terça-feira, 26 de maio de 2026

Capítulo 4: Abalo Estrutural

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Para Gabriel, a realidade era um edifício mal construído. As pessoas comuns viam paredes e tetos; ele via as rachaduras. Naquela tarde, enquanto caminhava pela calçada duma avenida movimentada, a cidade parecia especialmente instável. O ar tinha um gosto de fumaça molhada e as luzes dos carros se afundavam nas poças que se formavam no asfalto, uma profundeza maior do que a lógica permitia.

Atrás de si, ele sentia um zumbido incômodo. Uma presença insistente, desajeitada e vibrante. A menina da biblioteca. “Como era o nome dela mesmo?” Ele tentou buscar na memória, mas nomes de pessoas vivas sempre lhe escapavam — ele guardava com muito mais facilidade as genealogias de filósofos mortos ou os comentários escritos das notas de rodapé de tratados medievais.

Aquela garota era um erro sistemático, um rosto gravado apenas pela contumácia da pequena jovem em chamar sua atenção com um misto de desembaraço e acanhamento. Um frágil dente-de-leão cuja flor da cor do sol desabrochava pelas rachaduras da descorada calçada da vida.

Ele não tinha tempo para aquilo. Seu tempo se dividia entre os negócios da família, seus estudos livres e sua peleja pessoal, o curso de Arquitetura pela manhã, onde se dedicava a desenhar edificações de linhas retas e firmes, e seu curso de Filosofia à noite, onde ele se tornara seu próprio carcereiro.

Gabriel tentou dobrar esquinas em ângulos fechados, buscando o isolamento necessário para o que sentia estar por vir. Todavia ela continuava lá, repleta de uma curiosidade inapropriada, um eco persistente de converse All Star surrado e molhado. Ele precisava fazer alguma coisa e, murmurando palavras antigas de proibição, entregou um édito ao próprio universo para que fosse cumprido com urgência, dispensando o impasse que lhe impedia de agir com a diligência necessária.

O rapaz continuou sua caminhada, virou numa travessa vazia e entrou numa brecha entre tapumes de metal enferrujado num canteiro de obras abandonado, um atoleiro vermelho onde materiais e ferramentas deixados para trás dividiam lugar com um ipê que insistira em sua permanência. Todavia, ele não conseguia esquecer os olhos castanhos e amendoados da garota, que momentos antes o observavam bem abertos. Se não fosse pela distração causada por aquele ruído humano, talvez Gabriel tivesse se preparado melhor para o que estava por vir.

Quando ele entrou no terreno baldio, retirou seu paletó e o atirou no chão, mas não houve barulho, o silêncio não era natural. O som da chuva contra o metal dos tapumes não ecoava; ele morria. Os três homens não surgiram de trás dos entulhos. Eles simplesmente passaram a ocupar o espaço, como se sempre estivessem ali. Eram batedores, homens de alma vendida que trajavam capotes cinzentos, os peões do sistema que ele tanto desprezava.

— Vocês estão adiantados. — Gabriel disse. A voz dele saiu firme, mas o ar ao redor de sua boca parecia vibrar com uma frequência errada. — O acordo era sobre a logística editorial na Europa. Não sobre me cercar em um terreno baldio em São Paulo. — Havia um toque de sarcasmo afiado em seu tom.

— A linhagem Hazan tem dívida, conosco que viemos cobrar, Arquiteto. Nos entregue agora o que Samuel roubou de nós. — A voz era fria, quase sintética.

O diálogo foi interrompido pelo tilintar de metal contra o concreto, um som mundano que perturbava aquele momento tenso, quase sagrado. Gabriel girou o corpo e seu sangue gelou. Entre os sacos de cimento e a árvore solitária, a garota estava lá, encharcada, o guarda-chuva de gatinhos fechado e os olhos brilhantes e assustados dela destoavam da paisagem sinistra.

— Você… — Gabriel deu um passo em direção a ela, quebrando o silêncio que parecera durar tempo demais, e sentindo um pavor que não sentia desde a noite em que encontrara o cadáver de seu pai debruçado sobre os mesmos tomos que ele agora se dedicava a decifrar. O escritório em silêncio, o cheiro de flores de macieira e a percepção de que, agora, ele era o último. — O que você está fazendo aqui? Por que me seguiu? — Seu timbre era mais ameaçador do que deveria.

Ela balbuciou uma frase incompleta, encerrada antes de fechar sua idéia. — Gabriel-senpai, eu… Eu só achei que… — Gabriel sentiu uma náusea profunda. A ingenuidade dela era um insulto à gravidade da situação, aquele não era o momento para isso.

— Qual é o seu nome? — Ele exigiu, com a dureza de um professor que demanda respeito de seus alunos. Se ele ia intervir na trajetória de uma vida, ele precisava da coordenada básica daquela existência.

— B-Beatriz. Beatriz Sato. — As palavras pareciam desmaiar ao sair dos lábios finos da menina.

— Escute bem, Beatriz. Você vai sair por aquele buraco. Você vai correr até a avenida e não vai parar por nada. Haverá um táxi parado na esquina, esperando por você. Não se preocupe em o pagar, mas você tem que sumir da minha vista agora! — Seu coração o impelia a levá-la para segurança, mas não havia tempo. Ele precisava voltar sua atenção aos oponentes que o cercavam, e começou a preparar seu encanto.

— Mas e você? Esses homens…

A aflição dela com a segurança dele era incômoda, quase ofensiva. — Agora! — Ele interrompeu seu ritual e rugiu com um misto de raiva e receio, mas o comando foi engolido por um movimento que desafiava a física.

Um dos capotes cinzentos deslizou pelas frestas do espaço, com toda a graça de um patinador de gelo. — Uma testemunha civil. Um resíduo indesejado. — Uma afirmação eficiente, precisa, e cruel.

Gabriel estendeu a mão para trás de si, para Beatriz Sato, sua mente disparando simultaneamente cálculos capazes de alterar a corrente de probabilidades, bem como sequências de contenção que ele já dominara, mas que nunca precisara aplicar para salvar outra vida. Ele era bom, o melhor de sua linhagem em gerações, mas nunca fora um escudo para os outros. — Hafsek, Kadish! Lô tirtzach! — Ele afirmou em alto e bom tom seu decreto mágico, enquanto desenhava o Escudo do Rei com seu indicador no ar, lançando-o para Bia com um célere golpe da palma de sua mão. O escudo girou e sua luz esmeralda fundiu-se num único disco fosforescente.

