terça-feira, 4 de agosto de 2026

Capítulo 14: Aliança sob a Lua

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Gabriel se afastava de Beatriz com passos cuidadosamente coreografados, atraindo os inimigos para uma dança desencaminhante na escuridão entre as árvores, longe dos olhos indiscretos das estrelas, ou da face castiça da lua minguante.

O pulmão ardia, mas continuar se esquivando dos golpes de seus oponentes era menos desconfortável do que usar magia naquela hora. Ele sentia não ter mais forças físicas para manifestar e sustentar ainda mais poder nesse mundo. Enquanto lutava, o fardo das muralhas místicas que ele erguera na Vila Carrão espremia sua coluna.

Em sua consciência os pensamentos passavam com a velocidade dum farol de motocicleta numa rodovia vazia de noite. Ele se culpava por não ter feito o suficiente, por não ter previsto o que ocorreria, era tudo óbvio demais. Mas nenhum pensamento se demorava, não havia ensejo para isso; exceto por um. “Apenas mais quinze minutos.”


A descida de Aki até a garagem do condomínio foi ansiosa, aquele era todo tempo que ele tinha para desperdiçar, consumido pela lentidão do elevador. Assim que as portas de aço se abriram, ele disparou até a ducati, colocou seu capacete, deu a partida e, antes que o portão estivesse totalmente aberto, saiu do prédio numa só girada da manopla do acelerador.

A moto atravessou a cidade como um raio traçado por esquadro, zunindo em direção a seu destino. As placas de “Pare” e os sinaleiros vermelhos não o detinham; as buzinadas e xingamentos eram vagarosos demais para alcançar os ouvidos do velho finlandês.

“Eu não perderei outro Hazan.” O pensamento não era quente, era frio como a neve antiga, comprimida pela passagem dos anos até virar gelo. Esse era um juramento que ele havia feito ao avô de Gabriel, seu primeiro senhor, na mocidade. Salomão Hazan era um nome que exigia respeito mesmo do gelo polar. Alguém que ele até hoje chamava de amigo, ainda que não pudesse mais ser ouvido.


Bia estava aterrorizada. “Como eu posso ter sido tão boba?”, o pensamento se traduzia em lágrimas quentes e salgadas que escorriam com lentidão por suas bochechas. Gabriel a protegia mantendo a distância, ele se importava com ela, mas não se permitia a tocar pois, se o fizesse, o mundo inteiro desmoronaria.

Seu coração estava dilacerado, não pela cicatriz que insistia em brilhar em seu peito, mas por ter acreditado na promessa tola de seus shoujos, de que o amor podia salvar tudo, construir pontes e unir mundos que deveriam permanecer separados para sempre. E agora, o que a afastava do perigo no qual ela se colocara era um vendaval enfurecido que congelaria o próprio minuano, ou as suas mãos se ousasse o tocar.

“Ele está ofegante, o rosto vermelho demais… Ele cheira a suor… E sangue.” A imagem de Gabriel lhe servindo de escudo no momento em ela seria tomada pelos capotes cinzentos ficou gravada em sua consciência. E, agora, ele lutando alucinadamente contra aqueles mesmos homens bem diante de seus olhos não permitia que seu coração repousasse.

“Se continuar assim, ele vai acabar morrendo… Tudo isso é culpa minha.” Ela pensava em seus amigos, Mari, Felipe, Bebê, pensava em seus avós, Dona Yukimi e Seu Seitoku, e segurava com força o pingente no pescoço; a lembrança dos pais era um abraço que nunca chegava.


O mundo cheirava a amoníaco e terra úmida de sereno quando Galo abriu seus olhos. O coquetel de cachaça barata e pedra queimada ainda lhe queimava o esôfago. Mas o que o acordou não foi a ressaca ou a abstinência, e sim o estalo perturbador que ouvira.

Ele descobriu o cobertor velho de sobre o peito e se ergueu sobre o cotovelo, tentando focar a visão. A floresta era um breu que não conseguia ocultar o jogo de luzes que se desenrolava naquele lugar. Havia um jovem bastante alto vestido de bacana que brilhava como uma lâmpada incandescente pintada de verde, prestes a explodir. Havia também três personagens cinzentos cuja postura o lembrava policiais ou, talvez, assistentes sociais.

No meio de tudo, um esplendor dourado que o fazia sentir vergonha de si mesmo. Era uma estrela que atraia toda aquela dança para sua órbita.

A cena diante de seus olhos encheu Galo de pavor. Ele não sabia se estava tendo a viagem de sua vida, ou se o apocalipse decidira iniciar no Ibirapuera. Ele tentou se levantar, mas as pernas haviam virado gelatina. A dança das quatro figuras se aproximava perigosamente de Galo, que começou a gritar a plenos pulmões.

O rapaz se atirou a sua frente e ficou lá parado por um breve momento, como se o grito o tivesse suspendido no tempo. Seu rosto se virou para o maltrapilho, e Galo podia ver que era um tomate esbaforido. O grito não teve tempo de cessar. Foi tudo muito rápido quando os olhos vidrados do pobre diabo captaram a própria morte vindo pela mão dum dos homens cinzas, para além da figura verde trajada de preto.


Gabriel se mantinha de pé apenas pela mistura instável de sua vontade férrea com um instinto de sobrevivência feroz que ele não sabia que tinha até aquele momento. Era uma argamassa por demais fraca para sustentar a estrutura de seu corpo. As pernas criavam separação entre ele e seus oponentes, enquanto os braços defendiam com movimentos febris o rosto e tronco dos ataques de estilete que atravessavam a distância.

Suas roupas haviam se tornado um farrapo, os membros estavam cobertos de cortes que queimavam em sua pele, e seriam ainda piores não fossem os encantamentos primários de defesa sempre mantidos erguidos. O que deveria ser um embate corriqueiro contra inimigos débeis demais para um magus de seu calibre se tornara uma batalha de vida ou morte por conta de sua exaustão física, intelectual e mágica. Mas ele não morreria naquele lugar. Em sua mente, um pensamento monótono ecoava. “Apenas mais dez minutos.”

— O desfecho de nosso conflito já está determinado, Arquiteto. Insistir será infrutífero, e resultará em consequências imprevisíveis. — O capote cinzento que ele amputara antes não titubeava, apenas declarava a realidade que se apresentava. — Uma vez eliminado, o espírito familiar será incapaz de proteger a Fonte da Vida por muito tempo. É melhor que desista.

Senpai! Foge daqui! — Beatriz gritou com a voz chorosa de dentro de sua gaiola gelada. Mas Gabriel a ignorou, e respondeu à requisição do homem com um chute certeiro em seu peito que o derrubou de costas no chão, um baque molhado sobre a grama orvalhada. A contenda continuaria, e a decisão já havia sido tomada. Os operativos dos Arcontes agora seriam mais enérgicos.

Os outros dois homens cinzentos não esperaram o companheiro se levantar. Sua apatia burocrática deu lugar a uma aceleração mecânica e violenta. Eles não mais deslizavam pelas frestas; eles investiam como touros bravios para o eviscerar.

Um dos atacantes girou o braço, talhando um rasgo fundo no braço direito de Gabriel. Mas dessa vez o movimento não parou na carne dele; o impacto atingiu um poste de iluminação próximo. O metal grosso dobrou-se como papel, a lâmpada explodiu numa chuva de faíscas elétricas que banhou o caminho de asfalto próximo ao lago.

O segundo dos atacantes lançou contra ele uma lufada de vento magicamente comprimido. Ele se atirou, rolando na terra para um centenário salgueiro chorão, esquivando-se por apenas uma polegada da poderosa corrente de ar que arrancou um banco chumbado do chão e o atirou contra as árvores do bosque, partindo ao meio o tronco duma jovem quaresmeira que florescia temporã.

Gabriel começava a se aprumar quando um grito espectral cortou a atmosfera. Ele virou o rosto e viu um homem sujo, desmazelado e vestido de trapos se segurando sobre os cotovelos atrás de si. “Uma testemunha civil.” ele pensou consigo.

Sua atenção fora desviada, e por muito pouco ele não viu o terceiro ataque vindo do adversário mutilado, que já recuperara sua compostura e tinha uma linha de tiro limpa para ele. Era um projétil explosivo de escuridão concentrada envolto por vácuo, capaz de destruir um carro forte. Se Gabriel desviasse, o morador de rua atrás dele morreria, se tentasse o tirar do caminho, Gabriel morreria. Só havia uma coisa a ser feita.

Zroa barzel! — Gabriel esticou sua mão esquerda, concentrando o que restava de suas forças no braço esquerdo que brilhava com uma luz verde esmeralda, mas era insuficiente. O encantamento absorveria força do projetil, mas não havia energia o bastante para anular o impacto, ele seria apenas reduzido e desviado.

A ponta de lança constituída do mais puro nada atravessou a palma de sua mão, resvalando pelo rádio do braço até sair por seu cotovelo, o impacto reduzido e o trajeto alterado o suficiente para não causar mortes. A dor lancinante fez Gabriel arrevessar um grito surdo e torturado, abafado pelo grito do infeliz em pânico, que começava a perder o fôlego. Seus oponentes caminhavam com denodo em sua direção, para finalizar o trabalho.

Mas a aproximação dos capotes cinzentos foi interrompida pelo ronco do motor de uma motocicleta em alta velocidade. Ela foi desgovernada e atropelou um dos homens, dispersando os outros dois. Aki saltara de seu veículo naquele momento e, antes de seus pés tocarem o chão, ele atirou suas adagas prateadas contra seus adversários. Uma das navalhas atingiu a carótida dum dos que permanecia de pé, degolando-o. O corpo sem vida caiu no chão, se desfazendo em fumaça e vapor d’água.

— Você se adiantou cinco minutos ao que o cálculo previra, Aki. — Gabriel não levantou o olhar, o corpo não acompanhava a altivez de sua voz. Pela primeira vez em muito tempo, ele sabia que fora derrotado. A culpa, sua velha companheira, o acusava pelo desleixo de sua arrogância, pelo acúmulo de erros que se somaram numa única falha catastrófica; o coração pesava.

Aki caiu no chão sobre os pés, e se ergueu com agilidade felina, recuperando uma de suas adagas, cravada no solo, num único movimento fluido. Seus olhos estavam fixos nos oponentes que restavam, debilitados, um aferrolhado pelo motor quente da ducati ainda trabalhando seus pistões, outro com seu braço amputado.

Os homens de cinza se olharam sem mover o rosto, e desvaneceram pelas frestas do parque como sombras sugadas por um dreno invisível, a motocicleta com a roda ainda girando terminando sua queda num tombo que fora interrompido no atropelamento. Aki tentou acertar um deles atirando a adaga em sua mão com presteza, errando por menos da metade de uma polegada, a lâmina se fincando no tronco duma árvore no bosque escuro. A santidade daquele jardim fora profanada por um cheiro acre de ozônio, químicos, borracha queimada e gasolina.

