terça-feira, 23 de junho de 2026

Capítulo 8: Perpendiculares

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

 No dia seguinte Bia acordou cansada, envergonhada. Naquela manhã de quarta-feira, ela passou tempo demais fitando a própria mão, os olhos castanhos afogados em incertezas, atracada com seu travesseiro como se fosse uma âncora, até que a avó a arrancou do transe.

— Bia-chan, desse jeito você vai se atrasar! — A doce voz que se seguiu às três batidas leves na porta era consoladora.

— Eu… Já vou levantar obachan. Só preciso terminar de acordar! — Ela se sentou na cama e se espreguiçou tão forte que parecia que as sombras da tarde anterior fugiriam dela. Com a barra da camiseta limpou as lágrimas secas dos olhos. Antes de se levantar, ela correu o olhar pelo quarto, como se procurasse alguém que não estava lá, parando apenas quando pousou os olhos nas bonecas que enfeitavam sua escrivaninha de imbuia.

Eram duas figuras de rosto redondo e impecavelmente branco, sentadas com elegância sobre as próprias pernas, que Bia herdara da mãe quando ainda era uma bebê. Ohina-sama, a boneca feminina, trajava um pesado junihitoe branco, cujas doze camadas de seda adornadas com flores de pessegueiro escondiam o vermelho vibrante do kosode por baixo. O cabelo, feito de fios de seda negra que pareciam reais, estava preso num osuberakashi preciso, coroado por um tenkan dourado que refletia a luz da manhã. Em suas mãos um leque aberto exibia uma floresta de folhas verdes, pintado a mão com cuidado como a tela de um quadro.

A seu lado estava Odairi-sama, a figura masculina. Trajava um sokutai carmesim sobre um kosode dourado. Sua cabeça sustentava um kanmuri negro e imponente, e ele segurava o shaku de madeira com toda a solenidade de um príncipe-regente. Depois de alguns segundos que lhe pareceram uma eternidade, enfim, Bia se levantou para abrir a porta. Do outro lado, a gentil avó a aguardava, como um sol dourado que aquece mas não queima.

— Não se preocupe que eu já preparei seu banho e café da manhã. Seja rápida menina! — Bia abraçou a mulher sorridente e com cheiro de sabonete de alfazema à sua frente com força, e deu um beijo em sua bochecha. Não eram necessárias palavras para explicar aquele momento, a avó retribuiu calada, dizendo que estava tudo bem com suas mãos entre os cabelos da garota que ela criara. O momento, para Bia, lembrava a noite fatídica em que seus pais morreram.

Ela tomou seu banho apressada e vestiu sua roupa com rapidez. Uma camisa branca básica de gola redonda, um cardigã cropped lavanda por cima, e uma saia plissada midi da mesma cor completava o conjunto. Ela amarrou o cabelo em uma trança e passou uma maquiagem leve. Era simples, mas acima de tudo, era verdadeiro, fiel à garota que ela sempre fora.

Ela desceu as escadas quase correndo, carregando uma pasta de reserva, leve demais para a sustentar. A menina não parou sequer para engolir o café da manhã, apenas colocou um pão com manteiga na boca e catou o obentô ainda quentinho que a avó lhe preparara antes de chispar para o pequeno vestíbulo da sala de estar, onde o converse All Star surrado a esperava junto de uma sacola preta de loja de departamentos com o paletó lavado mas ainda úmido do rapaz de ontem, passando direto pelo avô como se não pudesse o encarar. — Te amo, obachan! Te amo, ojiichan! Tô atrasada! Itekimasu! — Naquele momento a rotina matinal parecia errada, mas ela não podia voltar agora para um beijo que não fora dado, apenas reiterar o que sentia. — Amo vocês!

Bia fechou a porta no mesmo movimento que a abriu, ouvindo a avó gritar um “Também te amo, meu bem!” da cozinha. Ela apurou o passo sobre o tapete amarelo que enfeitava o caminho entre o lar que ela deixava para trás e a rua à sua frente. Seu coração também estava apurado, ela precisava de uma resposta, ainda que machucasse.


A arquitetura brutalista do Villanova Artigas parecia ainda mais brutal naquele dia, ignorando com sua grandeza esmagadora a insignificante presença da garota de olhos tenros que procurava no caos de estudantes por seu redentor. Ela tentava cruzar os olhos com os dele, como duas retas que se encontram na perpendicular de um plano cartesiano, porém ela o via fugir por entre as frestas, como se eles pertencessem a duas geometrias diferentes.

Mas pela primeira vez, Bia sabia de alguma forma que ele prestava atenção nela, com seus olhos verde-esmeralda virados para ela com toda a frieza de uma espada. E ela precisava devolver o paletó dele, e exigir explicações.

Bia! Ei, Bia! A voz de Felipe se destacou do burburinho da multidão, chamando-a de volta. Ele brilhava com um azul-bebê honesto. “Combina com ele,” ela pensou.

— Você sumiu ontem, Bia… Do nada! Eu tentei te ligar, mandei mensagem, e nada. Você não atende mais o celular! Você correu atrás daquele cara e desapareceu na chuva. Eu achei que você tinha sido assaltada ou… — Ele parou, hesitando em revelar a extensão de seus pensamentos, enquanto seus olhos varriam o rosto dela em busca de feridas. — Você está bem? Voltou em segurança? Não importa porque você foi atrás dele, eu só… Preciso saber se você está inteira.

— Eu estou bem, Felipe. Sério. Só… Tropecei, e ele me ajudou. — A resposta saía automática, mas o tom era oco, como um escudo de madeira fina. Mas não havia tempo para conversas, o professor acabara de entrar.


As aulas andavam trôpegas, cada tique-taque do relógio sobre o quadro negro um passo desajeitado, lento. As horas se arrastaram até chegar a hora da saída, e quando o relógio marcou a hora e o minuto certo, Bia começou a arrumar suas coisas para buscar a solução para o mistério de sua nova vida.

Fica aí, amiga. Eu preciso falar uma coisa. Mariana se aproximou dela como uma labareda que parecia que a iria queimar. Os cachos do volumoso cabelo ruivo pareciam roubar a luz das lâmpadas só para eles. Diante daquela figura de autoridade, Bia não podia dizer não. Quando a sala se esvaziou, ela bradou. — Pode começar a falar, Beatriz. E não olhe para o Felipe com essa cara de acusação, ele não abriu o bico. Sua BFF não é burra, sabia?

— Mariana, agora não… — Bia tentou recuar. Não era uma negativa, era uma petição.

— Agora sim! — Mariana a segurou pelo braço e expulsou Felipe da sala com os olhos. — Que história é essa de sumir? Você tem noção que a gente tinha aquela conversa marcada com o pessoal do escritório, para o estágio? Você perdeu a chance, Bia! Tudo por causa de um babaca com um rei na barriga que nem sabe o seu nome!

Bia sentiu o peso da cicatriz pulsar. — Eu tropecei, Mari. Em um canteiro de obras. Um ferro me pegou, e ele me ajudou e… — De novo aquela história, aquela mentira por omissão, que já se tornara espontânea.

— Bia, olha para mim. Eu sou sua amiga, não sua avó. Essa história está mal contada. Você está com cara de quem viu um fantasma e agora está tentando virar um. Cria juízo! Aquele Hazan… Ele é veneno. Ele não é desse mundo, e desse jeito, você vai se afogar tentando alcançar ele.

Bia não respondeu, ela não podia. Até que ela sentiu a ressonância em seu peito, e seus olhos foram atraídos novamente para o vão das escadas. Lá estava ele de novo, Gabriel. No intervalo ele aparecera entre os pilares do subsolo, apenas para sumir assim que ela deu um passo à frente. Era um jogo de esconde-esconde cruel. Ele a evitava como se ela fosse uma mancha de nanquim em seu projeto perfeito, mas não conseguia parar de monitorar a garota que ele arrancara dos braços da morte.

Seu silêncio de espanto logo deu lugar a uma inquietação febril, ela precisava falar com ele. Bia se desvencilhou da amiga e correu até o corredor, mas ele sumira de novo, nas frestas do canto da visão. Ela olhou para Felipe buscando uma resposta para aquilo, mas o rapaz estava distraído jogando em seu celular.

— Bia, vamos logo, pega o seu material. O Erik disse que vai passar para nos pegar, vai te levar para casa hoje. — Mariana lançou um olhar desconfiado para a sacola preta e saiu da sala, a voz já não tinha mais cobrança, era de novo aquela irmã mais velha legal, a onee-chan que no ensino médio ajudara Bia a se integrar no novo colégio.

— Pode ir, Mari. Eu… Esqueci uma coisa na biblioteca. — Ela se preparou para sair correndo, agarrando com força a sacola com o paletó que a protegera na noite do dia anterior.

— Bia, não ouse. — O tom era de intimação, e ela soube naquele mesmo instante que não poderia ousar. A menina ficou ali, suspensa no alto da escadaria, uma estátua imóvel e delicada. Felipe a observava com cara de espanto, a boca entreaberta dum rapaz que não sabe bem o que dizer.

Na frente do edifício, o trio aguardava a chegada de Erik Schneider, o namorado de Mariana. Ele era um estudante do quarto ano de medicina. Loiro e alto, de ombros largos, pele avermelhada e a risada divertida de quem encontrou o ponto de equilíbrio. Quando ele parou com seu hatch na frente do prédio, Mariana correu para o abraçar, completando o protocolo com um selinho rápido, aquele gesto de casal amorzinho que fazia Felipe desviar o olhar, mas que Bia havia aprendido a apreciar, e que agora, entretanto, a perturbava.

Mariana era tão plena, dona de si, e dona de um lindo par de pernas que pareciam querer sair da calça jeans escura apertada. Não dava de a comparar com aquela menina plana, sem graça, que Mariana cuidava como uma irmã mais nova.

— Oi galera! Tudo bem? — O rapaz sorria enquanto falava, e brilhava com o branco de uma parede sólida e bem caiada. — Vamos para casa? A Mari me falou que hoje vou ter de fazer a corrida fiado. — A piada sem graça fez Mari dar uma cotovelada de leve no namorado, mas em seguida os dois se entreolharam, cada um com um sorriso pela metade, trocando uma confidência silenciosa que só quem se ama consegue.

— Pode deixar que depois eu acerto as contas com o meu CDF particular! — Mariana falou num tom travesso e em seguida olhou para Bia. Seu olhar era uma ordem silenciosa que não aceitava um não como resposta. Bia sabia que estaria em segurança se obedecesse, e por isso ela obedeceu.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Capítulo 7: Eco de Vida

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

 A noite paulistana estava especialmente fria naquele dia. Bia fitava o pé de ipê que lhe estendia um tapete amarelo para que atravessasse o espaço entre o portão e a entrada da casa. Ela não conseguia se lembrar direito de como chegara.