Não foi o suficiente. Não foi rápido o suficiente, nem foi bom o suficiente. O selo mágico se quebrou em centenas de cacos, estilhaçado ao se chocar com o estilete longo e fosco do homem que avançava. Mas Gabriel não podia desistir. Kivlê hakibush! Amarti lechá hafsek! ele esticou sua perna esquerda se agachando para baixar seu centro de gravidade, enquanto erguia o braço num movimento brusco, as palavras rolando como cascalho numa ribanceira.Chituch hazahav!

Com o primeiro encantamento ele prendeu o agressor em correntes místicas de luz, que ele puxava para trás como as rédeas de um cavalo. Com o segundo encantamento, ele dividiu o próprio espaço ocupado pelo braço de seu adversário em uma série de infinitos segmentos cada vez menores; era impossível ao ataque atravessar aquela distância numa sequência finita de tempo.

Gabriel tentou manter a concentração enquanto os outros dois capotes cinzentos surgiam a seu lado para o atacar, devolvendo a agressão com a fluidez de um artista marcial, um chute certeiro no abdômen de um e uma cotovelada brutal no rosto do outro.

Mas naquele momento de distração, os encantamentos que ele havia conjurado se enfraqueceram o suficiente para que o capote cinzento em frente a garota alcançasse seu objetivo, atravessando o próprio paradoxo de Zenão. Sua lâmina monotômica atravessou o tecido espaço e rasgou o peito de Beatriz com uma facilidade mágica.

A garota caiu, um baque molhado no chão de lama misturado com pétalas amarelas, o guarda-chuva de gatinhos para um lado e sua bolsa de materiais, já ensopada, para o outro. Ela não gritou, não se debateu, não reagiu, não havia tempo para isso.

Numa reação automática Gabriel se jogou para o lado dela, se desvencilhando de seus adversários com socos e chutes frenéticos, e passando pelo assassino, agora livre de suas correntes, agachado no chão como um gato, como se o homem não estivesse lá.

Gabriel a puxou para seu colo, tentou estancar o sangue, fechar a ferida, mas ele era melhor construindo armas místicas e erguendo escudos de magia que curando machucados, físicos, emocionais ou espirituais. O sangue dela o empapava, pesava em sua camisa, e parecia pressionar seu próprio coração.

— Beatriz, olha para mim! Não fecha os olhos! — O fôlego de vida escapava das narinas da menina, e seus lábios delicados vertiam sangue. Mesmo assim, ela parecia sorrir. A boca dela se movia, um gorgolejo úmido tentando formar palavras. Os olhos dela possuíam uma brandura que não condizia com a situação. — Beatriz! Boi! Kumi! Boi! Kumi! — O dano era fatal. Ele falhou em a proteger, outra morte em sua conta, o rosto de seu pai passou como um lampejo em sua mente. Sua memória era uma senhora cruel. Ele não pôde segurar o grito que queria saltar de sua garganta. — Maldição! Não assim! Não posso deixar terminar assim! Não é justo!

No momento de suas imprecações, Gabriel percebeu que os agressores não lhe dariam mais tempo para o luto. Eles o observavam atentamente, buscando uma brecha em suas defesas místicas. Ele a apertou contra seu peito uma última vez, preparando-se para retomar o conflito.

Quando os outros dois homens avançaram simultaneamente ele estirou Beatriz gentilmente sobre o leito lodoso coberto de flores e se ergueu, na velocidade dum piscar de olhos. Eles queriam o prêmio que o último Hazan carregava consigo, e Beatriz fora apenas um obstáculo removido. Algo dentro de Gabriel estalou. Quando um de seus oponentes avançou, Gabriel deu um passo à frente e o mundo ao redor dele pareceu se contrair. — Ruach hakoach. — Suas palavras, cadenciadas como uma melodia antiga, acompanhada de um gesto semicircular de seu braço, aplicou uma pressão na estrutura do ar. O homem de cinza bateu com violência no próprio ar, jorrando sangue de seu nariz quebrado, e foi lançado contra o tapume, batendo com um som surdo de metal retorcido que veio da chapa e de seus ossos.

O assassino a frente de Gabriel se ergueu sobre suas pernas e tentou um golpe lateral. Gabriel desviou com um movimento mínimo, segurando o pulso direito do homem com sua mão esquerda. Ele murmurou algo que parecia arranhar o fundo de sua garganta. — Tishcach yeminchá. — O braço do homem de capote simplesmente perdeu a coesão, dobrando-se em muitos ângulos errados.

— Fora daqui! — Gabriel sibilou, sem se virar, salvo por seus olhos que brilhavam como uma fornalha e acompanhavam o último dos capotes cinzentos ainda de pé.

Os atacantes recuaram, eles sabiam que não podiam mais o vencer, e desapareceram nas frestas abertas entre os cantos da realidade física. Gabriel não os perseguiu, não havia mais tempo. Ele viu que Beatriz ainda respirava tenuemente, com dificuldade, um abalo na estrutura de seus planos, e decidiu fazer o impensável.

Com a mão pesada, Gabriel arrancou um colar de seu pescoço. Era uma estrutura simples, um pequeno cânulo de cristal com um pergaminho no meio, entre duas tampas de metal vazado que se tocavam no centro. Ele estava pronto a quebrar as regras, redesenhar a linha intransponível entre a vida e a morte. Em sua mente ele conjurava energias primordiais que ele sabia não poder controlar, grandes demais mesmo para um magus competente como ele. Forças que ele herdara de seu pai, e que agora ele guardava consigo com zelo extremo, o projeto que continha o segredo para corrigir a falha que tanto o perturbava num edifício mais antigo que o arquiteto que o estudava, mais velho que o próprio tempo.

Ele se deitou sobre o corpo dela, que jazia ensanguentado a sua frente, segurou a mão direita fria da garota, encostou seus lábios com os dela, seus olhos com os dela, e com sua mão empurrou o cânulo para dentro da ferida aberta no peito dela. A Fonte da Vida era a única coisa que a poderia salvar, que poderia apagar do rapaz de olhos tristes a culpa de ter falhado mais uma vez, de permitir que aquela menina inocente chegasse perto o suficiente para ser ferida por sua sombra.

— Beatriz Sato! Me escuta! Eu não permito que você morra! — Ele se apertou contra ela, sua mão apertou seu peito ferido. — Atá hang’alê min Sheol nafshah! — Mas seu encanto declamado com a veemência de uma sentença, não foi ouvido pelo Universo. Ele insistiu mais uma, duas, três vezes, num tom de desafio, mas sua magia não era o suficiente para o que necessitava de um milagre.

A respiração parou, ele pôde senti-la ficando mais leve, e naquele momento ele voltou a ser só aquele garoto assustado que vira o corpo sem vida de seu pai na biblioteca. — Aba Ná! — Sua voz era lamúria de quem já desistira de tentar.