E então, tudo se encerrou, não com um estrondo, mas com um murmurejo.


Atrás de Gabriel, o homem alucinado despencou num desmaio sufocado, o grito se encerrando junto de seu alento. Os ventos árticos que protegiam Beatriz se encerraram tão subitamente quanto haviam se iniciado, e naquele mesmo instante ela saiu correndo na direção do jovem ensanguentado. O primeiro desejo em seu coração não era agradecer seu salvador, mas enlaçá-lo em seus braços com força, como que para nunca mais o perder de novo.

Ela passou direto por Aki, como se carregada pela brisa da noite, e envolveu Gabriel num abraço apertado, encharcando suas roupas e feridas com lágrimas quentes que despencavam como uma cachoeira. No encalço dela, os passos do velho finlandês eram pesados, calculados, cada um deles uma decisão tomada como contingência.

— Gabriel-senpai, v-você tá todo machucado! S-seu braço… E-ele está sangrando muito. — Ela tirou a fita verde de cetim de seu cabelo e fez uma atadura improvisada. A mistura de sangue e suor de Gabriel, misturado às lágrimas da menina que embebiam o curativo era a prova de sua inocuidade. Mesmo assim, ele resistia o ímpeto de afastá-la de perto. “Por que o Senhor não resolveu isso falando pessoalmente com a Senhorita Sato?”, as palavras de Aki ainda reverberavam em sua cabeça.

— A garota se tornou o alvo principal, Senhor. As coisas não mais poderão continuar como estão. É hora da decisão. — A voz de Aki era clara mas poderosa como um sino de igreja. Bia virou o rosto para aquele homem que se parecia mais uma escultura de gelo. Os cabelos brancos longos amarrados num rabo de cavalo baixo tinham um brilho prateado sob a luz do crescente da lua, e seus olhos azuis claros emitiam uma luminescência de aço frio bem afiado. Ele era assombroso, mas Bia não sentia medo.

— Senhorita Sato, há um lugar seguro. — A voz de Gabriel tinha a rispidez de uma gentileza forçada, mas havia um fundo de preocupação hesitante. Os olhos de Bia se arregalaram, ela podia ler o temor que os olhos verdes agudos do rapaz não conseguiam mais esconder.

— Você não pode mais voltar para seu lar na Vila Carrão, Senhorita. Esqueça a vida que teve até agora. Há uma ilha particular na costa de Bornéu, com uma boa casa e pessoas que a atenderão. Lá a Senhorita estará segura. E confortável. — Aki foi incisivo, terminante.

Bia buscava aflita por consolo no olhar de Gabriel. — Eu não vou a lugar nenhum, Gabriel! Tenho família! Meus avós! Tenho amigos! A universidade! Aqui é meu lar! — As palavras saíam em gritos abafados, curtos e trêmulos, acompanhadas das lágrimas que escapavam, mas havia firmeza de propósito. — Você vai pensar num jeito… Você sempre encontra uma saída… — Mesmo assim, a voz falhava, e as lágrimas não aceitavam mais resistência.

— Eles estão vindo por você, Beatriz. Não por mim. — Ele parou, tentando encontrar as palavras certas, não para pedir desculpas, mas para se responsabilizar. — Eu fui leviano. Encarreguei você com a Fonte da Vida, sem considerar o peso daquilo que lhe impus. — Ele sentia a fratura da pilastra que sustentava a estrutura de seus planos se aprofundar.

Por tempo demais ele tentou ser um arquiteto distante, desenhando plantas baixas para retificar uma construção que, todavia, ele não desejava tocar, como se um mero esbarrão seu pudesse rachar e, por fim, deitar abaixo todo o edifício da realidade a partir de seus alicerces.

Ele levantou seus olhos para Beatriz, e depois para Aki. Em sua mente ele calculava os riscos e as probabilidades.

— O Senhor se provou inábil para protegê-la. — O mordomo já resolvera a equação enquanto limpava uma de suas adagas de prata. Sua fala não era uma crítica, era uma análise da realidade que se colocava a sua frente.

— E-então… — Bia encheu seus pulmões num único gole de ar, que se queimava com a brisa fria do outono de noite. Ela transformou aquele alento em ânimo, uma bravura grande demais para uma garota tão miúda. — Então me ensinem! Eu posso aprender a me proteger, eu prometo… E-eu prometo que não vou ser um fardo.

Gabriel a encarou, surpreso, seus lábios entreabertos. A menina delicada de roupas graciosas era mais corajosa do que parecia. Ele vira nela um vaso frágil, mas agora Beatriz oferecia ser um pilar.

— A magia é uma arte perigosa, Beatriz. — Ele advertiu, o tom pesaroso, quase apreensivo. — Ela muda a forma como você vê o mundo, seu preço desmesuradamente cruel é pago em humanidade.

Beatriz pousou a mão direita sobre a cicatriz que brilhava sob o moletom. — Eu já não vejo o mundo do mesmo jeito desde aquela terça à noite, Senpai. — Ela objetou com delicadeza, mas decidida. — E eu vi o que você fez por aquele homem. — Com a mão esquerda ela apontou para o homem desmaiado sob o salgueiro. — Você se isola atrás de frieza, solidão e livros difíceis, mas eu vi a bondade em você, Gabriel Hazan. Eu sabia que ela estava aí. Agora eu tenho certeza.

De todos os ângulos pelos quais ele poderia ter analisado aquele problema, esse era o mais obtuso. Mas a aliança estava selada, os olhos verde-esmeralda penetrantes dele e os olhos castanhos amendoados dela se fixaram mutuamente, refletindo a luz em forma de foice da lua como dois lagos de águas cristalinas. — Então eu serei seu mestre.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Capítulo 13: Paraíso Perdido

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Gabriel rastejava para fora do casulo de concreto que era o edifício Villanova. Lá fora, o sol do meio-dia alvejava o chão de concreto e asfalto da USP, que se escondia tímido entre a multidão de estudantes e funcionários que o pisoteavam, saindo para seus intervalos, trabalhos e residências. Mas ele estava esgotado, o realinhamento urbano com que fechou as frestas da Vila Carrão exigia um estipêndio exorbitante, que ele pagava a prestações.

Mesmo exaurido, a presença do jovem era um magneto repulsivo, que abria caminhos sem que as pessoas a seu redor sequer percebessem. Era um temor reverencial profundo, quase prometeico, que remontava ao princípio da História. Ele havia se acostumado, e era melhor assim.

Todavia, por suas costas alguém se aproximou que rejeitava essa gravidade, sua voz melodiosa não escondia sua indignação. — Você não tinha o direito, Hazan! — Bárbara se aproximou de Gabriel como um vento acusador, as diversas pulseiras tocavam como guizos em seus braços, e os cachos negros balançavam furiosos sob o lenço, era uma sentença que não precisava de palavras. — Como pôde usar a Mari para chegar na Bia? Como pôde usar o Rica? Para que todo esse rodeio para passar seu celular para ela? O que você quer com a Biazinha, afinal, Gabriel?

Os nomes passavam por Gabriel como setas mal direcionadas. Ele não reconhecia nenhum deles. Mas Bia, esse nome de alguma forma o tocou, mesmo sem precisar sua identidade. — Eu… — Ele fez uma pausa, como quem tenta se localizar por um mapa antigo. — Eu não faço idéia do que você está falando, Senhorita de Lira. — A voz dele era descarregada, como respingos de argamassa que secaram no sol. Mas os olhos esmeralda fitavam o rosto de Bárbara com uma curiosidade que beirava o perturbador.

— A Biazinha, Gabriel! A caloura japonesa da Arquitetura, que fica observando você por aí com olhos de cachorro sem dono. — Bárbara parou por um instante, a melodia de sua voz mudando de brava para taciturna. — Ela merece coisa melhor, Gabriel, e não essa sua obsessão doentia.

Gabriel levou três segundos inteiros para entender, mas então a percepção da gravidade do caso desceu sobre ele como uma pilha de escombros, tudo de uma só vez. — Maldição, de Lira! — Ele sussurrou entre os dentes, seus olhos procurando Beatriz na massa indistinta de pessoas que caminhavam na saída do bloco, como um falcão perseguindo sua presa.

Sua vista aguçada rapidamente divisou a menina, escondendo-se com seu casaco amarelo pastel clarinho atrás de uma coluna, mas antes mesmo dele erguer os pés para partir em seu encalço, ela saiu correndo como um gatinho assustado. Ele precisava seguir atrás dela antes que fosse tarde demais, mas Bárbara o segurou pela manga do casaco. — Me escuta aqui, Gabriel Hazan. Se você machucar ela de alguma maneira, eu nunca vou te perdoar! — O aviso de Bárbara foi um sopro cortante.

Suas palavras, porém, deslizaram por Gabriel sem deixar marcas. Ele não ansiava o perdão dela, ou de ninguém; a verdade é que ele não acreditava na eficácia do perdão. O que naquele momento o atingiu como uma bola rompedora e o fez sentir perder a fundação, foi o peso de seu próprio julgamento. Se acontecesse algo com aquela menina, ele não se perdoaria. Jamais.

Gabriel saiu correndo, a fragrância de flores de macieira evadindo-se das cadeias de sua memória. Ele não corria de Bárbara, ela já deixara de ter realidade para ele naquele momento. Tampouco atrás de Beatriz, ela fugira dele e ir em seu encalço só pioraria a situação. “Aki, ele me ajudará com o contraplano.” Ele já começava a esboçar um traçado em sua mente, dominada pela centralidade de Beatriz em seu projeto de retificação.


A viagem de retorno para seu santuário escondido no vidro na Vila Olímpia foi um borrão de cálculos e traçados mentais. O silêncio usual com que Gabriel tratava Jorge no carro progredira geometricamente, consternando o sempre sorridente chofer.

Gabriel subiu o elevador até a cobertura e ingressou no salão de entrada sem tirar o paletó, como um homem de negócios apressado para uma reunião importante. — Aki! Eu preciso de sua ajuda! — Ele chamou em voz alta e urgente. Antes que pudesse chegar no umbral de seu salão negro, no coração de seu abrigo, ele encontrou Aki.

Os passos calculados do velho finlandês sobre o mármore faziam-no parecer pesado como uma escultura de granito. Com sua mão direita ele segurava uma adaga de prata, e com a esquerda a polia com uma flanela, como se fosse um espelho capaz de cortar a própria luz.

— O escudo foi comprometido, Aki — declarou Gabriel, a voz seca. — Eles usaram a Senhorita de Lira para plantar um canal de comunicação falso. A pequena Sato acredita que tem o meu número. — A calma em sua voz não era normal, mas de alguém que rejeitava o desespero como ferramenta inadequada.