O trajeto no transporte foi um borrão de luzes fluorescentes, e durante a viagem de volta ela sentiu uma vertigem nova. As pessoas ao seu redor não eram apenas desconhecidos cansados; elas brilhavam em uma multidão de cores. Como se cada um houvesse sido embebido em tinta fresca e atirado com força contra um papel. As pessoas brilhavam, algumas fortes, outras fracas, algumas com tons berrantes, outras com tons pastéis, e algumas até mesmo em branco e cinza, havia quem misturasse um pouco de tudo, todas a seu modo individual.

Naquele caos, ela se afastava, procurava um canto isolado para ficar. Tinha medo que, se alguém esbarrasse nela, suas cores poderiam se misturar, e talvez aquele eco de vida que a sustentava pudesse silenciar.

Ela só lembrava de esconder compulsivamente a mancha vermelho rubi em sua roupa com o paletó que Gabriel lhe entregara, com sua mochila, e com sua pasta de materiais. “O omamori não sujou…” o pensamento passou rápido e não se demorou, como uma visita que chega numa hora inconveniente.

Por quantas estações ela passou? Em quantos veículos diferentes ela transitou nas ruas da metrópole? Por que aquela mancha carmesim em suas roupas brilhava como uma pedra preciosa? Eram perguntas que pareciam impossíveis de responder para aquela garota desnorteada. Mas a pergunta mais importante era a mais difícil de todas: Como ela iria explicar tudo isso para seus avós?

A garoa ainda insistia quando a menina atravessou o portão de ferro da casa na Vila Carrão, pisando sobre o tapete de pétalas, que havia sido estendido especialmente para ela, até chegar à porta de seu lar. A edificação simples era uma relíquia que seus avós se recusavam a vender, apesar das torres de condomínios que brotavam ao redor como ervas daninhas a cada ano que passava. Um sobrado antigo de tijolos, todo pintado de branco, com um pequeno jardim de azaleias e aquele ipê imponente que ela conhecia desde que se lembrava por gente.

Ela correu por sobre as flores salpicadas de chuvisco e sereno, como se quisesse fugir para os braços amorosos de sua família.


No minúsculo vestíbulo, Bia parou por hábito, mas suas mãos tremiam tanto que ela quase caiu ao desamarrar os cadarços do converse All Star encharcado. Ela deixou os tênis no tapete de entrada e calçou os chinelos de pano, sentindo o conforto familiar do tecido contra a pele molhada da planta do pé. Mesmo assim, o rito doméstico de trocar o calçado, que sempre servira para separar o mundo exterior do sagrado da casa, hoje parecia insuficiente. Havia algo que insistia em a acompanhar em seu peito para dentro da segurança de seu lar, algo antigo e poderoso.

— Bia-chan? É você? Por que demorou tanto, menina? Foi bem na entrevista? — A voz de Dona Yukimi veio da cozinha, acompanhada pelo som rítmico de vegetais sendo picados. Dessa vez, Bia não ajudava sua avó com o preparo do alimento, aquela rotina aconchegante que aprendera quando ainda era apenas uma criança grande.

Bia parou na porta da cozinha. Ela olhou para a avó e o mundo oscilou. Dona Yukimi não era apenas uma senhora de setenta anos usando um avental florido. Bia viu, por cima dos ombros da avó, uma espécie de pulsação dourada, um calor que emanava de sua pele e preenchia o cômodo, igual àquela luz que a preenchera e transbordara de si antes. Mas aquele brilho era real, orgânico, e não uma fantasmagoria etérea.

Obachan… Eu… — Bia murmurou, apertando o casaco sujo de Gabriel e segurando sua pasta enlameada contra o peito.

Dona Yukimi limpou as mãos no avental enquanto se virava. Seus olhos se encheram de preocupação maternal quando ela viu o estado da neta, e em passos curtos e rápidos ela se aproximou para tocar o rosto da neta. Suas mãos cheiravam a gengibre e shoyu, um cheiro que Bia sempre associou à segurança. — Você está pálida. E toda suja de lama, inclusive seu material. Cadê sua fita? E esse paletó imundo? Ele é muito grande para você. Me deixe tirar! — O afeto da pequena senhorinha impediu que Bia reagisse a tempo. — Bia, sua jaqueta! Sua roupa! Está rasgada no peito, manchada de sangue! O que aconteceu? Foi assalto?

— Eu… Eu tropecei. Em um canteiro de obras perto da faculdade. Um ferro me pegou, mas estou bem. O paletó é de um veterano que me ajudou. — Era a primeira vez que ela mentia para seus avós, e a desculpa parecia tão absurda aos seus ouvidos que ela sabia que somente sua avó a compraria. Mas o que ela falaria? Que morrera e ressuscitara no caminho para casa? Suas orelhas se dobravam de tão quentes.

Dona Yukimi suspirou ao ver a expressão de vergonha no rosto de Bia, conduzindo a neta para a mesa de madeira gasta. — É aquele rapaz, não é, Bia-chan? Aquele Hazan. Você correu atrás dele, tropeçou e se machucou. — Bia mal podia acreditar que sua avó acreditou. — Beatriz, preste atenção: judeus e japoneses são como duas ilhas. Cada uma tem seu mar, suas tradições, seu sangue. Eles não casam fora, nós também não. O avô do rapaz foi um patriarca, e seu avô também é um patriarca. Duas gentes que não se misturam. Você é uma boba, uma menina sonhadora, querendo entrar num mundo que não tem porta para você. — Houve um breve silêncio, como se a advertência fosse se transformar em ralha. — Fique aqui e coma alguma coisa, depois eu vou preparar um banho para você. — A doçura da avó era reconfortante, mas aquilo que a menina escondia machucava seu peito como ferro em brasa.

A avó preparou e serviu uma xícara de chá verde fumegante, acompanhado de um prato de bolachas de arroz. O calor do líquido emanando do recipiente parecia brigar com o frio que Bia ainda sentia na base da coluna.

— Coma. Aqueça o corpo. O coração dos homens é complicado, mas o chá é simples.

Bia bebeu o chá em goles sôfregos, mas as palavras de cautela da avó ecoavam em sua mente. “Um mundo que não tem porta para você.” Os Hazan eram uma dinastia de papel e tinta, donos de um império editorial e de uma elegância que, para aquela menina corriqueira, parecia remontar de séculos. Ela era a neta de imigrantes que suaram para comprar aquele terreno na Zona Leste. Mas não era o dinheiro. Era a natureza deles. Gabriel carregava algo que ela de algum modo sabia ser muito antigo, primordial.

Depois de comer rapidamente, ela subiu apressada para o banho. A avó levou suas roupas para a lavanderia, junto do material e do guarda-chuva, mas Bia viu que algumas flores de ipê ficaram para trás, uma lembrança de tudo que acontecera naquele dia. Ela entrou na banheira, precisava remover a sujeira que havia se agarrado a seu corpo, mas não queria se demorar, pois se tivesse de explicar o ocorrido para o avô o desafio seria maior. O curioso é que não havia marca de sangue em seu corpo, nem mesmo na cicatriz que agora adornava seu peito esquerdo.

— Vou deitar, obachan. Estou exausta. — Bia gritou ao sair do banheiro, com toda a tranquilidade de uma estelionatária, e em seguida fugiu para o quarto e trancou a porta. Lá, entre suas coleções e mangás, pôsteres de animes, bonecas e materiais da faculdade organizados no pouco espaço disponível, ela se jogou na cama, enterrando o rosto no travesseiro e agarrando-o como se fosse a única coisa sólida em um universo de papel. Ela levou a mão ao peito, por baixo da camiseta do pijama, e sentiu a cicatriz. A linha perfeitamente reta pulsava.

Ele me segurou. A imagem de Gabriel, com o rosto colado ao dela, a mão esquerda segurando sua mão direita, e a mão direita pressionada contra o seu peito; ele era o centro do seu furacão. “Ele me salvou. Ninguém faz aquilo por nada. Ele me ama? Ela não conseguia evitar se comparar às heroínas de suas revistas de romance em quadrinhos. Mas logo a dúvida vinha, ácida: “Ou ele só quer me usar?

Ele dissera que precisaria dela. Mas como? Ele só falou com ela quando ela o puxou para fora de seu esconderijo na Biblioteca, apenas duas vezes em todo o semestre, exceto por alguns ois encabulados que ela lhe dirigiu nos corredores da FAU, respondidos sempre com aquela gentileza formal, distante de sempre. Havia algo mais ali. Não era “aquilo”, e não era um interesse comum. Era algo terrível, sublime como a própria vida.

Eu morri? Eu lembro do escuro ruidoso, gelado.

Ela viu o homem de capote cinzento. Viu o estilete. Sentiu o gosto do sangue. E lembrou-se da voz de Gabriel. “!” Não era uma ordem, era uma melodia triste cujo poder a costurou de volta à existência. Só de lembrar, o peito ainda queimava, ardia, doía.

Ela lembrou da cor de Gabriel, um verde-esmeralda tão profundo, tão brilhante, que no começo parecia que a cegaria. Não eram mais só os olhos dele. Ele, assim como o mundo, também fora pintado pela experiência que ela tivera.

— Beatriz? — A voz de Dona Yukimi soou do outro lado da porta, vindo num tom de preocupação apertada, acompanhada por três batidas leves. — Você esqueceu o remédio para alergia. Está tudo bem aí dentro? Você está chorando? — Ela só percebeu nesse momento que seu travesseiro estava encharcado. O colo de sua avó seria um lugar melhor para isso, como ela fizera inúmeras vezes desde que foi morar nessa casa. Mas ela não podia abrir a porta, não podia encarar os olhos da avó e explicar o inexplicável.

Bia prendeu a respiração por tempo demais, até controlar os soluços baixinhos que acompanhavam seu choro. Através da madeira, ela conseguia “sentir” o calor da avó, aquela aura batendo contra a porta. De novo, o pânico subiu. “Eu morri e agora vejo o que ninguém vê? Eu sou um fantasma dentro de casa? Mas não havia mais tempo para se acalmar.

— Tô bem, obachan! Só… Só tô com sono! — Gritou, a voz embargada. Ela não conseguiria mentir de novo para sua querida avó, não sem se machucar com as próprias mentiras, sem fazer seu próprio coração chorar.