Um brilho intenso emanou do peito ferido de Beatriz Sato, ele podia sentir em sua mão, era quente, acolhedor, uma luz dourada que se refletia na copa amarela acima deles, e que era circundada por uma luz esmeralda que parecia um anel a seu redor. Gabriel abriu os olhos, observou a situação e suspirou com breve confusão. Aquele único instante se estendia no tempo, esticado, como se não quisesse acabar. Foi então que Gabriel percebeu que o impossível havia acontecido. O corpo dela se aqueceu por inteiro, ela podia sentir. Era um milagre.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Capítulo 3: A Dança do Cisne

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Bia desceu do ônibus no ponto seguinte ao lugar onde avistara Gabriel, o coração acelerado pela visão dele na chuva. A água da sarjeta que corria com força na rua da cidade invadiu seus sapatos no primeiro passo, mas aquela sensação pegajosa de meia molhada não a deteve. A ideia de segui-lo era absurda, beirando a obsessão, mas havia algo na forma como ele olhava para o horizonte que a impelia a alcançá-lo. Não era apenas a curiosidade de uma caloura apaixonada; era a sensação de que, se ela o perdesse de vista agora, ele simplesmente deixaria de existir.

Ela voltou pela calçada da avenida, tentando atravessar a densa floresta de guarda-chuvas alheios sem trombar com ninguém. Quando conseguiu divisar Gabriel do outro lado da rua, ele caminhava em uma cadência constante, as mãos nos bolsos do terno molhado, alheio ao caos do trânsito. Ele parecia estar em sua própria bolha de silêncio.

— G-Gabriel! — A voz parecia querer falhar. — Gabriel-senpai! Eu tenho um guarda-chuva! — Ela gritou com os olhos fechados, como quem não quer enxergar as próprias palavras, enquanto esperava o semáforo dos pedestres ficar verde para passar. Por um ínfimo instante ela sentiu que ele a havia reconhecido, que ele reduzira o passo. Ela abriu os olhos num sorriso de alegria, mas sua esperança durou pouco e ele apertou a marcha novamente.

“Me percebe, Gabriel-senpai… Suas pernas são muito compridas!” ela pensou frustrada, o rosto corando de constrangimento, correndo atrás de sua “paixonite” pelas ruas da cidade.

Bia o viu dobrar em uma rua lateral que descia em direção ao bairro. Era um trecho de casarões antigos e terrenos em processo de verticalização. Ela apertou o passo, o coração batendo no ritmo das gotas pesadas que atingiam o asfalto. Por ruas estreitas e pouco movimentadas, ele parecia desaparecer pelos cantos da visão de Bia, como o líquido que escorre por entre os dedos.

A água que despencava do céu e pelas fachadas dos edifícios formava poças espelhadas nas calçadas, que refletiam as janelas dos casarões, prédios, e empreendimentos imobiliários que desenhavam a paisagem urbana cinzenta. A menina apaixonada já estava com as roupas molhadas de suor e água de chuva, seu guarda-chuva de gatinhos mal lhe protegendo do aguaceiro que caía.

— O que você tá fazendo, Bia? — Ela sussurrou para si mesma, o rosto ardendo de vergonha, a respiração começando a ficar ofegante. — Na minha cabeça isso tudo parecia melhor!

Foi nesse momento que Gabriel parou e olhou para trás, seu olhar agudo de um verde esmeralda brilhante capturando os olhos castanhos dela à distância. Bia entrou em ebulição. Ela ficou paralisada, encantada pela visão de seu príncipe encantado. Ele pareceu falar alguma coisa para Bia à distância e partiu novamente em sua caminhada compulsiva, entrando numa esquina.

Bia sentia a força de suas pernas falhando, seus pés pareciam não querer sair do chão, como que dotados de vontade própria, mas agora ela tinha uma razão renovada para o seguir. O que ele havia murmurado para ela? A teimosia da menina parecia não ter limites, por baixo da camisa molhada e colada a seu peito seu coração batia como uma britadeira.

KamisamaOnegai! — Aquela prece curta traduzia o desejo do coração apaixonado da garota, e lhe deu forças para continuar quando ela achou que não poderia mais.

Ela não queria nem imaginar o que Mariana diria se soubesse a loucura que ela estava fazendo “Bia, pára de correr atrás dele e pensa direito, menina!” Ou pior, seus queridos avós. O que diria Dona Yukimi? “Beatriz, esse rapaz não é para você. Ele é um Hazan. Eles têm as tradições deles, têm o sangue deles. Nós temos os nossos.” No Japão dos seus antepassados ou na Israel dos dele, o muro entre eles era de pedra. Mas ali, na chuva de São Paulo, Bia sentia que se pudesse apenas tocá-lo, o muro cairia.

Ele parecia perturbado. Não como alguém fugindo de um assaltante, mas como alguém que sente um zumbido incômodo no ouvido. Todavia, agora ele já não parecia apagar seus rastros para que ela não o seguisse.

— Ai, ele deve achar que eu sou uma louca! — Bia resmungou, resignada com sua própria persistência.

Nesse instante, Gabriel enfim parou de perambular. Sem sequer reconhecer sua perseguidora, ele entrou em um canteiro de obras abandonado cercado por tapumes de metal enferrujado, onde uma árvore de ipê solitária, pintada de amarelo, saltava como em desafio à esterilidade do lugar. Bia se sentiu confusa, mas seu esforço se recusava a ficar sem uma resposta.

Uma miríade de imagens e uma torrente de narrativas passou em sua cabeça como num lampejo. “É apenas um prédio de escritórios da empresa dele.” ela supôs. “Mas e se ele quiser algo comigo? Aquele olhar…” ela confabulou num misto de pavor e apreensão. — Pára, Bia! — Ela falou alto, beliscando a bochecha esquerda como quem quer colocar a mente de volta no lugar.

Ela procurou e achou uma brecha entre duas chapas de ferro, convidando-a para entrar. Hesitante, fechou seu guarda-chuva e seguiu atrás do jovem misterioso, avançando sem fazer barulho, “Só uma espiadela não fará mal”, ela tentava se convencer, “E nesta chuvarada ele nem vai perceber.”

O lugar era um vácuo de lama e escombros entre dois prédios espelhados, salvo pelo ipê solitário no canto, cujas pétalas caídas se misturavam ao lodaçal. Lá dentro, o som da cidade morreu. Gabriel estava no centro de um círculo de terra batida. Escondida atrás de sacos de cimento largados ao lado do tronco maciço, Bia conseguia ver suas costas, eretas, quase agressivas, por dentro da camisa de seda, o paletó atirado ao chão como um peso inútil. Porém ele não estava mais sozinho.