Aki parou o movimento da flanela. Via-se o brilho de seus olhos azuis álgidos na superfície da lâmina, um reflexo quase ofuscante, até que num clarão repentino o brilho da lâmina prateada refletiu-se de volta nos olhos gélidos do finlandês, que fitava a arma em sua mão. Seu rosto esculpido no frio não mostrava surpresa, apenas desaprovação técnica.

— E por que o senhor não resolveu isso falando pessoalmente com a Senhorita Sato? — A pergunta de Aki foi precisa e direta, sem floreios, mesmo assim Gabriel travou por um instante.

— Eu tentei — a resposta saiu áspera, como a madeira de uma casa que estala no clima frio da madrugada. — Hoje, na faculdade. Mas ela fugiu antes que eu pudesse sequer abrir a boca. Ela correu como se eu fosse…

— Como se você fosse um animal arisco, Gabriel — Aki completou, finalmente encarando o patrão. — Um cão que não permite aproximação sem rosnar ou morder. — O silêncio que se seguiu foi necessário para que os olhos dos dois homens se conversassem.

— Você ignorou por tempo demais o fator humano em sua estrutura, e agora o cupim está destruindo seu alicerce. — Sua fala era carregada de uma autoridade ártica. — O senhor a trouxe de volta, mas a deixou no escuro. Ela só fugiu porque você a deixou livre para seguir seu próprio rumo, desde que ela não seguisse o do senhor, e agora ela está assustada.

O que mais doía para Gabriel eram as pausas desconfortavelmente eloquentes, mas ele sabia que prestar atenção nelas era tão importante quanto aquilo que era efetivamente falado. — Você a trouxe de volta, mas a deixou no escuro. E no escuro, qualquer luz no fim do túnel parece um farol de esperança, mesmo que na verdade seja apenas o trem vindo em sua direção.

Gabriel não respondeu. Ele recebeu o impacto das palavras de Aki como pregos martelados em sua consciência. Sem abrir a boca, ele caminhou até a mesa de cristal, onde mapas astrais dividiam espaço com mapas da Vila Carrão e livros antigos. Cerrando bem seus olhos, ele navegou pelas cartas geográficas e astrais, dirigindo sua atenção para o coração pulsante da vida de Beatriz. A fortaleza que ele erguera ao redor da casa dos Sato funcionava agora como um sensor sísmico, e Beatriz era o ponto de convergência.

Matsati at babeitech, wer’ê at betsetech, Mekor Chaim. — Ele murmurou a abertura do encantamento, mantendo os olhos cerrados para projetar sua consciência sobre as passagens secretas que ele mantivera sobre a Vila Carrão. Invocando o poder da conexão que ele possuía com a garota, ele percebia Beatriz como um ponto verde que pulsava no mapa de sua mente.

O plano era simples: vigiar, garantir a integridade dos sigilos, e confrontá-la no dia seguinte, em terreno neutro. Mas a magia exigia um prumo que seu corpo encontrava dificuldades de sustentar. Seu rosto suava, e cada sigilo mantido era uma viga de aço que ele sustentava com os ombros.

Aki não podia ajudá-lo com isso, os espíritos ancestrais que ele dominava estavam banidos das proximidades da casa dos Sato pela própria magia usada por Gabriel para selar as frestas do bairro onde a jovem residia.

Minutos se tornaram horas que se arrastavam com a morosidade de séculos. A imobilidade da casa dos Sato era absoluta, uma calmaria que Gabriel tentava desesperadamente não confundir com segurança. O esgotamento acumulado desde sexta-feira nublava sua visão astral, transformando os traçados mentais geralmente nítidos em labirintos turvos.

Então, sob o manto da noite, o mapa mental de Gabriel oscilou.

Não foi um tremor, mas um rompimento. A pulsação verde que identificava Beatriz se descolou do perímetro protegido da residência. Ela havia cruzado o umbral da porta principal da casa e estava saindo para o mundo exterior. Para os sentidos magicamente aguçados de Gabriel, aquele movimento não era um passeio — era uma trajetória de colisão.

— Ela saiu — Gabriel sibilou, os olhos ardendo de suor se abrindo na escuridão, as pupilas ainda dilatadas pelo esforço místico. — E está caminhando direto para o vácuo.


Aki ficou na base da família Hazan, dando seguimento ao rastreio mágico de Beatriz por meio de seus haltijahenget, desde que a garota atravessou a fronteira da Vila Carrão. A caçada era mais laboriosa do que precisava ser, havia clara interferência externa.

Gabriel, por sua vez, estava no banco de trás da mercedes, recebendo direções diretas de Aki pelo ponto discreto em seu ouvido. O corpo empapado de suor, segurando com esforço sobrehumano calafrios que pareciam querer arrancar sua alma da carne, um prédio condenado que rejeitava ficar inabitado.

No banco de motorista, Jorge olhava preocupado para o patrão, desprezando a gravidade do que ocorria naquele momento. O homem rechonchudo e sorridente achava que, se pudesse travar os olhos no jovem febril, talvez um sorriso pudesse o desarmar, e ele poderia levá-lo ao hospital em vez de transitar aparentemente sem rumo pelas ruas e avenidas da cidade.

— Senhor Hazan… — Era a voz de um pai tentando estabelecer uma conexão a um filho rebelde. — A respiração do senhor tá estreita…

— Apenas obedeça, senhor Valente. — Gabriel interrompeu o chofer duma maneira que desconsertou o homem. Gabriel não era um rapaz grosseiro, apenas frio, desconectado, mas dessa vez havia uma indignação apressada em seu timbre.

O carro preto deslizava como uma mancha de nanquim pelas ruas e avenidas de São Paulo. — Recuperei o rastro, senhor. Ela entrou no Parque Ibirapuera. — A voz de Aki era um chiado no ouvido de Gabriel.

— Faça o retorno. Vamos ao Parque Ibirapuera. — O motorista ficou visivelmente consternado pela mudança abrupta de direção, da Zona Leste para Moema. Mas permaneceu mudo, ele aprendera a aceitar o absurdo de certas decisões tomadas pelo jovem Hazan.

Já era possível divisar o limiar do bosque encravado na urbe cinza quando o trânsito começou a se engarrafar, tornando-se um mar plácido de faróis e luzes vermelhas de freios. Os servidores da SMT desviavam o trânsito para as vicinais, e Gabriel percebia a manipulação probabilística dos Arcontes trabalhando. Antes que a mercedes completasse a frenagem, ele escancarou a porta e se jogou na calçada num salto longo.

— Sr. Hazan?! — Jorge exclamou, assustado, vendo o patrão saltar do carro sem oferecer qualquer explicação.

Gabriel ignorou o chamado, deixando o motorista parado entre os carros enquanto corria em direção ao gradil de ferro do parque, seu coração parecia querer explodir pelo esforço. Ele saltou o muro com uma agilidade que desafiava a gravidade, aplicando apenas sua vontade pura para garantir o funcionamento do corpo exaurido em máxima eficiência. Sua visão estava embaçada de suor, mas fixada na névoa que começava a subir entre as árvores.

— Ela está perto do lago, num banco na margem do lago sul. A pressão atmosférica lá está caindo, eles estão atravessando as frestas. — A cadência técnica, quase inexpressiva do mordomo, deu lugar a um tom quase fúnebre. — Se eles a matarem em sua demora, senhor, não haverá uma Fonte da Vida para trazê-la de volta.

Gabriel não tinha como responder, a força que lhe restara se dedicava a domar os pulmões e impulsionar pernas. Ao longe, ele identificou o casaco amarelo no meio da bruma esbranquiçada, o mesmo tom pastel claro daquela manhã. Naquele paraíso perdido, o primeiro vulto cinza já se desdobrava pelas frestas na atmosfera, sua mão se estendendo para agarrar Beatriz pelo ombro. Ele tinha poucos segundos para agir.


Kyaaaa!!! — O grito agudo de Bia ressoou amarelado por entre as árvores, como se o brilho dourado de sua cicatriz transbordasse e escapasse por entre seus lábios. Gabriel estava exatamente a sua frente, com seu uniforme de escuridão, os braços bem abertos numa diagonal obtusa como se segurasse um fio de lã em sua mão. Não era sua presença que a aterrorizava, mas o braço de manga cinza voando descolado de um corpo.


Não havia tempo para soluções sutis ou limpas. Gabriel precisava ser decisivo, ou os planos que arquitetara seriam levados pela enchente túrbida e cinza. Ele atravessou a distância pelas frestas se materializando na frente de Beatriz e, com um breve encantamento que saiu com um expiro, cortou o próprio espaço entre o corpo e o braço direito do capote cinzento que estendia sua mão contra ela, separando-o do ombro com a precisão de uma régua de arquiteto.

O braço do adversário voou, estalando como chicote na atmosfera fresca da noite, e se desfez em fumaça e vapor d’água em pleno ar. O serviçal dos Arcontes se afastou com alguns passos, seu ferimento não sangrava mas fumava, e o rosto sempre apático desenhava surpresa com marcas de expressão até então inexistentes. Os olhos burocráticos dele brilharam com uma nova percepção, observando a intensa luz dourada que pintava a neblina ao redor do par.

— Ela não é um instrumento de barganha derivado da fraqueza humana. — Ele demorou-se brevemente, analisando Gabriel, que arfava a sua frente, em busca de fraquezas. — Ela é a Fonte da Vida. — Um desavisado poderia pensar haver um toque de satisfação naquela voz vítrea.

O homem de capote cinzento se preparou para pegar seu estilete com a mão esquerda, mas os olhos de Gabriel faiscaram, soltando chispas verdes resplandecentes. — Kros, Kadish! — Ele urrou com a fúria de um homem que sabe que a vitória demanda perfeição, e seu adversário colapsou contra o chão, puxado por uma gravidade impossível.

Mais dois homens surgiram como se sempre houvessem estado lá, saltando em direção a Gabriel. Ele sabia que agora ele era um resíduo indesejado para seus adversários, e tinha de ser eliminado para que o caminho se abrisse para a captura de Beatriz. Ele era obrigado a protegê-la, para que a escuridão não a levasse, mas mantê-la por perto o impedia de lutar com máxima eficiência. O cálculo não fechava. — Aki! — Ele recrutou o mordomo como uma variável externa, que poderia desequilibrar aquela função a seu favor.

— O haltijahenki a protegerá, senhor. A voz era afiada, mas havia uma ponta de premência e brio nela. Acabe com eles.

Um hemisfério de ventos árticos cortantes se formou ao redor de Beatriz no momento que Gabriel jogou seu corpo para frente num só impulso. S-senpai… Não me deixe sozinha aqui! Ela implorava assustada, seus olhos segurando as lágrimas com dificuldade. Ela não entendia tudo que estava acontecendo, mas percebia a extensão do perigo que investia contra eles. Gabriel agora lutaria com todas as suas forças.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Capítulo 12: O Convite do Arquiteto

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

 Desde aquela fatídica sexta-feira à noite, Bia não conseguia parar de pensar no que acontecera e continuava acontecendo em sua vida.