— Tudo bem, boa noite! Durma bem. E se precisar de mim, pode me chamar. Eu sempre vou estar aqui para ouvir minha querida omagochan. — Ela prestou atenção aos passos silenciosos da avó se afastando, até que não mais os pudesse escutar.

Bia estava ainda em choque. Ela se enrolou nas cobertas, tremendo, querendo se esconder do mundo, da própria realidade. De algum modo Gabriel mudara a frequência de sua alma. Ele a salvara do fim, mas com isso a condenara a um início que ela não entendia, e ele se recusava a explicar. Ele a amava? Ou ela era apenas uma peça em uma arquitetura maior, uma decoração de porcelana quebrada que ele decidiu remendar por orgulho? “KintsuKuroi.” Ela rememorava a luz dourada que ela vira no momento da ressurreição.

Ainda vamos nos encontrar…” Bia fechou os olhos, mas o silêncio do quarto agora ressoava com a pulsação da cicatriz em seu peito, como se um segundo coração estivesse batendo ali agora.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Capítulo 6: O Fardo da Onipotência

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Após resolver seus negócios, Gabriel partiu com urgência. A cidade seguia seu ritmo impassível, ignorando propositadamente o mandamento absoluto transgredido com completo desacato em seu coração. Gabriel andou de volta até a avenida como um fantasma entre os paredões de aço e concreto que se amontoavam à beira da calçada. Os faróis dos carros cortavam o cinza em lampejos de luz artificial que faziam o sangue em suas mãos parecer, por breves instantes, mercúrio negro.

Ao chegar na avenida, Gabriel não chamou seu chofer de volta, tampouco pegou um táxi. Ele caminhou sob o chuvisco por quilômetros, ignorando os olhares curiosos dos pedestres que viam um jovem de camisa de seda negra, completamente encharcada, e com expressão apática, vagando pelas rígidas calçadas de São Paulo.

A água não conseguia lavar o sangue de Beatriz das suas mãos, mas pior era o rastro místico do que fizera, que se apegara à sua alma como piche. Ele não estava abatido pela luta, mas pela falha, por ter se deixado distrair por aqueles olhos castanhos e amendoados, e ter sacrificado a herança de seu pai para corrigir seu erro, deixar que um inocente morresse em sua guerra particular. Cada passo era uma luta contra a força terrível que ele exigia de si mesmo.

Ao entrar no hall de mármore translúcido do edifício desenhado em art déco, o silêncio do condomínio de luxo o atingiu como uma bofetada, contrastando com o lamento baixinho da água que sussurava ao cair dos céus do lado de fora. O segurança noturno desviou o olhar, treinado para nunca questionar o estado em que as deidades retornavam para seus olimpos de vidro.

Dentro do elevador, o painel digital marcava a ascensão enquanto o reflexo de Gabriel no espelho cristalino parecia se desintegrar. Ele observou a si mesmo, e a imagem lhe repugnou: a camisa cara empapada de água e sangue, grudada ao peito como uma segunda pele morta, e a palidez de sua tez contrastando com o escarlate seco em suas mãos e sob as unhas. Ele não era um salvador; era um usurpador que acabara de roubar a soberania da morte.


Quando finalmente terminou sua subida e entrou na cobertura, a camisa de seda negra agora arruinada — uma de muitas, todas idênticas — pesava como uma armadura de chumbo. O luxo do salão de entrada do apartamento, com seus móveis de design exclusivo e obras de arte discretas, afrontava a sujeira que ele carregava consigo.

Joakim “Aki” Virtanen o esperava no vestíbulo. Ele não segurava uma toalha ou uma bebida quente; segurava um cronômetro e um mapa estelar impresso. O velho finlandês não moveu um músculo sequer ao ver o estado deplorável do jovem patrão, mas seus olhos azuis, gélidos e penetrantes, varreram cada rasgo no tecido e cada mancha de lama deixada pelos sapatos no mármore italiano.

— O senhor demorou dezessete minutos a mais do que o cálculo de contingência permitia, Senhor Hazan — disse Aki, a voz seca como papel antigo, sem qualquer traço de alívio. — E o senhor cheira a entropia revertida. É um odor ofensivo para as leis da física.

Gabriel passou por ele sem dizer nada, deixando um rastro de água suja. Ele foi direto para o escritório, um santuário de carvalho e couro com piso variegado em xadrez onde o silêncio era interrompido apenas pelo tique-taque de relógios de precisão. Na parede da frente, transformada em quadro negro, plantas baixas e desenhos técnicos de catedrais nunca construídas conviviam com mapas estelares. Nas estantes que ladeavam sua escrivaninha de jacarandá-preto, instrumentos técnicos antiquados e modernos disputavam o pouco espaço restante com livros cuidadosamente catalogados, incluindo edições raras de textos esquecidos, bem como manuscritos e incunábulos supostamente perdidos.

Fechando as paredes, a janela de trás, com seu vidro grosso e bem transparente, exibia a cidade como um quadro pintado à mão. Dois enormes globos, um terrestre amarelado e um celeste esverdeado, se situavam no centro da sala, sustentados por suportes massivos. Naquele momento, a luz das luminárias de design industrial não só iluminava, mas revelava o asseio com que o cômodo era mantido, pois não havia poeira alguma sobre os móveis.

Finalmente o corpo de Gabriel cedeu ao cansaço e ele desabou na poltrona, as mãos ensanguentadas tremendo sob a luz fria da sala. A harmonia do ambiente estava quebrada por sua presença poluída.

— Os capotes cinzentos dos Arcontes me encontraram. — Disse Gabriel, a voz rouca, recusando-se a olhar para o mordomo. — No terreno baldio da Rua Santo Acácio. Estavam me monitorando.

Aki entrou no escritório, fechando as portas com um clique definitivo. Em seguida, ele se aproximou da mesa, observando Gabriel com uma severidade que apenas alguém que vira gerações de homens cometerem os mesmos erros poderia possuir.

— Os capotes cinzentos são um problema de logística, Sr. Hazan. Sua chegada já era esperada. Eles podem ser neutralizados ou realocados. O que eu sinto emanando do seu corpo, entretanto, é um problema de arquitetura. O senhor mexeu nos alicerces do que é irrevogável, conjurou um poder que a magia é incapaz de alcançar.

Gabriel levantou o rosto, os olhos verdes tentando esconder um segredo de alguém que podia lhe ler como a um livro aberto. — Uma garota… Uma caloura do curso de Arquitetura. Ela me seguiu, e eu me distraí.

Aki permaneceu posto em silêncio, paciente como um velho e sólido carvalho, olhando para as mãos enodoadas de carmim de seu jovem mestre. Ele o contemplava com toda a inclemência de um pai que sabe que seu filho mente, e aguarda ouvir a verdade, não para fazer as pazes, mas para aplicar a justa punição. Gabriel não conseguia se esquivar.

— Ela foi atingida pelo estilete, e morreu em meus braços. Eu senti o exato momento em que sua estrutura desmoronou. O fôlego dela escapou de suas narinas, eu pude sentir o peso do corpo dela mudar.

— E, no entanto, o senhor não está de luto. — Aki observou, sua voz ganhando um tom mais cortante, quase cruel. — O senhor está exausto. — Aki aguardou um instante antes de continuar. Ele lia as palavras invisíveis, inexprimidas, na fronte de seu amo.

— O senhor tomou a herança de seu pai e a depositou em um vaso inadequado. Uma civil? Uma garota que ainda não alcançou os vinte e um anos de idade? Que não possui a geometria necessária para suportar o que o senhor forçou para dentro dela? A Fonte da Vida é um tesouro único, que você desperdiçou. Isso não foi um resgate, Gabriel. Foi uma irresponsabilidade monumental.

— Eu não podia deixá-la morrer! — Gabriel levantou a voz, o corpo ficando ereto na poltrona como se quisesse se levantar. — Eu nunca deixei nenhum inocente morrer desde que assumi este lugar. Eu não sou como o meu pai, Aki. — Pelo tempo de uma oração ou duas, seu timbre ganhou uma cadência sussurrada. — Ele passou seus últimos anos estudando a Fonte da Vida, e mesmo assim não conseguiu sustentar a própria vida. Se eu vou retificar o mundo, eu não posso permitir mais uma rachadura em sua estrutura! — Em sua última frase ele recuperou o tom inicial.

Aki não recuou. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância até que sua sombra cobrisse o rosto de Gabriel.

— Esse é o seu erro. O senhor se acha onipotente. — Disse o velho, com uma calma que era pior do que um grito. — O senhor acredita que pode carregar o peso do mundo nas costas e redesenhar a realidade conforme sua conveniência ética. Ao ressuscitá-la, o senhor não a salvou, mas a condenou a ser um farol para nossos inimigos. O senhor vinculou uma alma inocente a um projeto de destruição, deu a ela uma vida que não é dela, um empréstimo da sua própria arrogância. E o mais grave de tudo, o senhor colocou em risco o próprio projeto de retificação.

— Eu assumo a inteira responsabilidade por ela. — murmurou Gabriel, voltando a se sentar, envergonhado por sua precipitação.

— Sua culpa não é uma moeda de troca no cosmos, Gabriel. O senhor ambiciona ser o Arquiteto do Universo, responsável por projetar a retificação, o Mundo Vindouro, mas esquece que até as catedrais mais belas desabam se o solo não for firme. Aquela menina é barro comum. O senhor soprou o Fogo Divino nela apenas para aplacar o seu próprio pavor de perder. Mas ela vai quebrar, e quando quebrar, o senhor terá o sangue dela nas mãos pela segunda vez. Só que, da próxima vez, não haverá retorno, pois o senhor extraviou a Fonte da Vida.

Gabriel fechou os olhos. No escuro de sua mente, ele ainda sentia o calor macio do peito de Beatriz na palma de sua mão, e a resistência do Universo cedendo à sua súplica.

— Prepare a vigilância. — Ordenou Gabriel, sem abrir os olhos, sua estratégia. — A Fonte da Vida permanecerá segura. Se ela é um farol, eu serei a sombra que a esconde.

— O senhor será o fogo negro que a consome. — Corrigiu Aki, virando-se para sair. — Mas farei o que pede. Eu prometi a seu avô que cuidaria dos últimos Hazan. Eu já perdi seu pai, mas vou seguir o senhor para o inferno se for necessário, mesmo que seja para queimar o mundo e provar que tem razão sobre as cinzas. — Havia uma determinação frígida como o Ártico na fala de Aki.

O mordomo saiu, e Gabriel ficou sozinho com o tique-taque do relógio. Seu bisavô havia trazido o negócio de livros quando viera da Síria para o Brasil, e seu avô transformara o ofício do pai em um império global; mas ele nunca os conheceu, suas vidas ceifadas antes do tempo em acidentes mundanos.