Três homens, vestidos com sobretudos cinzentos de corte impecável e antigo, surgiram das sombras das escavadeiras. Eles não falavam. Não gesticulavam. Apenas existiam ali, em silêncio, com uma densidade que parecia dobrar a luz plúmbea abaixo das nuvens que se despejava sobre a metrópole.

— Vocês estão adiantados — disse Gabriel. Sua voz não tinha o tédio da biblioteca, mas estava afiada como uma navalha. — O manuscrito encontrado em Carras ainda não foi publicado, e não será devolvido até que não me seja mais necessário. Não é preciso, nem prudente, me cercarem em um terreno baldio. Agora, desapareçam daqui. — Havia um tom de ameaça sutil, como um predador que ameaça um desafiante a sua presa.

Um dos homens deu um passo à frente. O rosto dele era simétrico demais, quase artificial. Bia esticou a mão para seu smartphone, querendo ligar para a emergência, mas parou antes de tocar no aparelho, amedrontada e curiosa demais para conseguir fazer qualquer coisa. — A linhagem Hazan tem uma dívida conosco, que viemos cobrar, Arquiteto. Nos entregue agora o que Samuel roubou de nós.

Um calafrio que não vinha da água gelada correu a espinha de Bia e se espalhou por seu corpo até a ponta de seus dedos, eriçando também os cabelos de sua nuca. Seja lá o que fosse, aquilo, com certeza, não era uma briga de negócios. Ela decidiu recuar, fugir dali, mas ao se virar para escapar seu pé resvalou em uma barra de ferro solta. O metal tilintou contra o concreto, ecoando como um sino na calada funesta que cobria aquele terreno, e traiu sua localização.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, nem mesmo a água que caía do céu como lágrimas se pronunciava. Gabriel virou a cabeça. Quando uma vez mais seus olhos verdes esmeralda encontraram os dela, Bia viu naqueles olhos, que até aquele momento sempre guardaram silêncio, algo que a aterrorizou mais que os homens de cinza: aquele rapaz de porte altivo pela primeira vez demonstrou medo, não por si mesmo, mas por ela.

— Você… — Ele permaneceu ereto, como uma estátua de bronze envelhecido, esquecendo os homens por um instante. — O que você está fazendo aqui? Por que me seguiu? — A voz dele tinha uma urgência intimidadora.

— Gabriel-senpai, eu… Eu só achei que… — As palavras sumiram, afogadas em meio medo que subia por sua garganta.

Ele estava a dois metros dela. A chuva lavava seu rosto, e ele parecia notar pela primeira vez que sua admiradora era real, não apenas um vácuo no bloco da FAU. — Qual é o seu nome? — perguntou ele, a voz pressurosa, quase desesperada.

— B-Beatriz. Beatriz Sato. — Não era o momento romântico que ela rodara como um filme em sua cabeça todos aqueles meses.

— Escute bem, Beatriz! — Ele disse em tom de ordem, e por um momento ele pareceu querer segurar as mãos dela, mas se conteve e fechou os punhos se preparando para o que viria a seguir. — Você vai sair por aquele buraco. Você vai correr até a avenida e não vai parar por nada. Haverá um táxi parado na esquina, esperando por você. Não se preocupe em o pagar, mas você tem que sumir da minha vista agora! — Ao dizer isso ele se virou novamente e começou a murmurar alguma coisa, parecia entoar um poema antigo, e do que Bia conseguia captar não parecia ser português, inglês ou japonês.

— Mas e você? Esses homens… — Ela temia por Gabriel, não se apercebendo do perigo que se aproximava.

— Agora! — Ele rugiu como uma fera acuada, sem olhar para trás.

Mas era tarde. Um dos homens de cinza já aparecera entre eles e a saída. O movimento não tivera nenhuma aceleração; ele simplesmente estava lá, em um piscar de olhos.

— Uma testemunha civil. — Disse aquele homem, a voz sem emoção. — Um resíduo indesejado.

— Não toquem nela! — Gabriel gritou se virando de novo para Bia. Ele voltou a recitar uma série de sons que não eram português, nem inglês, nem japonês. Parecia o som de pedras se chocando no fundo de um poço. Dessa vez, Bia conseguiu compreender alguma coisa, ainda que não pudesse entender nada. — Hafsek, Kadish! Lô tirtzach!Gabriel desenhou no ar um triângulo sobreposto a outro com o indicador e, com um célere golpe da palma de sua mão, ele lançou aquela forma de luz verde esmeralda, girando até formar um disco, em direção a Bia.

Retomando sua atenção ao perigo imediato, Bia viu o homem de cinza erguer a mão, um movimento rápido, com a delicadeza de um cisne dançando, quebrando um círculo de luz esmeralda que se formara entre ela e seu agressor. No reflexo da chuva, a luz quebrada se multiplicou, iluminando algo na mão dele. Não era uma faca comum; era um estilete longo, fosco, que parecia absorver mais que refletir a luz daquele entardecer desbotado como borralha.

As fagulhas brilhavam num tom de verde fosforescente, como pequenas pedrinhas de brilhantes. Bia deu um passo desajeitado para trás, e pôde observar Gabriel movendo os lábios em câmera lenta, esticando as pernas como um artista marcial e erguendo as mãos num movimento brusco. As faíscas se transformaram em correntes que seguravam o homem perigoso à frente de Bia, ao mesmo tempo que Gabriel era atacado simultaneamente pelos outros dois. Mas o que mais chamou a atenção de Bia foi o braço do homem, que parecia se esticar sem parar por um segmento que fora dividido em infinitas partes, como se o próprio espaço o impedisse de atacar.

Com o coração tomado de pânico, ela tentou gritar, mas antes que pudesse o cordão da vida lhe foi cortado. O golpe foi rápido como um relâmpago coriscando os céus, o homem atravessando seu braço com uma eficiência sobrenatural para além das correntes luminosas. Mesmo assim, para Bia, tudo parecia lento, quase parando. A navalha de aço embotado atravessou o tecido da sua jaqueta jeans, passando por sua camisa molhada e por sua lingerie como uma faca quente passando por manteiga, perfurando por entre as costelas e atingindo em cheio seu coração atrás do peito. O frio foi a primeira coisa que ela sentiu. Um frio tão ardente que queimava mais que o fogo.

— Beatriz! — O grito de Gabriel pareceu vir de outra dimensão.

Ela caiu com um baque molhado, o guarda-chuva de gatinhos para um lado e seu já ensopado material de faculdade para o outro; a fita do cabelo se desfez e perdeu-se no marrom do chão. A lama fria da cidade misturada com as flores amarelas da bela árvore que a cobria acolheu seu corpo, se tornando quente com o sangue que rapidamente se esvaia de seu corpo. Gabriel se livrou de seus oponentes com selvageria e se jogou ao lado dela com um salto longo e uma cambalhota ágil, ignorando o homem a frente dela que, solto de sua prisão, caiu no chão na ponta de seus pés como um gato.