Naquela manhã, ela repassava em sua cabeça tudo que ocorrera como quem tenta encaixar as peças de um quebra-cabeças incompleto. Tudo começou quando o cinza veio como uma bocarra aberta para consumir sua vida, como já ocorrera antes. Mas antes dela sentir seu bafejar, o verde e o branco vieram e empreenderam uma guerra nos céus e, no final, o cinza caiu.

Mas não foi só aquilo. Foi o silêncio incômodo que tomou conta da casa de sua família, o olhar gentil da avó que acolhia sem exigir uma explicação, os olhares duros do avô que cintilavam com um carinho que ele se recusava a transparecer, como se pretendesse condená-la com uma sentença que ele mesmo já reformara.

O próprio bairro pelo qual ela caminhara com os avós desde a infância, e mesmo sozinha depois de ficar crescidinha, parecia diferente. As ruas estavam todas em seu lugar, os prédios e as casas não mudaram de lugar. Mas as frestas que ela tinha aprendido a enxergar nos limites de sua visão estavam fechadas, dobradas como origami amassado.

Havia também um ar de paranóia que a acompanhava desde que passara dos limites da Vila Carrão, como se os estranhos com quem compartilhava o transporte público, e agora as próprias paredes do prédio da FAU, estivessem mais próximos do que o normal. Era como se a observassem com olhos que se recusavam a tocá-la, não por respeito, mas por medo de serem arrancados.

Na universidade, ela apertou o casaco utilitário amarelo pastel clarinho contra o corpo, como se o tecido a escondesse do que quer que tentava se aproximar. O moletom oversized bege, com um gatinho gordo bordado no lado esquerdo, a calça mom de jeans azul, até os tênis velhos, tudo parecia uma armadura fina demais contra a ameaça que ela sentia mas não podia ver. A fita verde brilhante prendendo o cabelo num meio-rabo era o único detalhe que ainda se recusava a se apagar, como se fosse um talismã de cetim.

Toda aquela estática que a perseguia desde a manhã não deixou que ela se concentrasse no fio da meada durante as aulas. Ela não podia parar de olhar pela janela e para os corredores do Vilanova Artigas, procurando por algo que não estava lá.

— Bia? Terra chamando Bia! — No intervalo, Mariana a tirou de seu transe com um peteleco brincalhão em sua orelha. Desde que entraram na universidade, ela era a única que sabia da paixonite obsessiva de Bia pelo rapaz Hazan. — Olha, eu sei que você tá mal desde o que aconteceu terça-feira passada. Parece até desalinhada. — Mariana sentou-se sobre a carteira da amiga, a legging preta contrastando com o bege da mesa, e soltou um longo suspiro. — Você sumiu, não atende o celular direito, não responde mensagens… Eu consegui uma coisa para você.

Bia olhou para ela, o coração saltou de surpresa e os olhos arregalaram de antecipação. Ela não sabia se seria algo bom ou ruim. — O quê, Mari? — A voz escapou num único fôlego.

— O contato do Hazan. A Bebê das Artes Plásticas tem um primo na Contabilidade que faz estágio na filial da editora da família dele, lá em Curitiba, e me passou. — Mariana deslizou pela mesa um papel escrito a caneta com o celular, exibindo um número de São Paulo. — Manda um “oi”, Bia. O não você já tem. Vai que ele é mais humano do que parece e se explica com você sobre o que aconteceu naquele dia? — O sorriso de Mariana era de compreensão sem entendimento, um pouco forçado, mas sincero. Bia sabia que aquilo não tinha vindo de graça para a amiga, mas também sabia que o presente era verdadeiro, sem custos escondidos para ela mesma.

Ela pegou o número com as mãos trêmulas e os olhos marejando. — O-obrigada, Mari… — O agradecimento saiu como um soluço enlevado, ao mesmo tempo grata e feliz pelo desenlace que enfim vislumbrava para sua situação.

— Você sabe que te amo, amiga! — Mariana soltou uma risada que quebrou a tensão daquele momento. — O Felipe já desceu, está na fila da lanchonete. Vamos? — Bia assentiu, levantando-se da mesa e guardando o papel escrito a caneta como um tesouro precioso.


Depois da aula, Bia estava radiante. Felipe tentou conter a menina quando ela já avançava pelo umbral da porta. — Bia, para onde você vai? Eu acompanho! — Mariana não se ergueu de sua cadeira, mas o brilho de seus olhos obstou a saída do rapaz da sala como se fosse uma pedra.

— Deixa Fê, ela precisa resolver isso sozinha. E quando ele quebrar o coraçãozinho dela, a gente tá aqui para colar os caquinhos. — Mariana tinha todo o comedimento de quem conforma-se a um resultado já assegurado.

Felipe parou sob o umbral, observando quieto Bia descer correndo as escadas do Villanova. — Ela não é mais uma criança, Felipe. Não é mais só nossa kohai. — A ponderação da ruiva era genuína, mas dilacerava o peito do rapaz como uma faca bem encravada.


Bia precisava agradecer Bebê, como era conhecida pelos amigos Bárbara Azura de Lira. A moça curitibana de dezenove anos tinha uma alma poética, e um guarda-roupa que a marcava como deslocada no tempo. Sempre gentil, sempre atenciosa, sempre pronta a ouvir, era como uma jovem mãe cuja própria fala tem a cadência de uma melodia de ninar, contrastando com a personalidade incandescente de Mariana.

Porém, antes de sair do prédio da FAU, seu peito começou a latejar, e o que ela viu a empurrou para trás de uma coluna do edifício, o rosto vermelho de indignação e vergonha. Debaixo da marquise estava Gabriel, com seu perpétuo uniforme composto por um terno preto e uma camisa de seda negra. Sua presença parecia dobrar o espaço ao redor, forçando a massa de estudantes a abrir espaço para ele.

Mas o que realmente pegou Bia de surpresa foi que com ele estava Bebê, com sua saia longa babada colorida e um casaquinho de crochê bege, a cabeleira bem preta presa num coque por um lenço que parecia ter dificuldades para segurar o peso dos cachos que teimavam em fugir de sua prisão, atirando-se para as costas de Bebê como cordas. E ela brilhava, brilhava intensamente, como o reflexo de uma lua cor-de-rosa na superfície de um lago cristalino coberto de neblina.

Eles conversavam como velhos conhecidos, ainda que a expressão corporal do rapaz permanecesse contida, reservada, os ombros rígidos como se carregasse o peso do mundo inteiro.

“Ele nunca fala com ninguém! E agora os dois parecem que se conhecem há anos! A Bebê é a namorada dele? Ela quer que ele me dispense?” A torrente de pensamentos não dava trégua, mas Bia não era uma heroína de shoujo, nem Gabriel era seu mocinho. Ela beliscou com força a bochecha, até sentir machucar, puxando a si mesma de volta para a realidade. “Pára de ser boba Bia! Ele só deve ter pedido pra Bebê passar o contato porque a Mari odeia ele. Ou então… A Bebê sabe algo que eu não sei.”

Bia tentou entrever o par sem sair de seu esconderijo, ela temia que eles a captassem ou, pior, que o olhar de Gabriel pudesse ler os devaneios que se intrometiam sem permissão em sua mente febril. Quando ele atirou para ela o olhar agudo como flechas na direção dela, parecendo segurá-la pela fita verde em seu cabelo, a menina envergonhada e desnorteada saiu correndo, precisava voltar para a rotina confortável de seu lar logo. Não era como em seus mangás e animes, mas seu coração não lhe permitia evitar reagir como se fosse.


Em casa, depois de ajudar a avó com a louça do almoço, Bia passou o resto da tarde no quarto. A luz do sol atravessava brandamente os vidros da janela, adquirindo um matiz amarelado ao passar pelas flores do ipê que protegia o quarto da garota. Ela se sentia sozinha no mundo, sem saber o que fazer, e exausta demais para abrir o caderno e iniciar o trabalho da faculdade.

Sua alma era o palco de uma batalha interna que vinha se arrastando desde o meio-dia. — Vocês não desistem, né? — Ela falou baixinho com seus pôsteres de anime. — Eu também não. Eu preciso saber o que houve naquele dia! — Os olhos dela faiscavam de determinação. Ela sabia em seu âmago que Gabriel a protegia, e a seu modo se importava com ela.

Apesar do peso conjunto das palavras duras do avô na sexta-feira, do fim de semana silenciosamente constrangedor em casa, da paranóia constante que a acompanhara desde o transporte público de manhã, dos ciúmes que sentira ao ver Gabriel conversando com Bárbara, a fome por respostas diante de sua conjuntura aparentemente impossível era mais forte, e parecia engolir tudo que se interpusesse em seu caminho. O sol da tarde já estava cansado quando, brigando com as mãos que não queriam obedecer, Bia mandou uma mensagem para o número em nome de Gabriel:

Sou eu, a menina daquela terça-feira à tarde. Precisamos conversar sobre o que você fez comigo.

As palavras eram mais ásperas na mensagem que na cabeça de Bia. Ela correu para apagar a mensagem, mas a resposta se atravessou no caminho, chegando quase de imediato. Era objetiva, minimalista. Exatamente como ela supunha que seu “príncipe” escreveria:

Parque do Ibirapuera. Hoje, oito da noite. Banco perto do lago. Sozinha. Não conte a ninguém.

Bia sentiu o corpo estremecer por inteiro, uma mistura de emoções que não deviam compartilhar o mesmo espaço, como se ela fosse um ônibus matinal muito cheio. Naquele horário, o parque se tornava deserto e perigoso, mas, de algum modo, o ambiente noir combinava com a sofisticação de Gabriel, o rapaz que habitava um mundo tão distinto do dela. Parecia romântico de todos os jeitos certos.

Ela saltou da cama como se a resposta de Gabriel a empurrasse. Precisava se arrumar para o encontro, selecionar uma boa roupa, tomar banho. E precisava de uma boa desculpa para sua obachan.

Obachan! — Ela gritou do quarto, a voz retomando a energia de exatamente uma semana atrás, antes daquela terça-feira. Mas as palavras seguintes não queriam sair.

— O que foi, Bia-chan, querida? — A voz de Dona Yukimi subiu da cozinha, trazendo junto a doce senhora com cheiro simples do chá adoçado com açúcar. Ela se sentiu apurada pela lenta aproximação da avó carinhosa que sempre a acolhera.

— A Mari quer que eu veja uma coisa… — O engodo pesou em seu estômago como se ela engolisse bolas de chumbo, mas a necessidade de ver Gabriel era um ímã que ela não conseguia ignorar. “Eu preciso entender o que foi aquilo.” sua mente ecoava como se estivesse perdida em corredores estranhos de ruínas de templos derrubados pela história.