Ele sabia que os Hazan sempre esconderam segredos, mas foi Samuel, seu pai, quem verdadeiramente os decifrou. Gabriel herdou esses segredos, inclusive aquele que cobrara a vida de seu pai há treze anos. Essa era a chave para reconstruir o mundo, reiniciar o próprio cômputo dos anos, uma segunda chance para poder fazer tudo certo.

E Gabriel desperdiçara sua herança com um vaso de qualidade inferior, ele fora irresponsável em sua empáfia. Ele olhou para as palmas das mãos, que agora pareciam carregar uma vibração invisível. Ele havia salvado Beatriz, mas, ao olhar para o vazio da sala, ele se perguntou se o preço daquela vida não seria, eventualmente, a destruição de tudo o que ele planejava construir, e mesmo de quem ele ousou tentar salvar do inevitável.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Capítulo 5: O Avesso do Nada

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O mundo de Bia se fechava, como um livro que o autor desistiu de escrever. O som foi o primeiro a ir embora. Gabriel gritou algo, não para seus adversários, mas para os Céus, e ela não entendia o que ele falava, mas sentia seu coração batendo forte contra o seu, protegendo-a, isso a deixava estranhamente feliz. E então foi a luz; aquela luz esmeralda tão forte dos olhos verdes do rapaz, emoldurada pelas flores douradas pintadas sobre o céu cor de chumbo, aquela luz se apagou.

Bia parecia flutuar, só ele e ela, e então só ela, as gotas gélidas lavando seu corpo, e sob ela a lama úmida e quente a abraçava, clamando seu retorno. “Era para ser quente assim?”, ela pensava, tentando encontrar uma narrativa no que, de outro modo, parecia uma história tão crua, tão banal.

E então foi como se ela tivesse mergulhado em um oceano escuro, gélido e ruidoso, sem um raio de luz ao qual ela pudesse se agarrar. Seu corpo formigava, e em sua mente ela se questionava “É assim? A morte?”, ela não via ninguém que a recebesse, que pudesse lhe dizer que está tudo bem. Aquele frio violento que queimara seu peito no momento do impacto deu lugar a uma dormência pesada, e havia uma gravidade que puxava sua consciência para o fundo de sua própria mente.

Bia sentiu a estrutura de quem ela era desmoronando. As memórias que ela guardava com carinho de seus pais, de quando ainda era muito pequena, o cheiro da comida de sua mãe, e as cantigas que seu pai cantarolava para afastar o medo da tempestade. As memórias de seus avós maternos, de aprender a pescar no barquinho do avô, aprender paciência, e de entrar em casa ensopada para exibir, orgulhosa, sua captura para a avó.

As memórias de seus anos como uma garotinha tímida na escola, se perdendo no estudo e no mundo de animes e mangás de romance shoujo. As memórias de Mariana, que a acolhera quando Bia chegou no colégio novo, calada e desajustada.

As memórias do vestibular, e daquele primeiro semestre da faculdade, aquele mundo novo que ela explorava com sofreguidão. Do esforço para desenhar perspectivas perfeitas na prancheta, ou personagens excessivamente airosos de histórias bobas para meninas.

Até mesmo as memórias da batida de seu coração, da batida do coração de Gabriel, tudo parecia se desfazer em fios de poeira prateada. Era essa a “ontologia da alma” de que Gabriel tanto falava? Em sua mente um tempo interminável se passou. E então algo a segurou.

Não eram mãos de carne. Era como se a própria escuridão ao redor dela tivesse sido agarrada e puxada de volta. A primeira coisa que voltou foi o som. Uma vibração ressoava através do seu nada, uma voz que não vinha de ouvidos, mas que vibrava diretamente nos ossos de sua consciência.

Ná! A palavra era uma súplica desesperada, uma prece que a realidade não conseguia ignorar. Ela pôde ver seu pai sorrindo para ela.

E então veio a luz. Primeiro uma luz vermelha como a alvorada, que esquentava seu corpo, chamando-a de volta. Essa luz foi crescendo, tornou-se áurea, a mãe de todas as luzes, e além dela Bia enxergava, com seus olhos ainda cerrados, o caos esmeralda, uma linha brilhante como o céu que se estendia de fora e circundava o globo de luz dourada que a envolvia e preenchia.

Por seus lábios entrou um alento que desceu até seu peito, e lá se tornou fôlego restaurado, reiniciando a vida que lhe fora interrompida. O novo ar em seus pulmões até então vazios se incendiava, uma chama acendida por uma centelha roubada dos Céus, proibida aos moradores da Terra, que com rapidez devolvia a vida a cada centímetro de seu corpo. Ela podia sentir a água que caía como lâminas sobre suas pernas, a lama pegajosa em suas costas, a dor da ferida aberta em seu peito esquerdo, a firmeza da mão de Gabriel, o corpo dele apertando contra o seu, as sensações retornavam como velhos conhecidos.

Naquele momento, Bia sentiu uma dor súbita e excruciante na altura de seu coração, como se milhares de agulhas de fogo costurassem seus nervos novamente. Onde antes havia a eternidade da morte, agora havia uma pressão insuportável, um abraço mão a mão, testa a testa, boca a boca. O peito ardia, não com o metal do estilete, mas com algo que parecia brasa viva sendo empurrado como um cateter para dentro de suas costelas.

Então ela abriu os olhos.


O céu de São Paulo não era mais cinza. Por um segundo, por entre as flores e através do véu da chuva, Bia viu padrões geométricos de neon riscando as nuvens, como se o céu fosse o croqui de um arquiteto rabiscado com luzes de todas as cores, prestes a ser apagado. As linhas que se formavam entre os objetos e espalhados no terreno baldio e os tapumes que lhe cercavam se transformaram na estrutura de um templo construído em sombras. Aquelas sólidas vigas de linhas paralelas e as perpendiculares que as adornavam se encontravam em ângulos que faziam sua cabeça girar, e no centro de tudo estavam ela e Gabriel, debaixo das flores do ipê amarelo.

Só então ela percebeu Gabriel debruçado sobre ela, sua mão pressionada contra o ferimento de seu peito. Foi naquele instante que Bia retornou a si, o coração batendo descontrolado em surpresa pela cena desenhada como um retrato à sua frente, um lapso dilatado desconfortavelmente entre o inspirar e expirar.

Gabriel se levantou como que saído de um transe. — Respire. — Ele comandou, a voz soando como o estalo de um trovão próximo que anuncia o fim de um céu ensolarado primaveril.

Bia inspirou mais uma vez. O ar entrou em seus pulmões, forçando para fora o sangue e a água que haviam invadido aquele espaço sagrado com a violência de uma explosão. Ela se arqueou, se segurando sobre seus cotovelos, tossindo sangue e água. A vida que lhe havia sido devolvida era corpórea, definida, concreta. O buraco na jaqueta jeans ainda estava lá, manchado de carmim, atravessando sua camisa e sua lingerie, mas a pele por baixo estava intacta, marcada apenas por uma cicatriz alva que parecia brilhar.

— Gabriel-senpai… Você… Você me… — Bia ergueu o braço em direção ao rapaz, como que pedindo seu auxílio, e tentou formular a frase, mas sua voz era um fio de seda.

Gabriel a olhava de modo circunspecto, o medo de antes ainda presente em seus olhos, como se ele a pudesse quebrar se a tocasse. Para Bia, ele parecia alguém que envelhecera mil anos em um só dia. Mesmo assim, ele esticou sua mão para ela e a ajudou a levantar, era um rapaz forte. Ela observou que sua camisa de seda estava arruinada, uma mistura de sangue e lama, e quando seus olhos procuraram pelo paletó atirado no chão, esse não estava em melhores condições. Ele respirava profunda e compassadamente, como se tentasse decifrar um mistério embrulhado num segredo.

— Senhorita Sato, você precisa ir para casa. — Ele disse bruscamente, a voz seca, uma barreira de gelo que o protegia do mundo, ou talvez fosse o contrário. Ele se recusava a deixar que os olhos afáveis dela se encontrassem com os seus. — Alguém deve estar esperando por você. — Ele parou para respirar, como quem fala de um conteúdo sobre o qual não estudou. — Sua família a aguarda. Vá embora.

— Gabriel, por favor! — Era o clamor de uma menina perdida num mundo que ela não conhecia. — O que foi aquilo? Eu… Eu morri, não morri? Eu senti o frio, eu vi a escuridão… Você me tirou de lá?

— Esqueça o que você acha que viu, Senhorita Sato. — Ele a interrompeu, a voz agora carregada de uma autoridade soturna, se erguendo num tom de advertência. — Para seu próprio bem, continue sendo apenas a caloura que teve um dia ruim na chuva.

Bia levou a mão ao peito, por cima da jaqueta rasgada. Dava para sentir o calor palpitante da cicatriz através do tecido, como se fosse um segundo coração que ela ganhara naquela tarde.

— Me explica, Gabriel! — A súbita valentia, ainda que acompanhada de olhos marejados, era inusitada na menina tímida, o que o desarmou por um instante.

— Você está viva. Não é suficiente? — Para ela, ele parecia perdido com as palavras pela primeira vez, a elegância habitual dele perturbada pela sua persistência. E ele apenas pôde voltar a insistir. — Seus pais estão esperando por você em casa, devem estar preocupados. — A voz dele abrandara, demonstrando um desvelo até então disfarçado por insensibilidade.

Um silêncio embaraçoso se seguiu. Os pais de Bia faleceram num acidente de carro quando ela ainda era pequena. Ela estava com os avós paternos naquela noite; era pequena demais para ter memórias claras. A avó tentava explicar para uma criança uma tragédia grande demais para se entender, o avô era um pilar de estabilidade em meio ao caos.

— E-eles morreram. Quando eu era pequena. — As lágrimas escorriam de seus olhos, rolando até suas bochechas onde se misturavam à chuva. Gabriel estancou, era apenas um rapaz de vinte e um anos de idade que não sabia lidar com aquela menina, parada a sua frente, chorando por seus pais. Ele a trouxera de volta para o mundo, e o mundo para o qual ele mandou que ela corresse não mais existia. Por dois minutos que duraram toda uma eternidade ele fitou os olhos marejados castanhos de Bia.

Ela soluçava sem qualquer reserva agora, inconsolada, tremendo não pelo frio da morte, mas pela crueza da vida retomada.