Gabriel a puxou para o colo, a mão com força segurando seu peito, tentando estancar um fluxo que não podia ser parado. O sangue vermelho vivo manchava a camisa de seda negra, tornando o tecido pesado e quente.

— Beatriz, olha para mim! Não fecha os olhos! — Ele falava com aquele mesmo tom de ordem de antes, observando seus adversários com a cólera de um animal arisco acuado, puxando o rosto dela até a altura de seu pescoço. — Beatriz! Boi! Kumi! Boi! Kumi! — Ele repetia as palavras como um mantra, uma ordem ao universo que esse se recusava a obedecer.

Bia tentou dizer o nome dele uma última vez. Queria dizer que o paletó dele estava sujo de lama, que mais cedo o livro de Estética foi só para chamar a atenção dele, que ela adorava como ele era gentil com ela apesar de seu jeito desapegado, que ele ficava lindo debaixo das pétalas amarelas das flores do ipê, e que ela queria ajudar ele com aquela tristeza que ela sempre via em seus olhos. Mas sua garganta se encheu de um gosto doce e enjoativo, que logo escorreu por seus lábios. Ela viu os olhos esmeralda de Gabriel se tornarem a última luz de um mundo que se apagava para ela, e sorriu ternamente para ele; se era para terminar assim por ter desvelado um mistério que não era de sua alçada, podia ser desse jeito.

Ele a apertou contra o peito, gritando algo que não era para os homens de cinza que observavam, impassíveis, mas um desafio furioso para os Céus, inconformado com o destino interrompido de uma menina que só queria compartilhar o guarda-chuva e caminhar com seu amado segurando com força em seu braço.

E então, para Beatriz Sato, o tempo parou.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Capítulo 2: O Peso do Legado

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O silêncio na cobertura da Família Hazan não era vazio; era denso, como se as paredes de carvalho e as estantes carregadas de manuscritos raros guardassem o fôlego de quem não estava mais lá. Gabriel acordou antes do sol, como fazia todos os dias desde os oito anos de idade. O primeiro sentimento, antes mesmo da consciência, era a culpa. Uma pressão invisível no peito, o eco de um grito que ele nunca conseguiu esquecer, o cheiro de flores de macieira que impregnara sua memória na noite em que toda a família que um dia conhecera fora varrida do mapa.

Ele sentou-se na borda da cama, os pés tocando o mármore frio. Lavou as mãos e o rosto em uma bacia posta sobre o criado-mudo. Olhou para o lado, para o espaço que deveria pertencer a um irmão que nunca cresceu, e sentiu aquele frio familiar. Ele era o sobrevivente. O erro de cálculo do destino.

— O chá está na temperatura correta, Sr. Hazan. E as notícias internacionais não são as melhores.

Joakim “Aki” Virtanen estava parado junto à janela, observando a névoa madrugueira de São Paulo no outono. Sua presença era a única constante na vida de Gabriel, uma figura paterna substituta eficiente, dura, gélida, às vezes dolorosa como uma queimadura de gelo, ainda que nunca cruel. O finlandês não era apenas um mordomo; era o guardião dos segredos de seu pai e de seu avô antes dele, e o arquivista de um império editorial que agora repousava sobre os ombros de um rapaz de apenas vinte e um anos.

— O que os jornais dizem, Aki? — Gabriel perguntou, levantando-se.

— Instabilidade na fronteira austro-suíça. Um grupo de investimento ligado ao setor bancário está comprando propriedades rurais e isolando o acesso a colégios internos. Estão chamando de "reestruturação de segurança". E a transferência de direitos de publicação entre as editoras europeias foi bloqueada por um conselho de ética que ninguém sabia que existia até ontem.

Gabriel caminhou até o closet. O armário era uma visão de ordem absoluta: fileiras e fileiras de ternos pretos de alfaiataria de alta-costura italiana com camisas negras de seda, idênticas, perfeitamente alinhadas. Ele escolheu uma, vestiu, calçou suas meias e sapatos — pé direito primeiro, mas amarrando primeiro o pé esquerdo — e abotoou os punhos. Para quem o visse, ele era apenas um jovem rico e excêntrico com uma obsessão monocromática e um gosto excessivo por formalidade. Para si mesmo, ele estava apenas vestindo o uniforme de um luto que não tinha data para terminar.

— Bloqueios geopolíticos e especulação imobiliária — Gabriel murmurou, ajustando as abotoaduras. — O mundo está ficando menor, Aki. E mais barulhento.


O trajeto para a faculdade foi feito no banco de trás do Mercedes. Jorge Valente, o chofer, mantinha um silêncio respeitoso, ele havia aprendido a não se dirigir ao jovem mestre exceto no que estritamente necessário. Gabriel olhava pela janela, para a massa humana que se espremia nos pontos de ônibus da Vila Olímpia, para a selva de concreto, mal percebendo um pé de ipê amarelo onde uma gralha-do-campo de asas azuis pousara, uma ilustração colorida que destoava daquela composição disforme.

Ele sentia um distanciamento quase clínico, como um médico emergencista calejado por seu trabalho. Olhava para as pessoas e as via transformadas em cascas, engrenagens de um sistema que parecia girar no vazio impessoal, um mundo desprovido de calor ou telos. O olhar de Gabriel era sério, silencioso, como se escondesse algo que nem ele sabia ter escondido. Em seu coração ele desejava encontrar um sentido para tudo isso.

As aulas da manhã foram tediosas, como se tornara hábito. Ele devorara o conteúdo programático do curso inteiro antes de começar o segundo ano, incluindo as matérias facultativas, fora seus muitos estudos anteriores sobre o assunto. Mesmo assim ele insistia na Arquitetura, seu estudo o fazia se sentir estranhamente em casa, e seus projetos eram estranhamente catárticos, um ritual de normalidade num mundo anormal.

No almoço era seu hábito comer algo trazido por um de seus empregados, sozinho e com a presteza de alguém que não tem tempo a perder. Em seguida se retirava para seus estudos reclusos numa das bibliotecas do campus, como ele fazia quase todos os dias. Ele nunca gostara de dividir espaço com outras pessoas, exceto seu fiel mordomo Aki; sentia-se deslocado, como se ninguém pudesse o entender, ou talvez ele não pudesse entender ninguém.