Antes de iniciar o ritual de arrumação, ela pegou a correntinha de prata e o relicário oval metálico com a foto de seus pais sobre a escrivaninha. “Por favor venham comigo… Otosan e okasan!” Ela precisava se preparar para todo o peso da verdade desmoronando sobre ela, e sentiu que assim, naquela hora que se aproximava com o tique-taque do relógio, ela estaria amparada.


Bia chegou um quarto de hora adiantada no lugar marcado. O mesmo casaco amarelo clarinho da manhã agora cobria um moletom cropped lilás claro de manga longa, com um coração de lantejoulas brancas do lado esquerdo, com uma camisa branca básica por baixo, e uma bolsa tiracolo preta cruzando sua figura. A calça jeans era similar à anterior, um pouco mais escura, mas os mesmos tênis e a fita de cetim verde no cabelo continuavam a lhe acompanhar, como amigos inseparáveis. Amarrado na alça do cinto e guardado cuidadosamente no bolso estava o omamori En Musubi, que ela trouxe quase que por impulso, sem pensar muito a esse respeito. A maquiagem suave realçava a frágil inocência de seu rosto, sem esconder nada.

O ar noturno do outono era refrescante, e uma brisa suave soprava entre as árvores do parque, que pareciam um mar verde escuro balançando suavemente sobre o leito do firmamento. Bia podia entrever as estrelas acima, por entre os galhos escuros das árvores, não eram muitas, mas eram mais que entre as luzes artificiais que não davam descanso real à cidade. Mesmo o grasnado da gralha-do-campo não a perturbava. Dessa vez, ela não encontraria Gabriel sob um ipê-amarelo.

Ela se sentou no banco próximo ao lago, com o paletó de Gabriel no colo. Ela pretendia o devolver como um agradecimento inicial, “Para quebrar o gelo,” pensava, a mão inconscientemente buscando o omamori no bolso. A luz da lua minguante refletia na superfície espelhada da água, que emanava uma névoa translúcida como sonhos românticos que atravessava as frestas que sulcavam a paisagem. “É a hora da verdade!” seus pensamentos afirmavam com uma determinação que o coração não acompanhava.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Capítulo 11: Traços Invisíveis

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

 Bia estava encolhida na cabeceira de sua cama, próxima do parapeito da janela de seu quarto, observando as velas que acendera se consumirem pelo fogo de base azulada. À frente de seus olhos, os pavios se transformavam numa fumaça transparente, que fazia um movimento bruxuleante no ar parado de seu quarto. No coração da garota, aqueles traços de luz invisíveis eram como a linha do novelo de Ariadne, com os quais ela poderia trazer Gabriel para seu abraço, para seu peito. Mas no fundo, ela sabia que aquilo era apenas um artifício impossível no mundo real, um clichê dos mangás shoujo que ela gostava tanto de ler desde que adolesceu.

Ela se sentia culpada pelos avós, os quais ela ainda escutava, discutindo baixinho na sala de estar; por Mariana, Felipe, e mesmo por Erik, que à sua maneira a tentavam proteger, mesmo sem saber sua nova situação. E ela se sentia perdida, pois sabia que Gabriel velava por ela, mas não entendia a razão dele a rejeitar tão friamente, não lhe acolher, não lhe explicar o que aconteceu. E isso era uma câmara de eco para as dúvidas dela a respeito das verdadeiras intenções do rapaz. “O casaco é a prova que ele se importa,” mas o pensamento era imediatamente retrucado por outro “‘Quando eu precisar de você,’ foi o que ele disse.”

Os olhos de Bia insistiam em fitar a porta fechada do guarda-roupa, e mesmo longe ela ainda conseguia sentir o cheiro de terra molhada e madeira, já apagado pelo sabão de coco que a avó usara para limpar o paletó enlameado na noite de terça-feira.

Uma vibração quase inaudível no vidro da janela cortou o ritmo de seus pensamentos, atraindo seus olhos para além da luz das velas, e das flores do ipê amarelo que salvaguardava a janela de seu quarto como um guarda fiel desde sua tenra infância. Ela atirou seu corpo para frente, colocou suas mãos no vidro gelado que parecia tremer sutilmente, e observou o mundo exterior, a escuridão da noite iluminada parcamente pelos postes que pontilhavam a rua da frente de sua casa.

Um calafrio perpassou seu corpo, mais gélido que o vento sul quando sopra nas madrugadas de inverno, pois no canto de seus olhos ela podia enxergar, se locomovendo como água que verte das paredes, passando pelas frestas que separavam os novos prédios das casas velhas da Vila Carrão, três vultos cinzentos, sem qualquer brilho ou calor que pudessem testemunhar que estavam vivos. Ela sentiu o rosto empalidecer de imediato, como se o fluido vital de seu corpo quisesse escapar de terror ante aquela visão. Instintivamente, Bia já sabia a quem eles estavam procurando.

Como uma enchente que repentinamente destrói toda uma vizinhança, o trauma gritava em sua mente, na cor do borralho da lâmina que a arrebatara dias antes. Eram três, exatamente três, como no dia em que o frio a envolveu e o gosto doce e enjoativo de sangue tomou de assalto sua boca, naquele terreno baldio, antes de tudo escurecer. Para ela, aquele tom de cinza não era mais uma cor, mas o cheiro fúnebre do vácuo estéril que a transformara em um cadáver sob as flores do ipê amarelo. “Eles voltaram, pensou ela. “Como me encontraram? O que querem de mim?

Bia se levantou de sobressalto e pensou em gritar por sua obachan e seu ojichan, se esconder nos braços dos avós, para que eles a abrigassem do perigo como sempre fizeram desde que era nova demais para se lembrar. Mas antes que a palavra se formasse em sua garganta, ela percebeu que o fazer só os colocaria em risco. Se gritasse e corresse para seu lugar seguro, transformaria o espaço sagrado de seu lar num mausoléu.

Naquele momento, ela se sentia uma intrusa em sua própria casa, um objeto de valor cobiçado cuja mera presença atraía predadores, e sabia que não podia ser encontrada nas mãos de seus avós quando esses predadores chegassem. Em vez disso, ela se escondeu entre o armário e a escrivaninha. De alguma forma naquele momento, para ela, o paletó de Gabriel ali guardado era como uma armadura que a protegeria do mal que se avizinhava, e as bonecas Hinamatsuri herdadas da mãe, samurais que lutariam em defesa de sua honra.

— Gabriel… Senpai… — Ela sussurrou num suspiro, quase choroso. — Vem logo… Eu preciso de você! Não foi para isso que você me trouxe de volta! — Ela sabia que suas pálpebras bem apertadas eram o último escudo contra a escuridão que a arrebataria. A fé que seu coração depositava na luz daquelas velas de sexta-feira era quase pitoresca, mas não era lógica. Tremendo como uma folha ao vento, Bia já aceitara o desfecho inevitável, com toda a resolução de uma criança na rua ao perceber os faróis do carro se aproximando rápido demais para desviar.

Todavia, de súbito, a cicatriz em seu peito deu um solavanco; um espasmo de calor tão agudo que a subtraiu de seu fôlego, e a fez pressionar a palma de sua mão com força sobre o coração. Aquilo não era a reação normal de sua cicatriz à proximidade de Gabriel; era um aviso do que estava por vir. Reunindo toda coragem que lhe restava, a garotinha escondida entre o armário e os pôsteres de personagens de anime fitou novamente através do vidro da janela, passando pela cortina dourada do lado de fora, até alcançar as frestas entre os sobrados vizinhos e as torres de condomínios que sufocavam a vizinhança. E lá, ela o viu.

Uma luz verde-esmeralda, afiada como uma lâmina, se escondia sobre a luz amarelada de um poste próximo a sua casa, quase que forçando a coluna de concreto a se curvar como bambu tenro sob sua massa. O tom, o brilho, a agudeza, e a gravidade daquela luz denunciavam a presença de Gabriel, escondido nas frestas da cidade. Ele era o único ponto de referência que impedia o cinza daqueles três homens de devorar o asfalto.

Bia sentia a marca que seu assassino deixara em seu peito bater com intensidade, o segundo coração que ela recebera de Gabriel quando ele lhe restituiu a vida. Seu cavaleiro brilhante saltou de seu pedestal e deu combate a seus inimigos.

Mas havia mais alguém além dele. Bia observou, o acompanhando, uma luz gélida e estática, branca como a neve, afiada como o fio de uma navalha. Ela não sabia o que era aquilo, mas podia sentir o frio da neve eterna dos polos lhe tocar. Aquele brilho a assombrava, ele se parecia com o gelo das montanhas, mas de algum modo toda aquela algidez perpetuava o fogo verde de Gabriel. Ele não veio sozinho. Ele trouxe o inverno com ele”, a menina sussurrou para o escuro, os olhos castanhos repletos de pavor e alívio simultâneos.

Lá no alto, onde as nuvens de poluição costumam esconder as estrelas, o céu parecia estar sendo redesenhado. Os combatentes andavam pela geometria da cidade, atravessando traços impossivelmente estreitos, antes de subirem como línguas de fogo. Não havia som de trovão, apenas um clarão rítmico e silencioso, visível apenas para Bia, como se titãs estivessem batendo placas de metal em brasa nas alturas.

Cada centelha desse conflito invisível ressoava em sua cicatriz, e Bia sentiu que, se aquela luz esmeralda se apagasse, não só Gabriel, mas ela própria simplesmente deixaria de existir novamente.


Andares abaixo da peleja silenciosa que Bia testemunhava, a sala de estar da casa de sua família parecia submersa em um tempo diferente, um tempo de relógios de corda e madeira encerada.

Dona Yukimi trazia uma bandeja de laca preta, onde o vapor de uma infusão de flores de jasmim e cascas de laranja subia em espirais delicadas. O aroma era uma tentativa de maciez, uma mão invisível que buscava acariciar as arestas cortantes do ambiente ou, ao menos, cegar-lhes o fio.

— Beba, Seitoku-san — disse ela, a voz fluindo com a suavidade do chá despejado do bule. — Bia está desabrochando. Ela é uma flor que em breve, nós não poderemos mais guardar para nós.

Seu Seitoku não se moveu. Ele estava imóvel em sua poltrona de vime, as mãos calejadas sobre os joelhos não esboçavam movimento. Ele era como um bloco de motor de um Opala, pesado, indomável, e carregado de um torque que o tempo não fora capaz de dissipar. Ele apenas queria sua família bem alinhada e balanceada, sem desvios que pudessem acarretar acidentes potencialmente fatais.

— Ela precisa de direcionamento, Yukimi-chan. — Ele era solene como o motor de um caminhão velho porém funcional. — E agora, ela é um carro desgovernado. Eu temo que, desse jeito, ela acabe se despedaçando contra o muro daquele mundo de vidro onde o rapaz Hazan vive. Ele não é como nós.