— Sinto muito. — Ele também havia perdido os pais, e aquilo lhe assombrava. Mas não era a mesma coisa. Naquele momento ela lamentava pelo paraíso perdido, um paraíso que ele nunca tivera, que ele sequer poderia compreender. Ela seguia em frente apesar da perda, ele ainda se vestia com o mesmo conjunto que seu pai trajava no fatídico dia de sua morte, um terno preto de alta alfaiataria e uma camisa negra de seda, uma armadura de um luto movido pela culpa, e não pelo pesar.

Bia queria dizer que não era nada, que estava tudo bem, mas simplesmente não conseguia, o coração não a permitia. Ela observou o rapaz dar um passo para trás, calado, e pegar seu paletó do chão. Com um gesto contido, quase mecânico, ele cobriu os ombros dela, escondendo a marca do ferimento e a nudez do rasgo na roupa. O tecido caro, pesado e enlameado, que cheirava a madeira e terra molhada, era o único consolo que ele se permitia oferecer. Bia se aconchegou no casaco que lhe foi dado, o pranto cedendo ante o curioso ato de bondade que gritava em meio ao silêncio constrangedor. Mas antes que ela pudesse agradecer, Gabriel reiterou sua demanda:

— Você deve ter alguém esperando por você, Beatriz. Seus tios, uma colega de quarto, um namorado? — A última conjectura a provocou. Gabriel não vira tudo que ela fizera por ele? Como ela o observava atenta desde o começo do semestre, tendo olhos só para ele?

— O quê? Não! Eu não tenho… Nunca tive… Ninguém… Assim.

— Você tem avós? — Ele não permitiu que ela concluísse sua reação a seu último questionamento.

— Só tenho os paternos. Meu ojiisan Seitoku, e minha obachan Yukimi. Eles são tudo o que eu tenho. — A garota falava a verdade, os avós paternos eram seu mundo, o porto seguro de tradições xintoístas silenciosas e cheiro de incenso que contrastava com a vida apressada da metrópole.

— Vá para a casa dos seus avós, Beatriz. — Ele disse com secura, resgatando sua frieza antecedente, exceto por um apelo fora do comum ao final. — Por favor.

Bia estava perdida, confusa, e tudo que ela conhecia já não parecia mais valer, mas Gabriel se recusava a dar-lhe uma resposta, fácil ou difícil.

— Ainda vamos nos encontrar, quando eu precisar de você. Mas não agora. Há uma vida que a espera. Vá vivê-la. — Ele se virou e se dirigiu para a saída, na brecha entre os tapumes. Ela agarrou suas coisas no chão, cobertas de lama e pétalas caídas, e correu atrás dele, mas antes de sair ele já havia desaparecido na névoa do agora chuvisco que cobria a cidade naquele começo de noite.

Na rua, ela apertou o paletó contra o peito, sentindo o ritmo de um coração que, por direito, não podia mais bater. Ela olhou para si mesma, enlameada, as roupas sujas de sangue; parecia um rabisco teimoso, feito com muita força, e que a borracha não podia apagar, mas deixava um borrão no papel a cada tentativa. Era o avesso do nada.

O céu de São Paulo voltara a ser cinza, escondendo as estrelas por trás de nuvens modestas e lacrimosas. O mundo ao redor dela parecia o mesmo, mas Bia sabia que a vida que a esperava já não seria mais a mesma de antes.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Capítulo 4: Abalo Estrutural

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Para Gabriel, a realidade era um edifício mal construído. As pessoas comuns viam paredes e tetos; ele via as rachaduras. Naquela tarde, enquanto caminhava pela calçada duma avenida movimentada, a cidade parecia especialmente instável. O ar tinha um gosto de fumaça molhada e as luzes dos carros se afundavam nas poças que se formavam no asfalto, uma profundeza maior do que a lógica permitia.

Atrás de si, ele sentia um zumbido incômodo. Uma presença insistente, desajeitada e vibrante. A menina da biblioteca. “Como era o nome dela mesmo?” Ele tentou buscar na memória, mas nomes de pessoas vivas sempre lhe escapavam — ele guardava com muito mais facilidade as genealogias de filósofos mortos ou os comentários escritos das notas de rodapé de tratados medievais.

Aquela garota era um erro sistemático, um rosto gravado apenas pela contumácia da pequena jovem em chamar sua atenção com um misto de desembaraço e acanhamento. Um frágil dente-de-leão cuja flor da cor do sol desabrochava pelas rachaduras da descorada calçada da vida.

Ele não tinha tempo para aquilo. Seu tempo se dividia entre os negócios da família, seus estudos livres e sua peleja pessoal, o curso de Arquitetura pela manhã, onde se dedicava a desenhar edificações de linhas retas e firmes, e seu curso de Filosofia à noite, onde ele se tornara seu próprio carcereiro.

Gabriel tentou dobrar esquinas em ângulos fechados, buscando o isolamento necessário para o que sentia estar por vir. Todavia ela continuava lá, repleta de uma curiosidade inapropriada, um eco persistente de converse All Star surrado e molhado. Ele precisava fazer alguma coisa e, murmurando palavras antigas de proibição, entregou um édito ao próprio universo para que fosse cumprido com urgência, dispensando o impasse que lhe impedia de agir com a diligência necessária.

O rapaz continuou sua caminhada, virou numa travessa vazia e entrou numa brecha entre tapumes de metal enferrujado num canteiro de obras abandonado, um atoleiro vermelho onde materiais e ferramentas deixados para trás dividiam lugar com um ipê que insistira em sua permanência. Todavia, ele não conseguia esquecer os olhos castanhos e amendoados da garota, que momentos antes o observavam bem abertos. Se não fosse pela distração causada por aquele ruído humano, talvez Gabriel tivesse se preparado melhor para o que estava por vir.

Quando ele entrou no terreno baldio, retirou seu paletó e o atirou no chão, mas não houve barulho, o silêncio não era natural. O som da chuva contra o metal dos tapumes não ecoava; ele morria. Os três homens não surgiram de trás dos entulhos. Eles simplesmente passaram a ocupar o espaço, como se sempre estivessem ali. Eram batedores, homens de alma vendida que trajavam capotes cinzentos, os peões do sistema que ele tanto desprezava.

— Vocês estão adiantados. — Gabriel disse. A voz dele saiu firme, mas o ar ao redor de sua boca parecia vibrar com uma frequência errada. — O acordo era sobre a logística editorial na Europa. Não sobre me cercar em um terreno baldio em São Paulo. — Havia um toque de sarcasmo afiado em seu tom.

— A linhagem Hazan tem dívida, conosco que viemos cobrar, Arquiteto. Nos entregue agora o que Samuel roubou de nós. — A voz era fria, quase sintética.

O diálogo foi interrompido pelo tilintar de metal contra o concreto, um som mundano que perturbava aquele momento tenso, quase sagrado. Gabriel girou o corpo e seu sangue gelou. Entre os sacos de cimento e a árvore solitária, a garota estava lá, encharcada, o guarda-chuva de gatinhos fechado e os olhos brilhantes e assustados dela destoavam da paisagem sinistra.

— Você… — Gabriel deu um passo em direção a ela, quebrando o silêncio que parecera durar tempo demais, e sentindo um pavor que não sentia desde a noite em que encontrara o cadáver de seu pai debruçado sobre os mesmos tomos que ele agora se dedicava a decifrar. O escritório em silêncio, o cheiro de flores de macieira e a percepção de que, agora, ele era o último. — O que você está fazendo aqui? Por que me seguiu? — Seu timbre era mais ameaçador do que deveria.

Ela balbuciou uma frase incompleta, encerrada antes de fechar sua idéia. — Gabriel-senpai, eu… Eu só achei que… — Gabriel sentiu uma náusea profunda. A ingenuidade dela era um insulto à gravidade da situação, aquele não era o momento para isso.

— Qual é o seu nome? — Ele exigiu, com a dureza de um professor que demanda respeito de seus alunos. Se ele ia intervir na trajetória de uma vida, ele precisava da coordenada básica daquela existência.

— B-Beatriz. Beatriz Sato. — As palavras pareciam desmaiar ao sair dos lábios finos da menina.

— Escute bem, Beatriz. Você vai sair por aquele buraco. Você vai correr até a avenida e não vai parar por nada. Haverá um táxi parado na esquina, esperando por você. Não se preocupe em o pagar, mas você tem que sumir da minha vista agora! — Seu coração o impelia a levá-la para segurança, mas não havia tempo. Ele precisava voltar sua atenção aos oponentes que o cercavam, e começou a preparar seu encanto.

— Mas e você? Esses homens…

A aflição dela com a segurança dele era incômoda, quase ofensiva. — Agora! — Ele interrompeu seu ritual e rugiu com um misto de raiva e receio, mas o comando foi engolido por um movimento que desafiava a física.

Um dos capotes cinzentos deslizou pelas frestas do espaço, com toda a graça de um patinador de gelo. — Uma testemunha civil. Um resíduo indesejado. — Uma afirmação eficiente, precisa, e cruel.

Gabriel estendeu a mão para trás de si, para Beatriz Sato, sua mente disparando simultaneamente cálculos capazes de alterar a corrente de probabilidades, bem como sequências de contenção que ele já dominara, mas que nunca precisara aplicar para salvar outra vida. Ele era bom, o melhor de sua linhagem em gerações, mas nunca fora um escudo para os outros. — Hafsek, Kadish! Lô tirtzach! — Ele afirmou em alto e bom tom seu decreto mágico, enquanto desenhava o Escudo do Rei com seu indicador no ar, lançando-o para Bia com um célere golpe da palma de sua mão. O escudo girou e sua luz esmeralda fundiu-se num único disco fosforescente.

Não foi o suficiente. Não foi rápido o suficiente, nem foi bom o suficiente. O selo mágico se quebrou em centenas de cacos, estilhaçado ao se chocar com o estilete longo e fosco do homem que avançava. Mas Gabriel não podia desistir. Kivlê hakibush! Amarti lechá hafsek! ele esticou sua perna esquerda se agachando para baixar seu centro de gravidade, enquanto erguia o braço num movimento brusco, as palavras rolando como cascalho numa ribanceira.Chituch hazahav!

Com o primeiro encantamento ele prendeu o agressor em correntes místicas de luz, que ele puxava para trás como as rédeas de um cavalo. Com o segundo encantamento, ele dividiu o próprio espaço ocupado pelo braço de seu adversário em uma série de infinitos segmentos cada vez menores; era impossível ao ataque atravessar aquela distância numa sequência finita de tempo.

Gabriel tentou manter a concentração enquanto os outros dois capotes cinzentos surgiam a seu lado para o atacar, devolvendo a agressão com a fluidez de um artista marcial, um chute certeiro no abdômen de um e uma cotovelada brutal no rosto do outro.