Na biblioteca da universidade, ele era uma ilha de silêncio. Sentado ao fundo, abriu um volume de Jâmblico em latim, mergulhando em discussões sobre a emanação da Mônada e a natureza da alma. Em seu âmago ele não buscava sabedoria; buscava uma estrutura lógica para o caos que sentia dentro de si. Ele se via como um arquiteto tentando reconstruir um templo em ruínas sem ter a planta original.

Uma sombra cruzou sua mesa. Ele sabia que era alguém querendo algo, ou quem sabe querendo alguém. Levantou os olhos para saber quem estava à sua frente, e viu uma sorridente menina de delicados traços orientais — uma caloura que ele já havia encontrado na mesma biblioteca, no começo do semestre — que se aproximou com uma pasta de desenhos.

— Oi, Gabriel! — ela disse, com aquela voz carregada de uma admiração que ele achava irritante, inadequada. — Tudo bem? Me ajuda a procurar o livro… O-o… Complexidade e Contradição na Arquitetura, por favor? Não consigo achar em lugar nenhum!

Ele lançou o olhar para ela, os olhos verdes dele eram como vidro: refletiam a luz, mas não revelavam nada do que estava por trás. “Como é o nome dela agora?”

— É para a aula de Estética. Não é muito avançado? — Ele devolveu a questão com um tom de cortesia mecânica.

— E esses livros? São de alguma eletiva? Ou do seu outro curso? Filosofia, né?

— Não. Apenas buscando comentários para melhor compreender a ontologia da alma.

— Nossa, que legal! — Aquela admiração o perturbava, parecia imerecida. — Você é muito “cabeça” né? Um dia o senpai poderia me dar uma aula deles! — Ele não seria um bom professor, ele sempre tivera dificuldade em lidar com pessoas. Ele sequer tinha tempo para dar aulas. Mesmo assim, ele tirou um tempo para atender a garota de olhos ternos e bochechas vermelhas que lhe solicitava atenção, se dirigindo ao lado dela até a biblioteca da FAU em silêncio.

Foi quando se encaminhavam para a estante com o livro solicitado que uma outra caloura, de cabelos de fogo e olhos decididos, chamou a atenção da jovem a seu lado. — Bia, vem! Eu já achei os livros que precisamos. — Literatura sobre a escola Bauhaus estava espalhada sobre a mesa onde um grupo de estudantes se sentava, junto de notebooks, cadernos e canetas.

Gabriel levantou a sobrancelha, ele entendeu a artimanha da garota, e por um breve momento não pôde conter sua surpresa. — Bauhaus? Achei que fosse…

Ele sempre fora muito bom em afastar as pessoas. Mesmo os professores tinham certo temor reverencial dele, e aquela menina conseguira fazê-lo de tolo. Ela era mais corajosa do que parecia.

— D-desculpa, Gabriel-senpai! Eu confundi! Muito obrigado por ter vindo mesmo assim! — Ela parecia ferver quando se curvou virada em direção a ele, e em seguida foi se sentar com seu grupo.

— Tudo bem! Não foi incômodo algum, bons estudos para vocês. — Não importava. Ele precisava retornar a seus estudos. Naquele mesmo instante sua mente vagou por abismos vastos e misteriosos, como se contemplasse uma solução há muito perdida para os problemas do universo.


Naquela noite ele não teria aula de História da Filosofia Medieval, seu professor havia adoecido e passou um trabalho. Ele já havia informado seu chofer, que o aguardava no estacionamento.

No meio do caminho, um desconforto súbito o atingiu, uma intuição penetrante. Um carro preto vinha mantendo a mesma distância há três quarteirões. Ele não gostava de ser seguido, fosse por jornalistas ou por rivais de negócios.

— Senhor Valente, pare o carro aqui. Tire o resto do dia de folga. Vá para casa.

O motorista rechonchudo hesitou, olhando pelo retrovisor para o céu que escurecia rapidamente e preocupado com o bem-estar de seu jovem mestre mais do que a experiência lhe havia ensinado a ser. — Mas ainda estamos longe do prédio, Sr. Hazan. E a previsão é de uma tempestade severa…

— Eu gosto de andar na chuva, Jorge. Ajuda a pensar. E eu preciso pensar sem ninguém me olhando pelo espelho.

— O senhor vai estragar sua camisa, é seda…

— Vá agora, Sr. Valente. É uma ordem. Aproveite sua família, enquanto o dia ainda permite.

O tom de Gabriel era frio, mas havia uma urgência em sua voz que o motorista conhecia bem. O carro partiu, e Gabriel ficou parado na calçada. Ele não se importava com a chuva que começava a pingar; ele sentia que as ruas falavam mais com ele do que as salas de reunião, com suas curvas e quebras, suas faixas e cores.

Foi rápido para a tormenta enfim desabar. Gabriel andava na avenida como quem sabe exatamente o que está procurando, e não era uma marquise para se proteger. A água encharcava sua camisa de seda por baixo do paletó, mas ele não se moveu. Ele observava um dos prédios de sua família, o antigo e imponente centro administrativo da Hazan Publishing House.

Um ônibus passou ruidoso ao seu lado, espalhando água da sarjeta. Ele percebeu, através do vidro embaçado da porta traseira do coletivo, um rosto conhecido. Era a menina que o movera de seu lugar na biblioteca mais cedo. Ela o olhava com uma expressão de preocupação e doçura quase cômica.

Por um breve instante, Gabriel permaneceu imóvel. Para ele, ela era apenas mais uma no meio de milhões, mais uma figura trágica entre tantas outras num mundo cinzento e sem sentido. Ele não sentia conexão, não sentia nada — não mais que um comentário numa nota de rodapé — registrado pela insistência daquela garota, que acabara por gravá-la em sua mente. Mas o que ele não conseguia esquecer era o peso de estar ali, vivo, em busca de um propósito que ele temia nunca encontrar.

Todo esse movimento, toda essa pressa... Para nada., pensou ele, enquanto o ônibus desaparecia na cortina de gotas da chuvarada. “Eu preciso encontrar uma saída. Eu preciso consertar o que foi quebrado, mesmo que eu não saiba por onde começar. O peso do legado Hazan o impelia.

Ele apertou os punhos sob o aguaceiro e voltou a se locomover com renovado zelo sobre as poças que se acumulavam. A mente calculando o próximo movimento em seus negócios, tão importantes nesse momento, tentando se manter alheio àquela menina teimosa que vinha ao encontro dele, e deixá-la para trás.

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Capítulo 1: Horizonte de Vidro

 


Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

 

A manhã na zona leste de São Paulo sempre começava com o som do rádio de pilha na cozinha e o cheiro de café coado com açúcar. Para Beatriz Sato, ou apenas Bia para os íntimos, aquele era o som da segurança. Aos 17 anos, recém-ingressa no primeiro período de Arquitetura, ela ainda sentia o frio na barriga de quem acabara de deixar o uniforme de colegial para trás.