— E nem você era, mas nós estamos aqui, itoshi hito. — As mãos macias de Dona Yukimi tocaram a pele áspera e rígida de Seu Seitoku, e suas palavras doces trouxeram de volta as memórias da juventude.

— Era diferente… — Ele insistia em retrucar, mas sua voz já assumia a derrota. Ele temia estar errado, não pelo que em seu coração sentia que deixara acontecer com sua preciosa neta, mas por não se permitir se adaptar, como o chá que toma a forma da vasilha em que é colocado. — Naquele tempo, eu não a teria tomado sem permissão de seu pai, Yukimi-chan. — Ele ainda tentava manter a compostura, antes de sua voz enfim se tornar um murmúrio, como um motor reclamando por não conseguir dar a partida. — E o velho Saburo não teria aceitado um gaijin.

— Era diferente… — Dona Yukimi respondeu, espelhando as palavras do marido, sua voz como as ondas do mar que teimam em chegar à praia, ainda que apenas para voltar ao oceano de onde saíram. — Aquele era o nosso tempo, e não o tempo da Bia-chan, Seitoku-chan. — O sufixo, só usado em momentos de íntimo carinho entre o casal, indicava a mudança no tom da discussão. — Talvez seja tempo de darmos tempo ao tempo.

Seu Seitoku não tocara na xícara. Seus olhos, endurecidos por décadas de trabalho mecânico, estavam fixos na escadaria que levava ao quarto da neta. Ele sentia que algo estava errado em seu mundo, mas sua mente buscava explicações prosaicas demais para a realidade que ele não podia ver: desonra, rebeldia, má influência. Ou, talvez, ele houvesse ficado antiquado, um modelo velho demais para poder circular nas ruas da cidade confortavelmente.

Dona Yukimi suspirou profundamente, como quem termina de sovar a massa do pão. Ela observava os olhos do marido se tornarem mais suaves, o cenho ainda fechado mas agora mais maleável. — Deixe que as águas esfriem, muito calor pode trincar o vidro. E depois que as coisas houverem se assentado, seria bom conversar com o rapaz, quem sabe ele é melhor do que você espera?

O avô bufou, uma descarga de ar quente que lembrava o escape de uma máquina cansada. Esse era um ritual antigo entre os dois: o atrito entre a força motriz dele e a fluidez restauradora dela. Dona Yukimi estava certa, a neta, a única família que lhes havia restado, era o mundo dos dois, de Seu Seitoku também, e apesar das palavras duras proferidas anteriormente, ele não a queria perder.

Mesmo assim, algo o perturbava, algo que ele não sabia precisar o que era. Ele sentiu uma vibração estranha na sola dos pés, um tremor que não vinha do trânsito da rua, mas da profundidade do firmamento. Por um instante, o seu coração falhou uma batida com o ruído de uma telha se quebrando, como se mãos invisíveis tocassem as engrenagens da realidade.

— Tem algo estranho — ele resmungou, a voz se perdendo na paz doméstica que aos poucos se reimpunha.


A aparente tranquilidade da Vila Carrão era uma ilusão sustentada pela cegueira de seus habitantes. Gabriel e Aki saltavam entre postes, muros, telhados e terraços sem fazer barulho, atravessando as frestas que se escondem na edificação da Realidade.

Acompanhando-os numa dança mortal, seus três adversários convergiram sobre eles com a precisão de vetores matemáticos. Não havia gritos de guerra ou hesitação, eles eram máquinas biológicas de combate, cuja única missão agora era incapacitar, ou matar, Gabriel e Aki, para então rastrear e reaver aquilo que procuravam, e que Gabriel tentava ocultar.

Mas era em vão. Os dois magi não podiam ser dobrados pela magia astral dos servos dos Arcontes. Nesse embate, o par era o epicentro de uma força imparável.

O primeiro dos adversários avançou, a mão estendida com seu estilete empunhado como o punhal de um assassino. Porém, ao tocar na aura esmeralda de Gabriel, revelou um escudo de padrões geométricos triangulares que ondulavam ao redor do rapaz. Ele estendeu sua mão direita num arco horizontal, como quem atira alguma coisa com os punhos. — Even hakalang! — O peito do homem de sobretudo cinza se afundou, e seu corpo violentamente arremessado chocou com uma ressonância metálica contra o portão de ferro de um sobrado vizinho.

Aki, no entanto, não era tão misericordioso. A magia de Gabriel podia ser atroz, mas usava sua força para afastar, enquanto a luz branca do mordomo era cirúrgica. Ele não se dava ao trabalho de desviar; ele interceptava. O encanto de Gabriel gerou uma breve abertura em seu escudo, e quando o segundo capote tentou o atacar por essa fenda, Aki atingiu o oponente na base do crânio com um golpe seco da empunhadura de sua adaga de prata.

Não houve sangue, apenas o som de algo essencial se quebrando dentro do pobre diabo, cujo corpo prontamente se desfez em fumaça e vapor d’água. A visão desagradava Gabriel, mas ele não podia contestar a eficácia definitiva do golpe.

O terceiro cinzento se afastou estrategicamente, e começou a pronunciar palavras de poder num idioma antigo mas jamais esquecido. Gabriel de pronto iniciou seu contra-encantamento, preparando-se para resistir ao ataque que viria. Todavia, antes que qualquer um dos dois pudesse terminar, com um movimento fluido, Aki atirou sua faca contra o inimigo restante, quebrando sua armadura mística como cristal de má qualidade, atravessando seu olho e perfurando seu cérebro, iniciando de pronto o processo de sublimação do capanga dos Arcontes.

— Um deles conseguiu fugir, senhor. — Gabriel não sabia se o velho finlandês falava com seriedade ou sarcasmo, mas as mortes o incomodavam mesmo quando necessárias, mesmo quando os mortos eram seus adversários mortais.

— Então vamos iniciar o procedimento. — Gabriel desceu ao centro da rua e se ajoelhou lá, imperceptível na linha entre as faixas dos carros, ignorando o asfalto áspero. Ele não pediu permissão ao mundo, mas impôs sua vontade sobre ele. Suas mãos começaram a traçar sigilos no ar, filamentos verdes que se enterravam no solo e subiam pelas paredes das casas, alcançando telhados que estalavam e trincavam na escuridão noturna iluminada de verde apenas para os que podiam ver, criando uma rede de cálculos impossíveis.

Ele estava redesenhando a vizinhança; não o concreto, não o asfalto, mas as linhas ocultas que permitem ao mundo ser lido de fora. A partir daquele momento, para qualquer magus que tentasse observar o lugar ou se esgueirar até ele pelas frestas da Realidade, a casa dos Sato deixou de ocupar um ponto estável no mapa oculto da cidade. Os ângulos de acesso foram fechados, os trajetos colapsaram sobre si mesmos, e a própria tessitura mística do bairro passou a operar como um labirinto que escapava à visão erudita, coerente em sua estrutura interna, mas ilegível para aqueles que não possuíam a chave, a qual apenas Gabriel detinha.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Capítulo 10: Geometria da Culpa

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Bia estava encolhida na cabeceira de sua cama, próxima do parapeito da janela de seu quarto, observando as velas que acendera se consumirem pelo fogo de base azulada. À frente de seus olhos, os pavios se transformavam numa fumaça transparente, que fazia um movimento bruxuleante no ar parado de seu quarto. No coração da garota, aqueles traços de luz invisíveis eram como a linha do novelo de Ariadne, com os quais ela poderia trazer Gabriel para seu abraço, para seu peito. Mas no fundo, ela sabia que aquilo era apenas um artifício impossível no mundo real, um clichê dos mangás shoujo que ela gostava tanto de ler desde que adolesceu.

Ela se sentia culpada pelos avós, os quais ela ainda escutava, discutindo baixinho na sala de estar; por Mariana, Felipe, e mesmo por Erik, que à sua maneira a tentavam proteger, mesmo sem saber sua nova situação. E ela se sentia perdida, pois sabia que Gabriel velava por ela, mas não entendia a razão dele a rejeitar tão friamente, não lhe acolher, não lhe explicar o que aconteceu. E isso era uma câmara de eco para as dúvidas dela a respeito das verdadeiras intenções do rapaz. “O casaco é a prova que ele se importa,” mas o pensamento era imediatamente retrucado por outro “‘Quando eu precisar de você,’ foi o que ele disse.”

Os olhos de Bia insistiam em fitar a porta fechada do guarda-roupa, e mesmo longe ela ainda conseguia sentir o cheiro de terra molhada e madeira, já apagado pelo sabão de coco que a avó usara para limpar o paletó enlameado na noite de terça-feira.

Uma vibração quase inaudível no vidro da janela cortou o ritmo de seus pensamentos, atraindo seus olhos para além da luz das velas, e das flores do ipê amarelo que salvaguardava a janela de seu quarto como um guarda fiel desde sua tenra infância. Ela atirou seu corpo para frente, colocou suas mãos no vidro gelado que parecia tremer sutilmente, e observou o mundo exterior, a escuridão da noite iluminada parcamente pelos postes que pontilhavam a rua da frente de sua casa.

Um calafrio perpassou seu corpo, mais gélido que o vento sul quando sopra nas madrugadas de inverno, pois no canto de seus olhos ela podia enxergar, se locomovendo como água que verte das paredes, passando pelas frestas que separavam os novos prédios das casas velhas da Vila Carrão, três vultos cinzentos, sem qualquer brilho ou calor que pudessem testemunhar que estavam vivos. Ela sentiu o rosto empalidecer de imediato, como se o fluido vital de seu corpo quisesse escapar de terror ante aquela visão. Instintivamente, Bia já sabia a quem eles estavam procurando.

Como uma enchente que repentinamente destrói toda uma vizinhança, o trauma gritava em sua mente, na cor do borralho da lâmina que a arrebatara dias antes. Eram três, exatamente três, como no dia em que o frio a envolveu e o gosto doce e enjoativo de sangue tomou de assalto sua boca, naquele terreno baldio, antes de tudo escurecer. Para ela, aquele tom de cinza não era mais uma cor, mas o cheiro fúnebre do vácuo estéril que a transformara em um cadáver sob as flores do ipê amarelo. “Eles voltaram, pensou ela. “Como me encontraram? O que querem de mim?

Bia se levantou de sobressalto e pensou em gritar por sua obachan e seu ojichan, se esconder nos braços dos avós, para que eles a abrigassem do perigo como sempre fizeram desde que era nova demais para se lembrar. Mas antes que a palavra se formasse em sua garganta, ela percebeu que o fazer só os colocaria em risco. Se gritasse e corresse para seu lugar seguro, transformaria o espaço sagrado de seu lar num mausoléu.

