso aprender a me proteger, eu prometo… E-eu prometo que não vou ser um fardo.

Gabriel a encarou, surpreso, seus lábios entreabertos. A menina delicada de roupas graciosas era mais corajosa do que parecia. Ele vira nela um vaso frágil, mas agora Beatriz oferecia ser um pilar.

— A magia é uma arte perigosa, Beatriz. — Ele advertiu, o tom pesaroso, quase apreensivo. — Ela muda a forma como você vê o mundo, seu preço desmesuradamente cruel é pago em humanidade.

Beatriz pousou a mão direita sobre a cicatriz que brilhava sob o moletom. — Eu já não vejo o mundo do mesmo jeito desde aquela terça à noite, Senpai. — Ela objetou com delicadeza, mas decidida. — E eu vi o que você fez por aquele homem. — Com a mão esquerda ela apontou para o homem desmaiado sob o salgueiro. — Você se isola atrás de frieza, solidão e livros difíceis, mas eu vi a bondade em você, Gabriel Hazan. Eu sabia que ela estava aí. Agora eu tenho certeza.

De todos os ângulos pelos quais ele poderia ter analisado aquele problema, esse era o mais obtuso. Mas a aliança estava selada, os olhos verde-esmeralda penetrantes dele e os olhos castanhos amendoados dela se fixaram mutuamente, refletindo a luz em forma de foice da lua como dois lagos de águas cristalinas. — Então eu serei seu mestre.

Capítulo 15: Perspectivas