— Não esquece o guarda-chuva, Bia-chan! O rádio disse que o tempo vira hoje. — avisou a avó, Dona Yukimi, com toda a preocupação de uma mãe pela sua única filha, enquanto organizava os potes de obentô ainda quentinhos na mesa da pequena sala.

A menina deu um beijo rápido na bochecha da avó e do avô, Seu Seitoku, que lia silenciosamente a edição do dia da Folha de S. Paulo sentado em sua poltrona de vime com sua xícara de café quente na mesinha ao lado. Diferente da avó, ele era de poucas palavras, mas o sorriso de aprovação dele já dizia tudo.

Ela foi até a porta segurando uma fita com a boca, colocou uma jaqueta jeans já batida sobre sua camisa branca de listras vermelhas pastéis, verificou o zíper de sua saia de pregas xadrez, calçou e amarrou o converse All Star surrado, e prendeu o cabelo com a fita num grande laço.

Em seguida, amarrou o omamori En Musubi no zíper da mochila com o cuidado de quem desenha uma pintura impressionista dos prédios à noite, pegou seu material, e o guarda-chuva de gatinhos, pronta para sair correndo do aconchego da casa de seus avós para o ritmo frenético da maior cidade do Brasil.

— Tchau, obachan! Tchau, ojiichan! Tô atrasada! Itekimasu! Amo vocês! — Ela arrumou o cabelo preto e liso, que escorria sobre seu rosto ao mesmo tempo que fechava a porta. O pé de ipê amarelo que fronteava a casa estava coberto de flores, derramando um tapete amarelo para ela caminhar. “Hoje vai ser um grande dia!” ela pensou consigo mesma.

A jornada até o campus era um ritual de sobrevivência para a menina nipo-brasileira que mal tinha virado moça. Primeiro, o ônibus de bairro, barulhento e sacolejante, até o metrô. Depois, a Linha Vermelha lotada, onde ela se espremia entre executivos de terno. Por fim a Linha Amarela, cheia de estudantes viajando até a Cidade Universitária no Butantã.

Em seu longo itinerário diário até a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, ela protegia sua pasta de desenhos como se fosse um tesouro nacional e passava o tempo sonhando acordada. Enquanto a maioria das garotas de sua idade falava sobre as festas da faculdade, Bia perdia o fôlego pensando em um certo veterano de seu curso e de Filosofia.


A faculdade era um universo novo, e Gabriel Hazan era o seu centro gravitacional.

Ela o conhecera por acaso na Biblioteca Brasiliana Mindlin, quando explorava seu novo ambiente na primeira semana de aula. Ele estava sentado no fundo, numa mesa isolada pela penumbra. Naquela época, Bia achava que ele era apenas um monitor ou talvez um professor jovem e excêntrico.

Ele era alto e magro, quase etéreo, e sempre vestia preto — um terno bem cortado de alfaiataria, uma camisa de seda igualmente negra, mas sem uma gravata, e sapatos de couro bem engraxados, como se houvesse acabado de sair duma cerimônia importante e não tivesse tido tempo de trocar de roupa. A pele dele era tão pálida que parecia brilhar sob as luzes fluorescentes, contrastando com os lábios e bochechas naturalmente avermelhados e o cabelo negro, ondulado, um pouco comprido e partido ao meio de um jeito que parecia ao mesmo tempo desleixado e elegante.

Naquele dia Bia puxara assunto usando uma desculpa boba sobre a localização de um livro e, repetindo o mesmo vestuário daquele dia, decidiu que era hora de tentar mais uma vez.

— Para onde você vai, amiga!? A biblioteca da FAU é por aqui! — Bia mal conseguia prestar atenção em sua melhor amiga, Mariana Otero, um ano mais velha, que ela conhecera no ensino médio, e com quem fizera cursinho em seu terceirão. Era uma ruiva alta de lindos cabelos cacheados e um corpo de dar inveja a qualquer garota. — Eu tenho que encontrar uma coisa lá. Eu já volto! — Bia se justificou, escondendo seu verdadeiro propósito.

Ela correu até a BBM, que mais parecia um castelo de concreto, seu coração parecia querer sair do peito, e não pela corrida. Ela entrou com passos determinados e rastreou o lugar por quem ela buscava. Lá estava ele, isolado num canto, a pilha de livros à sua frente incapaz de o esconder.

Bia respirou fundo, acariciou o omamori até se acalmar, e se aproximou, com firmeza. — Oi Gabriel! Tudo bem? Me ajuda a procurar o livro… — Ela gelou por um momento, tentando lembrar algum título difícil dos períodos mais avançados, algo que combinasse com o rapaz à sua frente. — O-o… Complexidade e Contradição na Arquitetura, por favor? Não consigo achar em lugar nenhum!

— É pra aula de Estética. Não é muito avançado? — perguntou ele, num barítono sussurrado, levemente rouco, levantando os olhos verdes, profundos e carregados de uma melancolia que Bia não sabia explicar. Erguendo-se da cadeira para ajudá-la na sua busca, ele fechou o livro que lia com calma, juntando-o a outro que parecia haver recém-terminado. Na capa, nomes que ela mal conhecia: Les Sources de Plotin, Avicenne, De l’âme, e Iamblichus, De Mysteriis Aegyptiorum.

— E esses livros? São de alguma eletiva? Ou do seu outro curso? Filosofia, né?

— Não. Apenas buscando comentários para melhor compreender a ontologia da alma. — Ele respondeu. A voz dele era firme, baixa, mas sem qualquer traço de arrogância.

— Nossa, que legal! — Bia respondeu com a animação de uma criança que admira o que não entende, maravilhada por ele ler esse tipo de livros por prazer. — Você é muito “cabeça” né? Um dia o senpai poderia me dar uma aula deles! — Ela tentara um elogio desastrado, querendo quebrar o gelo. Gabriel apenas acenou com a cabeça, sem se importar, enquanto a guiava no caminho até a biblioteca da FAU, na seção do livro que ela dissera precisar.

Ele não parecia se importar com elogios ou com o fato de ser o herdeiro do império Hazan Publishing. Essa distância, esse desapego de aprovação, junto de sua disposição desprendida, era o que o tornara irresistível. Para Bia, ele era um herói de romance literário perdido no século XXI, um príncipe judeu exótico duma cidade distante e misteriosa, uma primeira impressão que a marcou de verdade.


Ao chegar na biblioteca de Arquitetura e Urbanismo, Mariana parecia já a esperar com um olhar gelado, sentada com alguns outros alunos da sala. — Bia, vem! Eu já achei os livros que precisamos. — A última frase soava como uma declaração de guerra velada dirigida a Gabriel, de quem Mariana claramente desconfiava.