Naquele momento, ela se sentia uma intrusa em sua própria casa, um objeto de valor cobiçado cuja mera presença atraía predadores, e sabia que não podia ser encontrada nas mãos de seus avós quando esses predadores chegassem. Em vez disso, ela se escondeu entre o armário e a escrivaninha. De alguma forma naquele momento, para ela, o paletó de Gabriel ali guardado era como uma armadura que a protegeria do mal que se avizinhava, e as bonecas Hinamatsuri herdadas da mãe, samurais que lutariam em defesa de sua honra.

— Gabriel… Senpai… — Ela sussurrou num suspiro, quase choroso. — Vem logo… Eu preciso de você! Não foi para isso que você me trouxe de volta! — Ela sabia que suas pálpebras bem apertadas eram o último escudo contra a escuridão que a arrebataria. A fé que seu coração depositava na luz daquelas velas de sexta-feira era quase pitoresca, mas não era lógica. Tremendo como uma folha ao vento, Bia já aceitara o desfecho inevitável, com toda a resolução de uma criança na rua ao perceber os faróis do carro se aproximando rápido demais para desviar.

Todavia, de súbito, a cicatriz em seu peito deu um solavanco; um espasmo de calor tão agudo que a subtraiu de seu fôlego, e a fez pressionar a palma de sua mão com força sobre o coração. Aquilo não era a reação normal de sua cicatriz à proximidade de Gabriel; era um aviso do que estava por vir. Reunindo toda coragem que lhe restava, a garotinha escondida entre o armário e os pôsteres de personagens de anime fitou novamente através do vidro da janela, passando pela cortina dourada do lado de fora, até alcançar as frestas entre os sobrados vizinhos e as torres de condomínios que sufocavam a vizinhança. E lá, ela o viu.

Uma luz verde-esmeralda, afiada como uma lâmina, se escondia sobre a luz amarelada de um poste próximo a sua casa, quase que forçando a coluna de concreto a se curvar como bambu tenro sob sua massa. O tom, o brilho, a agudeza, e a gravidade daquela luz denunciavam a presença de Gabriel, escondido nas frestas da cidade. Ele era o único ponto de referência que impedia o cinza daqueles três homens de devorar o asfalto.

Bia sentia a marca que seu assassino deixara em seu peito bater com intensidade, o segundo coração que ela recebera de Gabriel quando ele lhe restituiu a vida. Seu cavaleiro brilhante saltou de seu pedestal e deu combate a seus inimigos.

Mas havia mais alguém além dele. Bia observou, o acompanhando, uma luz gélida e estática, branca como a neve, afiada como o fio de uma navalha. Ela não sabia o que era aquilo, mas podia sentir o frio da neve eterna dos polos lhe tocar. Aquele brilho a assombrava, ele se parecia com o gelo das montanhas, mas de algum modo toda aquela algidez perpetuava o fogo verde de Gabriel. “Ele não veio sozinho. Ele trouxe o inverno com ele”, a menina sussurrou para o escuro, os olhos castanhos repletos de pavor e alívio simultâneos.

Lá no alto, onde as nuvens de poluição costumam esconder as estrelas, o céu parecia estar sendo redesenhado. Os combatentes andavam pela geometria da cidade, atravessando traços impossivelmente estreitos, antes de subirem como línguas de fogo. Não havia som de trovão, apenas um clarão rítmico e silencioso, visível apenas para Bia, como se titãs estivessem batendo placas de metal em brasa nas alturas.

Cada centelha desse conflito invisível ressoava em sua cicatriz, e Bia sentiu que, se aquela luz esmeralda se apagasse, não só Gabriel, mas ela própria simplesmente deixaria de existir novamente.


Andares abaixo da peleja silenciosa que Bia testemunhava, a sala de estar da casa de sua família parecia submersa em um tempo diferente, um tempo de relógios de corda e madeira encerada.

Dona Yukimi trazia uma bandeja de laca preta, onde o vapor de uma infusão de flores de jasmim e cascas de laranja subia em espirais delicadas. O aroma era uma tentativa de maciez, uma mão invisível que buscava acariciar as arestas cortantes do ambiente ou, ao menos, cegar-lhes o fio.

— Beba, Seitoku-san — disse ela, a voz fluindo com a suavidade do chá despejado do bule. — Bia está desabrochando. Ela é uma flor que em breve, nós não poderemos mais guardar para nós.

Seu Seitoku não se moveu. Ele estava imóvel em sua poltrona de vime, as mãos calejadas sobre os joelhos não esboçavam movimento. Ele era como um bloco de motor de um Opala, pesado, indomável, e carregado de um torque que o tempo não fora capaz de dissipar. Ele apenas queria sua família bem alinhada e balanceada, sem desvios que pudessem acarretar acidentes potencialmente fatais.

— Ela precisa de direcionamento, Yukimi-chan. — Ele era solene como o motor de um caminhão velho porém funcional. — E agora, ela é um carro desgovernado. Eu temo que, desse jeito, ela acabe se despedaçando contra o muro daquele mundo de vidro onde o rapaz Hazan vive. Ele não é como nós.

— E nem você era, mas nós estamos aqui, itoshi hito. — As mãos macias de Dona Yukimi tocaram a pele áspera e rígida de Seu Seitoku, e suas palavras doces trouxeram de volta as memórias da juventude.

— Era diferente… — Ele insistia em retrucar, mas sua voz já assumia a derrota. Ele temia estar errado, não pelo que em seu coração sentia que deixara acontecer com sua preciosa neta, mas por não se permitir se adaptar, como o chá que toma a forma da vasilha em que é colocado. — Naquele tempo, eu não a teria tomado sem permissão de seu pai, Yukimi-chan. — Ele ainda tentava manter a compostura, antes de sua voz enfim se tornar um murmúrio, como um motor reclamando por não conseguir dar a partida. — E o velho Saburo não teria aceitado um gaijin.

— Era diferente… — Dona Yukimi respondeu, espelhando as palavras do marido, sua voz como as ondas do mar que teimam em chegar à praia, ainda que apenas para voltar ao oceano de onde saíram. — Aquele era o nosso tempo, e não o tempo da Bia-chan, Seitoku-chan. — O sufixo, só usado em momentos de íntimo carinho entre o casal, indicava a mudança no tom da discussão. — Talvez seja tempo de darmos tempo ao tempo.

Seu Seitoku não tocara na xícara. Seus olhos, endurecidos por décadas de trabalho mecânico, estavam fixos na escadaria que levava ao quarto da neta. Ele sentia que algo estava errado em seu mundo, mas sua mente buscava explicações prosaicas demais para a realidade que ele não podia ver: desonra, rebeldia, má influência. Ou, talvez, ele houvesse ficado antiquado, um modelo velho demais para poder circular nas ruas da cidade confortavelmente.

Dona Yukimi suspirou profundamente, como quem termina de sovar a massa do pão. Ela observava os olhos do marido se tornarem mais suaves, o cenho ainda fechado mas agora mais maleável. — Deixe que as águas esfriem, muito calor pode trincar o vidro. E depois que as coisas houverem se assentado, seria bom conversar com o rapaz, quem sabe ele é melhor do que você espera?

O avô bufou, uma descarga de ar quente que lembrava o escape de uma máquina cansada. Esse era um ritual antigo entre os dois: o atrito entre a força motriz dele e a fluidez restauradora dela. Dona Yukimi estava certa, a neta, a única família que lhes havia restado, era o mundo dos dois, de Seu Seitoku também, e apesar das palavras duras proferidas anteriormente, ele não a queria perder.

Mesmo assim, algo o perturbava, algo que ele não sabia precisar o que era. Ele sentiu uma vibração estranha na sola dos pés, um tremor que não vinha do trânsito da rua, mas da profundidade do firmamento. Por um instante, o seu coração falhou uma batida com o ruído de uma telha se quebrando, como se mãos invisíveis tocassem as engrenagens da realidade.

— Tem algo estranho — ele resmungou, a voz se perdendo na paz doméstica que aos poucos se reimpunha.


A aparente tranquilidade da Vila Carrão era uma ilusão sustentada pela cegueira de seus habitantes. Gabriel e Aki saltavam entre postes, muros, telhados e terraços sem fazer barulho, atravessando as frestas que se escondem na edificação da Realidade.

Acompanhando-os numa dança mortal, seus três adversários convergiram sobre eles com a precisão de vetores matemáticos. Não havia gritos de guerra ou hesitação, eles eram máquinas biológicas de combate, cuja única missão agora era incapacitar, ou matar, Gabriel e Aki, para então rastrear e reaver aquilo que procuravam, e que Gabriel tentava ocultar.

Mas era em vão. Os dois magi não podiam ser dobrados pela magia astral dos servos dos Arcontes. Nesse embate, o par era o epicentro de uma força imparável.

O primeiro dos adversários avançou, a mão estendida com seu estilete empunhado como o punhal de um assassino. Porém, ao tocar na aura esmeralda de Gabriel, revelou um escudo de padrões geométricos triangulares que ondulavam ao redor do rapaz. Ele estendeu sua mão direita num arco horizontal, como quem atira alguma coisa com os punhos. — Even hakalang! — O peito do homem de sobretudo cinza se afundou, e seu corpo violentamente arremessado chocou com uma ressonância metálica contra o portão de ferro de um sobrado vizinho.

Aki, no entanto, não era tão misericordioso. A magia de Gabriel podia ser atroz, mas usava sua força para afastar, enquanto a luz branca do mordomo era cirúrgica. Ele não se dava ao trabalho de desviar; ele interceptava. O encanto de Gabriel gerou uma breve abertura em seu escudo, e quando o segundo capote tentou o atacar por essa fenda, Aki atingiu o oponente na base do crânio com um golpe seco da empunhadura de sua adaga de prata.

Não houve sangue, apenas o som de algo essencial se quebrando dentro do pobre diabo, cujo corpo prontamente se desfez em fumaça e vapor d’água. A visão desagradava Gabriel, mas ele não podia contestar a eficácia definitiva do golpe.

O terceiro cinzento se afastou estrategicamente, e começou a pronunciar palavras de poder num idioma antigo mas jamais esquecido. Gabriel de pronto iniciou seu contra-encantamento, preparando-se para resistir ao ataque que viria. Todavia, antes que qualquer um dos dois pudesse terminar, com um movimento fluido, Aki atirou sua faca contra o inimigo restante, quebrando sua armadura mística como cristal de má qualidade, atravessando seu olho e perfurando seu cérebro, iniciando de pronto o processo de sublimação do capanga dos Arcontes.

— Um deles conseguiu fugir, senhor. — Gabriel não sabia se o velho finlandês falava com seriedade ou sarcasmo, mas as mortes o incomodavam mesmo quando necessárias, mesmo quando os mortos eram seus adversários mortais.

— Então vamos iniciar o procedimento. — Gabriel desceu ao centro da rua e se ajoelhou lá, imperceptível na linha entre as faixas dos carros, ignorando o asfalto áspero. Ele não pediu permissão ao mundo, mas impôs sua vontade sobre ele. Suas mãos começaram a traçar sigilos no ar, filamentos verdes que se enterravam no solo e subiam pelas paredes das casas, alcançando telhados que estalavam e trincavam na escuridão noturna iluminada de verde apenas para os que podiam ver, criando uma rede de cálculos impossíveis.