Mas naquele momento de distração, os encantamentos que ele havia conjurado se enfraqueceram o suficiente para que o capote cinzento em frente a garota alcançasse seu objetivo, atravessando o próprio paradoxo de Zenão. Sua lâmina monotômica atravessou o tecido espaço e rasgou o peito de Beatriz com uma facilidade mágica.

A garota caiu, um baque molhado no chão de lama misturado com pétalas amarelas, o guarda-chuva de gatinhos para um lado e sua bolsa de materiais, já ensopada, para o outro. Ela não gritou, não se debateu, não reagiu, não havia tempo para isso.

Numa reação automática Gabriel se jogou para o lado dela, se desvencilhando de seus adversários com socos e chutes frenéticos, e passando pelo assassino, agora livre de suas correntes, agachado no chão como um gato, como se o homem não estivesse lá.

Gabriel a puxou para seu colo, tentou estancar o sangue, fechar a ferida, mas ele era melhor construindo armas místicas e erguendo escudos de magia que curando machucados, físicos, emocionais ou espirituais. O sangue dela o empapava, pesava em sua camisa, e parecia pressionar seu próprio coração.

— Beatriz, olha para mim! Não fecha os olhos! — O fôlego de vida escapava das narinas da menina, e seus lábios delicados vertiam sangue. Mesmo assim, ela parecia sorrir. A boca dela se movia, um gorgolejo úmido tentando formar palavras. Os olhos dela possuíam uma brandura que não condizia com a situação. — Beatriz! Boi! Kumi! Boi! Kumi! — O dano era fatal. Ele falhou em a proteger, outra morte em sua conta, o rosto de seu pai passou como um lampejo em sua mente. Sua memória era uma senhora cruel. Ele não pôde segurar o grito que queria saltar de sua garganta. — Maldição! Não assim! Não posso deixar terminar assim! Não é justo!

No momento de suas imprecações, Gabriel percebeu que os agressores não lhe dariam mais tempo para o luto. Eles o observavam atentamente, buscando uma brecha em suas defesas místicas. Ele a apertou contra seu peito uma última vez, preparando-se para retomar o conflito.

Quando os outros dois homens avançaram simultaneamente ele estirou Beatriz gentilmente sobre o leito lodoso coberto de flores e se ergueu, na velocidade dum piscar de olhos. Eles queriam o prêmio que o último Hazan carregava consigo, e Beatriz fora apenas um obstáculo removido. Algo dentro de Gabriel estalou. Quando um de seus oponentes avançou, Gabriel deu um passo à frente e o mundo ao redor dele pareceu se contrair. — Ruach hakoach. — Suas palavras, cadenciadas como uma melodia antiga, acompanhada de um gesto semicircular de seu braço, aplicou uma pressão na estrutura do ar. O homem de cinza bateu com violência no próprio ar, jorrando sangue de seu nariz quebrado, e foi lançado contra o tapume, batendo com um som surdo de metal retorcido que veio da chapa e de seus ossos.

O assassino a frente de Gabriel se ergueu sobre suas pernas e tentou um golpe lateral. Gabriel desviou com um movimento mínimo, segurando o pulso direito do homem com sua mão esquerda. Ele murmurou algo que parecia arranhar o fundo de sua garganta. — Tishcach yeminchá. — O braço do homem de capote simplesmente perdeu a coesão, dobrando-se em muitos ângulos errados.

— Fora daqui! — Gabriel sibilou, sem se virar, salvo por seus olhos que brilhavam como uma fornalha e acompanhavam o último dos capotes cinzentos ainda de pé.

Os atacantes recuaram, eles sabiam que não podiam mais o vencer, e desapareceram nas frestas abertas entre os cantos da realidade física. Gabriel não os perseguiu, não havia mais tempo. Ele viu que Beatriz ainda respirava tenuemente, com dificuldade, um abalo na estrutura de seus planos, e decidiu fazer o impensável.

Com a mão pesada, Gabriel arrancou um colar de seu pescoço. Era uma estrutura simples, um pequeno cânulo de cristal com um pergaminho no meio, entre duas tampas de metal vazado que se tocavam no centro. Ele estava pronto a quebrar as regras, redesenhar a linha intransponível entre a vida e a morte. Em sua mente ele conjurava energias primordiais que ele sabia não poder controlar, grandes demais mesmo para um magus competente como ele. Forças que ele herdara de seu pai, e que agora ele guardava consigo com zelo extremo, o projeto que continha o segredo para corrigir a falha que tanto o perturbava num edifício mais antigo que o arquiteto que o estudava, mais velho que o próprio tempo.

Ele se deitou sobre o corpo dela, que jazia ensanguentado a sua frente, segurou a mão direita fria da garota, encostou seus lábios com os dela, seus olhos com os dela, e com sua mão empurrou o cânulo para dentro da ferida aberta no peito dela. A Fonte da Vida era a única coisa que a poderia salvar, que poderia apagar do rapaz de olhos tristes a culpa de ter falhado mais uma vez, de permitir que aquela menina inocente chegasse perto o suficiente para ser ferida por sua sombra.

— Beatriz Sato! Me escuta! Eu não permito que você morra! — Ele se apertou contra ela, sua mão apertou seu peito ferido. — Atá hang’alê min Sheol nafshah! — Mas seu encanto declamado com a veemência de uma sentença, não foi ouvido pelo Universo. Ele insistiu mais uma, duas, três vezes, num tom de desafio, mas sua magia não era o suficiente para o que necessitava de um milagre.

A respiração parou, ele pôde senti-la ficando mais leve, e naquele momento ele voltou a ser só aquele garoto assustado que vira o corpo sem vida de seu pai na biblioteca. — Aba Ná! — Sua voz era lamúria de quem já desistira de tentar.

Um brilho intenso emanou do peito ferido de Beatriz Sato, ele podia sentir em sua mão, era quente, acolhedor, uma luz dourada que se refletia na copa amarela acima deles, e que era circundada por uma luz esmeralda que parecia um anel a seu redor. Gabriel abriu os olhos, observou a situação e suspirou com breve confusão. Aquele único instante se estendia no tempo, esticado, como se não quisesse acabar. Foi então que Gabriel percebeu que o impossível havia acontecido. O corpo dela se aqueceu por inteiro, ela podia sentir. Era um milagre.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Capítulo 3: A Dança do Cisne

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Bia desceu do ônibus no ponto seguinte ao lugar onde avistara Gabriel, o coração acelerado pela visão dele na chuva. A água da sarjeta que corria com força na rua da cidade invadiu seus sapatos no primeiro passo, mas aquela sensação pegajosa de meia molhada não a deteve. A ideia de segui-lo era absurda, beirando a obsessão, mas havia algo na forma como ele olhava para o horizonte que a impelia a alcançá-lo. Não era apenas a curiosidade de uma caloura apaixonada; era a sensação de que, se ela o perdesse de vista agora, ele simplesmente deixaria de existir.

Ela voltou pela calçada da avenida, tentando atravessar a densa floresta de guarda-chuvas alheios sem trombar com ninguém. Quando conseguiu divisar Gabriel do outro lado da rua, ele caminhava em uma cadência constante, as mãos nos bolsos do terno molhado, alheio ao caos do trânsito. Ele parecia estar em sua própria bolha de silêncio.

— G-Gabriel! — A voz parecia querer falhar. — Gabriel-senpai! Eu tenho um guarda-chuva! — Ela gritou com os olhos fechados, como quem não quer enxergar as próprias palavras, enquanto esperava o semáforo dos pedestres ficar verde para passar. Por um ínfimo instante ela sentiu que ele a havia reconhecido, que ele reduzira o passo. Ela abriu os olhos num sorriso de alegria, mas sua esperança durou pouco e ele apertou a marcha novamente.

“Me percebe, Gabriel-senpai… Suas pernas são muito compridas!” ela pensou frustrada, o rosto corando de constrangimento, correndo atrás de sua “paixonite” pelas ruas da cidade.

Bia o viu dobrar em uma rua lateral que descia em direção ao bairro. Era um trecho de casarões antigos e terrenos em processo de verticalização. Ela apertou o passo, o coração batendo no ritmo das gotas pesadas que atingiam o asfalto. Por ruas estreitas e pouco movimentadas, ele parecia desaparecer pelos cantos da visão de Bia, como o líquido que escorre por entre os dedos.

A água que despencava do céu e pelas fachadas dos edifícios formava poças espelhadas nas calçadas, que refletiam as janelas dos casarões, prédios, e empreendimentos imobiliários que desenhavam a paisagem urbana cinzenta. A menina apaixonada já estava com as roupas molhadas de suor e água de chuva, seu guarda-chuva de gatinhos mal lhe protegendo do aguaceiro que caía.

— O que você tá fazendo, Bia? — Ela sussurrou para si mesma, o rosto ardendo de vergonha, a respiração começando a ficar ofegante. — Na minha cabeça isso tudo parecia melhor!

Foi nesse momento que Gabriel parou e olhou para trás, seu olhar agudo de um verde esmeralda brilhante capturando os olhos castanhos dela à distância. Bia entrou em ebulição. Ela ficou paralisada, encantada pela visão de seu príncipe encantado. Ele pareceu falar alguma coisa para Bia à distância e partiu novamente em sua caminhada compulsiva, entrando numa esquina.

Bia sentia a força de suas pernas falhando, seus pés pareciam não querer sair do chão, como que dotados de vontade própria, mas agora ela tinha uma razão renovada para o seguir. O que ele havia murmurado para ela? A teimosia da menina parecia não ter limites, por baixo da camisa molhada e colada a seu peito seu coração batia como uma britadeira.

KamisamaOnegai! — Aquela prece curta traduzia o desejo do coração apaixonado da garota, e lhe deu forças para continuar quando ela achou que não poderia mais.

Ela não queria nem imaginar o que Mariana diria se soubesse a loucura que ela estava fazendo “Bia, pára de correr atrás dele e pensa direito, menina!” Ou pior, seus queridos avós. O que diria Dona Yukimi? “Beatriz, esse rapaz não é para você. Ele é um Hazan. Eles têm as tradições deles, têm o sangue deles. Nós temos os nossos.” No Japão dos seus antepassados ou na Israel dos dele, o muro entre eles era de pedra. Mas ali, na chuva de São Paulo, Bia sentia que se pudesse apenas tocá-lo, o muro cairia.

Ele parecia perturbado. Não como alguém fugindo de um assaltante, mas como alguém que sente um zumbido incômodo no ouvido. Todavia, agora ele já não parecia apagar seus rastros para que ela não o seguisse.

— Ai, ele deve achar que eu sou uma louca! — Bia resmungou, resignada com sua própria persistência.