— Oi Mariana! Ah… Claro… — A delicada adolescente oriental, uma menina-moça crescida, parecia subitamente diminuída frente à espontaneidade de sua amiga, seu plano foi descoberto.

— Bauhaus? — Gabriel levantou a sobrancelha. — Achei que fosse…

Antes dele terminar sua frase, Bia se virou para ele e se curvou, o rosto vermelho como um ferro em brasa. — D-desculpa, Gabriel-senpai! Eu confundi! Muito obrigado por ter vindo mesmo assim! — Com os lábios cerrados, ela se virou e correu para a mesa onde a amiga estava, como uma moleca arteira retornando para se explicar a uma irmã mais velha.

— Tudo bem! Não foi incômodo algum, bons estudos para vocês. — Ele se virou para sair, imperturbável como sempre. Bia observava de soslaio as costas largas do rapaz. Foi apenas quando sua figura sumiu que ela percebeu o olhar recriminador da amiga, ao qual ela respondeu com uma risada sem graça.


Ao fim da tarde, a previsão da avó se confirmou como uma profecia. O céu cinzento de São Paulo desabou numa chuva torrencial.

Bia estava na saída da universidade, teria uma entrevista de estágio antes do sol se pôr e, quando viu o ônibus da linha Cidade Universitária / Praça da Sé se aproximar. A chuva era tão forte que a rua parecia um borrão cinzento. Ela correu, sentindo a água gelada encharcar seus pés, e conseguiu entrar no veículo no último segundo.

O ônibus estava entupido. Bia ficou espremida perto da porta traseira, segurando-se no cano de metal gorduroso. A viagem seria longa. A seu lado, Felipe Sugimoto Cavalcante, um colega de sala que ela conhecera nos tempos do cursinho e que agora falava pelos cotovelos, tentando chamar sua atenção.

— Bia! Você viu o que o professor falou sobre a Bauhaus? — Felipe gritava por cima do barulho do motor.

— Vi, Felipe… Legal, né? — Ela respondeu, tentando ser educada, mas seus olhos estavam fixos na janela embaçada, sua atenção capturada por uma figura escura na rua.

Conforme o ônibus avançava lentamente pelo trânsito parado, Bia limpou um pequeno círculo no vidro com a manga do moletom. Foi quando o coração dela deu um solavanco.

Lá estava ele.

Gabriel andava com uma firmeza e resolução invulgares na calçada do outro lado da janela do transporte, sob a tempestade e sem qualquer proteção. A água escorria pelo seu cabelo e se derramava sobre seu rosto, e o traje tão formal que ele sempre vestia como um uniforme parecia ainda mais pesado molhado daquele jeito, mas isso não o incomodava. Ele caminhava como se imbuído de um propósito misterioso, com uma intensidade que beirava a obsessão. Por um segundo, o ônibus parou no semáforo bem em frente a ele.

Bia ficou sem fôlego. Daquela distância, a expressão de Gabriel não era de alguém buscando a proteção de uma marquise ou procurando um transporte para fora dali. Era como se ele estudasse o desenho da cidade, desenhando diagramas invisíveis na cidade emoldurada pela chuva, rascunhando croquis com olhares rápidos e atentos aos detalhes. Seu olhar tomado por aquela melancolia terrível e aquela sobriedade absoluta que Bia havia aprendido a achar tão atraente. Ele não parecia um jovem de 21 anos; parecia alguém que já tinha vivido seis mil anos e estava cansado de todos eles.

"Ele é tão lindo...", pensou ela, com a testa encostada no frio horizonte de vidro, suas bochechas corando enquanto o ônibus voltava a se mover. "Tão profundo. O que será que ele está procurando?" Ela suspirou tão alto que Felipe se espantou.

— Preciso descer aqui! — Bia falou em sobressalto, a voz esganiçando, ao perceber que o ônibus estava prestes a chegar ao próximo ponto sem uma parada solicitada.

— Bia, você ainda vai fazer integração lá na Sé. Do que que tá falando? — Felipe protestou.

Entre os sons da cidade filtrados pela carroceria do ônibus, os próprios barulhos do veículo, e os batuques de seu coração, ela não conseguiu ouvir o colega e apertou com ansiedade o botão da campainha de parada. “O que você tá fazendo, Bia!?” Ela não podia ouvir os próprios pensamentos.

Ela quase caiu da escada ao sair, abriu seu guarda-chuva de gatinhos e saiu correndo para encontrar seu príncipe dos livros. Diante de seus olhos, se desenhava um momento que ela guardaria para sempre. Mal sabia ela que a resposta para a pergunta de seus pensamentos mudaria como ela o enxergava, e a si mesma.

Bodas Químicas de Zoé Phrónimes

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

 

Bodas Químicas de Zoé Phrónimes começa sob o céu de cinzas de São Paulo, entre cafés coados, ônibus lotados, bibliotecas universitárias, e a delicadeza dos pequenos rituais domésticos.

Beatriz Sato, caloura de Arquitetura, vive entre a doçura dos avós, os sonhos de juventude e a fascinação cada vez mais intensa por Gabriel Hazan, um veterano tão brilhante quanto inacessível, cuja presença parece deslocada do mundo ao redor.

À primeira vista, a história tem o sabor de um Bildungsroman: uma menina sensível, obstinada e apaixonada; um rapaz cercado de silêncio, luto e estranheza; uma cidade de concreto, chuva e janelas embaçadas servindo de cenário para encontros, mal-entendidos e presságios.

Mas, desde cedo, há algo fora do lugar. Nos gestos de Gabriel, em seu peso interior, na forma como observa a cidade e parece ouvir nela alguma coisa que os outros não ouvem, percebe-se que sua vida é movida por forças mais profundas do que a rotina universitária deixa ver.

Sem abandonar a ternura, a novela constrói uma atmosfera de mistério crescente, em que o amor juvenil, a culpa, o legado e o desejo de consertar aquilo que foi quebrado começam a se entrelaçar.

O que se anuncia nos capítulos iniciais não é apenas uma paixão difícil, mas a abertura de uma fresta: entre o cotidiano e o inefável, entre o humano e o terrível, entre aquilo que se pode tocar e aquilo que só se percebe tarde demais.

Com linguagem imagética, forte senso de atmosfera e um coração ao mesmo tempo romântico e trágico, Bodas Químicas de Zoé Phrónimes convida o leitor a entrar devagar num mundo em que beleza, perda e mistério caminham lado a lado; e em que um simples gesto, como oferecer um guarda-chuva a alguém na chuva, pode tocar coisas muito maiores do que parecia possível. 

Capítulo 8: Perpendiculares