Ele estava redesenhando a vizinhança; não o concreto, não o asfalto, mas as linhas ocultas que permitem ao mundo ser lido de fora. A partir daquele momento, para qualquer magus que tentasse observar o lugar ou se esgueirar até ele pelas frestas da Realidade, a casa dos Sato deixou de ocupar um ponto estável no mapa oculto da cidade. Os ângulos de acesso foram fechados, os trajetos colapsaram sobre si mesmos, e a própria tessitura mística do bairro passou a operar como um labirinto que escapava à visão erudita, coerente em sua estrutura interna, mas ilegível para aqueles que não possuíam a chave, a qual apenas Gabriel detinha.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Capítulo 9: Velas na Janela

 

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O que restava da semana se arrastou como um pesadelo em câmera lenta. No campus da faculdade, Bia se sentia uma intrusa em sua própria rotina. Começou a evitar as áreas comuns, escondendo-se atrás de pilares e pranchetas, mas seus olhos sempre buscavam, contra a sua própria vontade, a silhueta de Gabriel, o herdeiro de um reino perdido e mágico que não deveria existir no meio do concreto de São Paulo, e que insistia em desaparecer pelas frestas de sua visão.

Ela sabia que toda vez que ele se aproximava, a cicatriz em seu peito aquecia, um diapasão invisível vibrando em resposta à frequência dele. Ele não conseguiria se esconder por muito mais tempo, e ela obteria dele o que ansiava, desde que conseguisse domar o próprio coração enfeitiçado.

Sexta-feira à noite chegou com o peso de uma sentença. Ela terminou a semana sem uma explicação para toda aquela situação, e com o paletó guardado em seu armário, dividindo espaço nos cabides com suas camisas mais fofas e seus vestidos preferidos. Ela queria se aproximar do homem misterioso, mas não sabia como.

Em casa, Bia ficava mais vulnerável. Vestia uma camisa oversized de algodão cinza, com mangas três-quartos e a estampa de um céu estrelado e uma estrela sorridente dizendo “suki” em hiragana. A camisa era grande o suficiente para cobrir o short de moletom azul marinho, suas pernas escondidas apenas pelas meias cinzas altas de gatinhos e arco-íris. O cabelo comprido preto, liso e sedoso como uma camisa cara, preso num rabo de cavalo alto completava o visual.

Desde que se apaixonara por Gabriel e começara a pesquisar, de forma desajeitada e romântica, sobre as tradições dele, Bia adotara um hábito: acender duas velas brancas no parapeito da janela de seu quarto ao pôr do sol de sexta. Ela não sabia as orações, não conhecia as leis, mas era o seu jeito secreto de tentar tocar a orla do manto daquele mistério que ele representava para ela.

— Beatriz Sato. Venha aqui. Agora. — A voz do avô, Seitoku, ecoou do corredor. Não era um convite; era uma convocação para o tribunal da sala de estar.

Bia terminou de acender o segundo pavio, as mãos trêmulas, e caminhou até a sala. A casa da Vila Carrão estava muda, o silêncio denso como água gelada, quebrado apenas pelo tique-taque do relógio de parede. Seu Seitoku estava sentado em sua poltrona de vime, a mesma que ele ocupava desde que ela se lembrava por gente. Ele era um homem pequeno, de mãos calejadas por décadas de trabalho pesado na oficina mecânica. Ele cheirava a sabonete em barra e óleo de motor, era palpável, quase próximo demais, diferente do cheiro de madeira e terra molhada do paletó de Gabriel. Sua presença preenchia o cômodo com a solidez de um carvalho mizunara secular.

Bia parou na entrada da sala. A aura dele era diferente da de Dona Yukimi. Se a da avó era um dourado suave, a de Seu Seitoku era um âmbar profundo e sólido, como uma rocha que guardava o calor do dia por muitas horas depois do sol se pôr.

— Senta. — ordenou ele, apontando com o dedo nodoso para o banco de madeira à sua frente. — Sua avó diz que você não come direito. Diz que você se tranca no quarto e chora até conseguir dormir. E tem essas velas, que você fica acendendo como se estivesse em um templo que não é o nosso. O que está acontecendo com você, Beatriz?

— É só… Um hábito, ojichan. Uma curiosidade. — Ela ignorou de propósito as duas primeiras coisas que o avô falou, como se responder a elas fosse a deixar desnuda, desprotegida, naquele julgamento.

— Não minta para mim. — A voz de Seu Seitoku subiu um tom, vibrando com uma autoridade que fez a luz da sala parecer oscilar. — Na noite de terça-feira que você chegou atrasada, suja, coberta com o paletó de um estranho, a roupa por baixo rasgada, e o olhar de quem perdeu a alma… Algo aconteceu. Eu conheço o cheiro do perigo. Eu já vi o que acontece quando o coração toma as rédeas e o mundo se desfaz. O que aquele rapaz fez com você?

— Ele não fez nada! — Bia disparou, as mãos fechadas em punho sobre os joelhos. — Houve um problema no caminho… Eu tropecei, e ele me ajudou!

— Ajudou? — O homem velho se inclinou para frente num movimento brusco, os olhos estreitos como fendas. A aura dele se acendeu com um tom avermelhado de irritação. — Ele é um Hazan. Eles são uma gente de livros, cujo dinheiro escreve o destino de miríades. Nós somos donos do nosso suor. Você está se perdendo em um labirinto que não foi feito para os seus pés. Eu trabalhei dez horas por dia, de domingo a domingo, para que seu pai fosse engenheiro e para que você pudesse desenhar casas. Para você crescer em segurança. — A irritação cedeu ao desaponto. — Não para você ser o passatempo de um menino rico que acha que o mundo é seu tabuleiro de xadrez!

— Você não entende! Ele é diferente! Ele é… — Bia tentou buscar a palavra, mas como descrever um príncipe com poderes mágicos para um mecânico que se recusava a se aposentar? — Ele é de outro mundo, ojichan!

— Chega! — Seu Seitoku bateu a mão no braço da poltrona, a resposta dela piorou tudo. — Eu proíbo. Você não vai mais atrás desse rapaz. Não vai correr atrás dele como uma tola na rua, e não vai aos mesmos lugares que ele frequenta. Se eu souber que você cruzou o caminho dele de propósito, eu mesmo vou até aquela faculdade falar com o reitor. Você é o nosso sangue, Beatriz. Não vou deixar você se esvair por causa de uma paixão tola.

Bia sentiu uma pontada de dor no peito, bem em cima da cicatriz. O conflito entre o amor pelo avô zeloso e a ligação inexplicável com Gabriel a estava rasgando ao meio.

— Seitoku-san, querido, deixe a menina respirar… — Dona Yukimi apareceu na penumbra da cozinha, segurando um pano de prato, a voz da petição da garota, que se recusava a sair de seus próprios lábios. — Você está assustando ela.

— Não a defenda, Yukimi-chan! Ela está enfeitiçada. Olha para os olhos dela, parece que está vendo fantasmas!

— E você não estava enfeitiçado quando me conheceu? — A avó deu um passo à frente, e sua luz dourada pareceu suavizar a dureza do âmbar de Seu Seitoku. — Esqueceu que meu pai o chamava de “mecânico sem futuro”? Esqueceu que ele dizia que sua família era pobre demais para a nossa? Você também era de um “mundo diferente”, Seitoku-chan. Mas você ficou parado debaixo da janela da minha casa por três noites até ele deixar você entrar. Naqueles dias, nós também éramos gentes que não se misturavam aos olhos dos outros.

O avô bufou, mas o brilho avermelhado de sua aura cedeu, e deu lugar a um leve esplendor que remetia à juventude. Ele desviou o olhar, as memórias amolecendo a linha dura de sua boca. Mas a preocupação com a neta era maior que a nostalgia.

— Era diferente. — Resmungou ele. — Eu era pobre, mas eu era real. Esse Hazan… Há algo nele que me dá arrepios. É um frio que não é de São Paulo.

Bia aproveitou o momento para se levantar. Suas pernas estavam bambas, e a cicatriz em seu peito latejava como uma ferroada.

— Eu só quero compreender, ojichan. Eu sinto que… Que não sou mais a mesma.

O silêncio que se seguiu foi cortante. O rosto de Seu Seitoku mudou drasticamente. A dúvida deu lugar a uma certeza amarga e terrível. Para um homem de sua geração e cultura, aquela frase, dita por uma neta que chegara em casa com roupas rasgadas e o olhar perdido, só tinha um significado.

— “Não é mais a mesma”? — Ele repetiu, a voz agora baixa e carregada de um desprezo dolorido. — Então foi isso. Você se entregou para ele num canto de rua, num terreno baldio qualquer? Ele tirou de você o que não era dele e agora você acha que “mudou”?

— Não! Não é isso! — Bia gritou, horrorizada com a conclusão dele. — Não foi o que você está pensando!

— Vá para o seu quarto, Beatriz! — Seitoku rugiu, virando o rosto, recusando-se a olhar para ela. — Vá chorar pelo que você perdeu por causa de um príncipe de mentira. Se você não é mais a mesma, então a neta que eu criei morreu naquela noite.

Bia sentiu o golpe como se tivesse sido física. Ela olhou para a avó, buscando socorro, mas Dona Yukimi tinha os olhos baixos, triste pela brutalidade das palavras do marido, sua luz dourada havia ficado muda. Bia fugiu para o quarto, trancando a porta e desabando contra a madeira. Ela se jogou na cama e abraçou o travesseiro com força, as lágrimas finalmente venceram a barreira.

Ela olhou para as duas velas no parapeito da varanda de seu quarto, que alumiavam as flores do ipê que caíam lânguidas lá fora. Elas queimavam com uma chama alta e constante, azulada na base. Bia levou a mão ao peito e sentiu o relevo linear sobre a pele. “Ele me amava?” Ela se perguntou, lembrando-se do desespero nos olhos verdes dele quando a chamou pelo nome. “Aquilo foi um beijo, né?” A imagem dos lábios dele apertando contra os dela acelerava seu coração. “Ou, talvez, ele me marcou como propriedade, e me transformou em algo que nem meu próprio avô reconhece?”

Gabriel Hazan não era um namorado. Ele era um sol negro que a puxara para sua órbita, e agora, até o amor de sua família parecia ser reduzido a cinzas pelo fogo que ele soprara em suas veias.

— O que você fez comigo, Gabriel-senpai? — Ela sussurrou para o escuro, enquanto as velas projetavam sombras que pareciam se mover sozinhas entre os personagens dos pôsteres pendurados nas paredes do quarto da antiga casa da Vila Carrão.


Capítulo 14: Aliança sob a Lua