Nesse instante, Gabriel enfim parou de perambular. Sem sequer reconhecer sua perseguidora, ele entrou em um canteiro de obras abandonado cercado por tapumes de metal enferrujado, onde uma árvore de ipê solitária, pintada de amarelo, saltava como em desafio à esterilidade do lugar. Bia se sentiu confusa, mas seu esforço se recusava a ficar sem uma resposta.

Uma miríade de imagens e uma torrente de narrativas passou em sua cabeça como num lampejo. “É apenas um prédio de escritórios da empresa dele.” ela supôs. “Mas e se ele quiser algo comigo? Aquele olhar…” ela confabulou num misto de pavor e apreensão. — Pára, Bia! — Ela falou alto, beliscando a bochecha esquerda como quem quer colocar a mente de volta no lugar.

Ela procurou e achou uma brecha entre duas chapas de ferro, convidando-a para entrar. Hesitante, fechou seu guarda-chuva e seguiu atrás do jovem misterioso, avançando sem fazer barulho, “Só uma espiadela não fará mal”, ela tentava se convencer, “E nesta chuvarada ele nem vai perceber.”

O lugar era um vácuo de lama e escombros entre dois prédios espelhados, salvo pelo ipê solitário no canto, cujas pétalas caídas se misturavam ao lodaçal. Lá dentro, o som da cidade morreu. Gabriel estava no centro de um círculo de terra batida. Escondida atrás de sacos de cimento largados ao lado do tronco maciço, Bia conseguia ver suas costas, eretas, quase agressivas, por dentro da camisa de seda, o paletó atirado ao chão como um peso inútil. Porém ele não estava mais sozinho.

Três homens, vestidos com sobretudos cinzentos de corte impecável e antigo, surgiram das sombras das escavadeiras. Eles não falavam. Não gesticulavam. Apenas existiam ali, em silêncio, com uma densidade que parecia dobrar a luz plúmbea abaixo das nuvens que se despejava sobre a metrópole.

— Vocês estão adiantados — disse Gabriel. Sua voz não tinha o tédio da biblioteca, mas estava afiada como uma navalha. — O manuscrito encontrado em Carras ainda não foi publicado, e não será devolvido até que não me seja mais necessário. Não é preciso, nem prudente, me cercarem em um terreno baldio. Agora, desapareçam daqui. — Havia um tom de ameaça sutil, como um predador que ameaça um desafiante a sua presa.

Um dos homens deu um passo à frente. O rosto dele era simétrico demais, quase artificial. Bia esticou a mão para seu smartphone, querendo ligar para a emergência, mas parou antes de tocar no aparelho, amedrontada e curiosa demais para conseguir fazer qualquer coisa. — A linhagem Hazan tem uma dívida conosco, que viemos cobrar, Arquiteto. Nos entregue agora o que Samuel roubou de nós.

Um calafrio que não vinha da água gelada correu a espinha de Bia e se espalhou por seu corpo até a ponta de seus dedos, eriçando também os cabelos de sua nuca. Seja lá o que fosse, aquilo, com certeza, não era uma briga de negócios. Ela decidiu recuar, fugir dali, mas ao se virar para escapar seu pé resvalou em uma barra de ferro solta. O metal tilintou contra o concreto, ecoando como um sino na calada funesta que cobria aquele terreno, e traiu sua localização.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, nem mesmo a água que caía do céu como lágrimas se pronunciava. Gabriel virou a cabeça. Quando uma vez mais seus olhos verdes esmeralda encontraram os dela, Bia viu naqueles olhos, que até aquele momento sempre guardaram silêncio, algo que a aterrorizou mais que os homens de cinza: aquele rapaz de porte altivo pela primeira vez demonstrou medo, não por si mesmo, mas por ela.

— Você… — Ele permaneceu ereto, como uma estátua de bronze envelhecido, esquecendo os homens por um instante. — O que você está fazendo aqui? Por que me seguiu? — A voz dele tinha uma urgência intimidadora.

— Gabriel-senpai, eu… Eu só achei que… — As palavras sumiram, afogadas em meio medo que subia por sua garganta.

Ele estava a dois metros dela. A chuva lavava seu rosto, e ele parecia notar pela primeira vez que sua admiradora era real, não apenas um vácuo no bloco da FAU. — Qual é o seu nome? — perguntou ele, a voz pressurosa, quase desesperada.

— B-Beatriz. Beatriz Sato. — Não era o momento romântico que ela rodara como um filme em sua cabeça todos aqueles meses.

— Escute bem, Beatriz! — Ele disse em tom de ordem, e por um momento ele pareceu querer segurar as mãos dela, mas se conteve e fechou os punhos se preparando para o que viria a seguir. — Você vai sair por aquele buraco. Você vai correr até a avenida e não vai parar por nada. Haverá um táxi parado na esquina, esperando por você. Não se preocupe em o pagar, mas você tem que sumir da minha vista agora! — Ao dizer isso ele se virou novamente e começou a murmurar alguma coisa, parecia entoar um poema antigo, e do que Bia conseguia captar não parecia ser português, inglês ou japonês.

— Mas e você? Esses homens… — Ela temia por Gabriel, não se apercebendo do perigo que se aproximava.

— Agora! — Ele rugiu como uma fera acuada, sem olhar para trás.

Mas era tarde. Um dos homens de cinza já aparecera entre eles e a saída. O movimento não tivera nenhuma aceleração; ele simplesmente estava lá, em um piscar de olhos.

— Uma testemunha civil. — Disse aquele homem, a voz sem emoção. — Um resíduo indesejado.

— Não toquem nela! — Gabriel gritou se virando de novo para Bia. Ele voltou a recitar uma série de sons que não eram português, nem inglês, nem japonês. Parecia o som de pedras se chocando no fundo de um poço. Dessa vez, Bia conseguiu compreender alguma coisa, ainda que não pudesse entender nada. — Hafsek, Kadish! Lô tirtzach!Gabriel desenhou no ar um triângulo sobreposto a outro com o indicador e, com um célere golpe da palma de sua mão, ele lançou aquela forma de luz verde esmeralda, girando até formar um disco, em direção a Bia.

Retomando sua atenção ao perigo imediato, Bia viu o homem de cinza erguer a mão, um movimento rápido, com a delicadeza de um cisne dançando, quebrando um círculo de luz esmeralda que se formara entre ela e seu agressor. No reflexo da chuva, a luz quebrada se multiplicou, iluminando algo na mão dele. Não era uma faca comum; era um estilete longo, fosco, que parecia absorver mais que refletir a luz daquele entardecer desbotado como borralha.

As fagulhas brilhavam num tom de verde fosforescente, como pequenas pedrinhas de brilhantes. Bia deu um passo desajeitado para trás, e pôde observar Gabriel movendo os lábios em câmera lenta, esticando as pernas como um artista marcial e erguendo as mãos num movimento brusco. As faíscas se transformaram em correntes que seguravam o homem perigoso à frente de Bia, ao mesmo tempo que Gabriel era atacado simultaneamente pelos outros dois. Mas o que mais chamou a atenção de Bia foi o braço do homem, que parecia se esticar sem parar por um segmento que fora dividido em infinitas partes, como se o próprio espaço o impedisse de atacar.

Com o coração tomado de pânico, ela tentou gritar, mas antes que pudesse o cordão da vida lhe foi cortado. O golpe foi rápido como um relâmpago coriscando os céus, o homem atravessando seu braço com uma eficiência sobrenatural para além das correntes luminosas. Mesmo assim, para Bia, tudo parecia lento, quase parando. A navalha de aço embotado atravessou o tecido da sua jaqueta jeans, passando por sua camisa molhada e por sua lingerie como uma faca quente passando por manteiga, perfurando por entre as costelas e atingindo em cheio seu coração atrás do peito. O frio foi a primeira coisa que ela sentiu. Um frio tão ardente que queimava mais que o fogo.

— Beatriz! — O grito de Gabriel pareceu vir de outra dimensão.

Ela caiu com um baque molhado, o guarda-chuva de gatinhos para um lado e seu já ensopado material de faculdade para o outro; a fita do cabelo se desfez e perdeu-se no marrom do chão. A lama fria da cidade misturada com as flores amarelas da bela árvore que a cobria acolheu seu corpo, se tornando quente com o sangue que rapidamente se esvaia de seu corpo. Gabriel se livrou de seus oponentes com selvageria e se jogou ao lado dela com um salto longo e uma cambalhota ágil, ignorando o homem a frente dela que, solto de sua prisão, caiu no chão na ponta de seus pés como um gato.

Gabriel a puxou para o colo, a mão com força segurando seu peito, tentando estancar um fluxo que não podia ser parado. O sangue vermelho vivo manchava a camisa de seda negra, tornando o tecido pesado e quente.

— Beatriz, olha para mim! Não fecha os olhos! — Ele falava com aquele mesmo tom de ordem de antes, observando seus adversários com a cólera de um animal arisco acuado, puxando o rosto dela até a altura de seu pescoço. — Beatriz! Boi! Kumi! Boi! Kumi! — Ele repetia as palavras como um mantra, uma ordem ao universo que esse se recusava a obedecer.

Bia tentou dizer o nome dele uma última vez. Queria dizer que o paletó dele estava sujo de lama, que mais cedo o livro de Estética foi só para chamar a atenção dele, que ela adorava como ele era gentil com ela apesar de seu jeito desapegado, que ele ficava lindo debaixo das pétalas amarelas das flores do ipê, e que ela queria ajudar ele com aquela tristeza que ela sempre via em seus olhos. Mas sua garganta se encheu de um gosto doce e enjoativo, que logo escorreu por seus lábios. Ela viu os olhos esmeralda de Gabriel se tornarem a última luz de um mundo que se apagava para ela, e sorriu ternamente para ele; se era para terminar assim por ter desvelado um mistério que não era de sua alçada, podia ser desse jeito.

Ele a apertou contra o peito, gritando algo que não era para os homens de cinza que observavam, impassíveis, mas um desafio furioso para os Céus, inconformado com o destino interrompido de uma menina que só queria compartilhar o guarda-chuva e caminhar com seu amado segurando com força em seu braço.

E então, para Beatriz Sato, o tempo parou.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Capítulo 2: O Peso do Legado

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O silêncio na cobertura da Família Hazan não era vazio; era denso, como se as paredes de carvalho e as estantes carregadas de manuscritos raros guardassem o fôlego de quem não estava mais lá. Gabriel acordou antes do sol, como fazia todos os dias desde os oito anos de idade. O primeiro sentimento, antes mesmo da consciência, era a culpa. Uma pressão invisível no peito, o eco de um grito que ele nunca conseguiu esquecer, o cheiro de flores de macieira que impregnara sua memória na noite em que toda a família que um dia conhecera fora varrida do mapa.

Ele sentou-se na borda da cama, os pés tocando o mármore frio. Lavou as mãos e o rosto em uma bacia posta sobre o criado-mudo. Olhou para o lado, para o espaço que deveria pertencer a um irmão que nunca cresceu, e sentiu aquele frio familiar. Ele era o sobrevivente. O erro de cálculo do destino.

— O chá está na temperatura correta, Sr. Hazan. E as notícias internacionais não são as melhores.

Joakim “Aki” Virtanen estava parado junto à janela, observando a névoa madrugueira de São Paulo no outono. Sua presença era a única constante na vida de Gabriel, uma figura paterna substituta eficiente, dura, gélida, às vezes dolorosa como uma queimadura de gelo, ainda que nunca cruel. O finlandês não era apenas um mordomo; era o guardião dos segredos de seu pai e de seu avô antes dele, e o arquivista de um império editorial que agora repousava sobre os ombros de um rapaz de apenas vinte e um anos.

— O que os jornais dizem, Aki? — Gabriel perguntou, levantando-se.

— Instabilidade na fronteira austro-suíça. Um grupo de investimento ligado ao setor bancário está comprando propriedades rurais e isolando o acesso a colégios internos. Estão chamando de "reestruturação de segurança". E a transferência de direitos de publicação entre as editoras europeias foi bloqueada por um conselho de ética que ninguém sabia que existia até ontem.

Gabriel caminhou até o closet. O armário era uma visão de ordem absoluta: fileiras e fileiras de ternos pretos de alfaiataria de alta-costura italiana com camisas negras de seda, idênticas, perfeitamente alinhadas. Ele escolheu uma, vestiu, calçou suas meias e sapatos — pé direito primeiro, mas amarrando primeiro o pé esquerdo — e abotoou os punhos. Para quem o visse, ele era apenas um jovem rico e excêntrico com uma obsessão monocromática e um gosto excessivo por formalidade. Para si mesmo, ele estava apenas vestindo o uniforme de um luto que não tinha data para terminar.

— Bloqueios geopolíticos e especulação imobiliária — Gabriel murmurou, ajustando as abotoaduras. — O mundo está ficando menor, Aki. E mais barulhento.


O trajeto para a faculdade foi feito no banco de trás do Mercedes. Jorge Valente, o chofer, mantinha um silêncio respeitoso, ele havia aprendido a não se dirigir ao jovem mestre exceto no que estritamente necessário. Gabriel olhava pela janela, para a massa humana que se espremia nos pontos de ônibus da Vila Olímpia, para a selva de concreto, mal percebendo um pé de ipê amarelo onde uma gralha-do-campo de asas azuis pousara, uma ilustração colorida que destoava daquela composição disforme.

Ele sentia um distanciamento quase clínico, como um médico emergencista calejado por seu trabalho. Olhava para as pessoas e as via transformadas em cascas, engrenagens de um sistema que parecia girar no vazio impessoal, um mundo desprovido de calor ou telos. O olhar de Gabriel era sério, silencioso, como se escondesse algo que nem ele sabia ter escondido. Em seu coração ele desejava encontrar um sentido para tudo isso.

As aulas da manhã foram tediosas, como se tornara hábito. Ele devorara o conteúdo programático do curso inteiro antes de começar o segundo ano, incluindo as matérias facultativas, fora seus muitos estudos anteriores sobre o assunto. Mesmo assim ele insistia na Arquitetura, seu estudo o fazia se sentir estranhamente em casa, e seus projetos eram estranhamente catárticos, um ritual de normalidade num mundo anormal.

No almoço era seu hábito comer algo trazido por um de seus empregados, sozinho e com a presteza de alguém que não tem tempo a perder. Em seguida se retirava para seus estudos reclusos numa das bibliotecas do campus, como ele fazia quase todos os dias. Ele nunca gostara de dividir espaço com outras pessoas, exceto seu fiel mordomo Aki; sentia-se deslocado, como se ninguém pudesse o entender, ou talvez ele não pudesse entender ninguém.


Na biblioteca da universidade, ele era uma ilha de silêncio. Sentado ao fundo, abriu um volume de Jâmblico em latim, mergulhando em discussões sobre a emanação da Mônada e a natureza da alma. Em seu âmago ele não buscava sabedoria; buscava uma estrutura lógica para o caos que sentia dentro de si. Ele se via como um arquiteto tentando reconstruir um templo em ruínas sem ter a planta original.

Uma sombra cruzou sua mesa. Ele sabia que era alguém querendo algo, ou quem sabe querendo alguém. Levantou os olhos para saber quem estava à sua frente, e viu uma sorridente menina de delicados traços orientais — uma caloura que ele já havia encontrado na mesma biblioteca, no começo do semestre — que se aproximou com uma pasta de desenhos.

— Oi, Gabriel! — ela disse, com aquela voz carregada de uma admiração que ele achava irritante, inadequada. — Tudo bem? Me ajuda a procurar o livro… O-o… Complexidade e Contradição na Arquitetura, por favor? Não consigo achar em lugar nenhum!

Ele lançou o olhar para ela, os olhos verdes dele eram como vidro: refletiam a luz, mas não revelavam nada do que estava por trás. “Como é o nome dela agora?”

— É para a aula de Estética. Não é muito avançado? — Ele devolveu a questão com um tom de cortesia mecânica.

— E esses livros? São de alguma eletiva? Ou do seu outro curso? Filosofia, né?

— Não. Apenas buscando comentários para melhor compreender a ontologia da alma.

— Nossa, que legal! — Aquela admiração o perturbava, parecia imerecida. — Você é muito “cabeça” né? Um dia o senpai poderia me dar uma aula deles! — Ele não seria um bom professor, ele sempre tivera dificuldade em lidar com pessoas. Ele sequer tinha tempo para dar aulas. Mesmo assim, ele tirou um tempo para atender a garota de olhos ternos e bochechas vermelhas que lhe solicitava atenção, se dirigindo ao lado dela até a biblioteca da FAU em silêncio.

Foi quando se encaminhavam para a estante com o livro solicitado que uma outra caloura, de cabelos de fogo e olhos decididos, chamou a atenção da jovem a seu lado. — Bia, vem! Eu já achei os livros que precisamos. — Literatura sobre a escola Bauhaus estava espalhada sobre a mesa onde um grupo de estudantes se sentava, junto de notebooks, cadernos e canetas.

Gabriel levantou a sobrancelha, ele entendeu a artimanha da garota, e por um breve momento não pôde conter sua surpresa. — Bauhaus? Achei que fosse…

Ele sempre fora muito bom em afastar as pessoas. Mesmo os professores tinham certo temor reverencial dele, e aquela menina conseguira fazê-lo de tolo. Ela era mais corajosa do que parecia.

— D-desculpa, Gabriel-senpai! Eu confundi! Muito obrigado por ter vindo mesmo assim! — Ela parecia ferver quando se curvou virada em direção a ele, e em seguida foi se sentar com seu grupo.

— Tudo bem! Não foi incômodo algum, bons estudos para vocês. — Não importava. Ele precisava retornar a seus estudos. Naquele mesmo instante sua mente vagou por abismos vastos e misteriosos, como se contemplasse uma solução há muito perdida para os problemas do universo.


Naquela noite ele não teria aula de História da Filosofia Medieval, seu professor havia adoecido e passou um trabalho. Ele já havia informado seu chofer, que o aguardava no estacionamento.

No meio do caminho, um desconforto súbito o atingiu, uma intuição penetrante. Um carro preto vinha mantendo a mesma distância há três quarteirões. Ele não gostava de ser seguido, fosse por jornalistas ou por rivais de negócios.

— Senhor Valente, pare o carro aqui. Tire o resto do dia de folga. Vá para casa.

O motorista rechonchudo hesitou, olhando pelo retrovisor para o céu que escurecia rapidamente e preocupado com o bem-estar de seu jovem mestre mais do que a experiência lhe havia ensinado a ser. — Mas ainda estamos longe do prédio, Sr. Hazan. E a previsão é de uma tempestade severa…

— Eu gosto de andar na chuva, Jorge. Ajuda a pensar. E eu preciso pensar sem ninguém me olhando pelo espelho.

— O senhor vai estragar sua camisa, é seda…

— Vá agora, Sr. Valente. É uma ordem. Aproveite sua família, enquanto o dia ainda permite.

O tom de Gabriel era frio, mas havia uma urgência em sua voz que o motorista conhecia bem. O carro partiu, e Gabriel ficou parado na calçada. Ele não se importava com a chuva que começava a pingar; ele sentia que as ruas falavam mais com ele do que as salas de reunião, com suas curvas e quebras, suas faixas e cores.

Foi rápido para a tormenta enfim desabar. Gabriel andava na avenida como quem sabe exatamente o que está procurando, e não era uma marquise para se proteger. A água encharcava sua camisa de seda por baixo do paletó, mas ele não se moveu. Ele observava um dos prédios de sua família, o antigo e imponente centro administrativo da Hazan Publishing House.

Um ônibus passou ruidoso ao seu lado, espalhando água da sarjeta. Ele percebeu, através do vidro embaçado da porta traseira do coletivo, um rosto conhecido. Era a menina que o movera de seu lugar na biblioteca mais cedo. Ela o olhava com uma expressão de preocupação e doçura quase cômica.

Por um breve instante, Gabriel permaneceu imóvel. Para ele, ela era apenas mais uma no meio de milhões, mais uma figura trágica entre tantas outras num mundo cinzento e sem sentido. Ele não sentia conexão, não sentia nada — não mais que um comentário numa nota de rodapé — registrado pela insistência daquela garota, que acabara por gravá-la em sua mente. Mas o que ele não conseguia esquecer era o peso de estar ali, vivo, em busca de um propósito que ele temia nunca encontrar.

Todo esse movimento, toda essa pressa... Para nada., pensou ele, enquanto o ônibus desaparecia na cortina de gotas da chuvarada. “Eu preciso encontrar uma saída. Eu preciso consertar o que foi quebrado, mesmo que eu não saiba por onde começar. O peso do legado Hazan o impelia.

Ele apertou os punhos sob o aguaceiro e voltou a se locomover com renovado zelo sobre as poças que se acumulavam. A mente calculando o próximo movimento em seus negócios, tão importantes nesse momento, tentando se manter alheio àquela menina teimosa que vinha ao encontro dele, e deixá-la para trás.

 

Capítulo 8: Perpendiculares