| Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda) |
O silêncio na cobertura da Família Hazan não era vazio; era denso, como se as paredes de carvalho e as estantes carregadas de manuscritos raros guardassem o fôlego de quem não estava mais lá. Gabriel acordou antes do sol, como fazia todos os dias desde os oito anos de idade. O primeiro sentimento, antes mesmo da consciência, era a culpa. Uma pressão invisível no peito, o eco de um grito que ele nunca conseguiu esquecer, o cheiro de flores de macieira que impregnara sua memória na noite em que toda a família que um dia conhecera fora varrida do mapa.
Ele sentou-se na borda da cama, os pés tocando o mármore frio. Lavou as mãos e o rosto em uma bacia posta sobre o criado-mudo. Olhou para o lado, para o espaço que deveria pertencer a um irmão que nunca cresceu, e sentiu aquele frio familiar. Ele era o sobrevivente. O erro de cálculo do destino.
— O chá está na temperatura correta, Sr. Hazan. E as notícias internacionais não são as melhores.
Joakim “Aki” Virtanen estava parado junto à janela, observando a névoa madrugueira de São Paulo no outono. Sua presença era a única constante na vida de Gabriel, uma figura paterna substituta eficiente, dura, gélida, às vezes dolorosa como uma queimadura de gelo, ainda que nunca cruel. O finlandês não era apenas um mordomo; era o guardião dos segredos de seu pai e de seu avô antes dele, e o arquivista de um império editorial que agora repousava sobre os ombros de um rapaz de apenas vinte e um anos.
— O que os jornais dizem, Aki? — Gabriel perguntou, levantando-se.
— Instabilidade na fronteira austro-suíça. Um grupo de investimento ligado ao setor bancário está comprando propriedades rurais e isolando o acesso a colégios internos. Estão chamando de "reestruturação de segurança". E a transferência de direitos de publicação entre as editoras europeias foi bloqueada por um conselho de ética que ninguém sabia que existia até ontem.
Gabriel caminhou até o closet. O armário era uma visão de ordem absoluta: fileiras e fileiras de ternos pretos de alfaiataria de alta-costura italiana com camisas negras de seda, idênticas, perfeitamente alinhadas. Ele escolheu uma, vestiu, calçou suas meias e sapatos — pé direito primeiro, mas amarrando primeiro o pé esquerdo — e abotoou os punhos. Para quem o visse, ele era apenas um jovem rico e excêntrico com uma obsessão monocromática e um gosto excessivo por formalidade. Para si mesmo, ele estava apenas vestindo o uniforme de um luto que não tinha data para terminar.
— Bloqueios geopolíticos e especulação imobiliária — Gabriel murmurou, ajustando as abotoaduras. — O mundo está ficando menor, Aki. E mais barulhento.
O trajeto para a faculdade foi feito no banco de trás do Mercedes. Jorge Valente, o chofer, mantinha um silêncio respeitoso, ele havia aprendido a não se dirigir ao jovem mestre exceto no que estritamente necessário. Gabriel olhava pela janela, para a massa humana que se espremia nos pontos de ônibus da Vila Olímpia, para a selva de concreto, mal percebendo um pé de ipê amarelo onde uma gralha-do-campo de asas azuis pousara, uma ilustração colorida que destoava daquela composição disforme.
Ele sentia um distanciamento quase clínico, como um médico emergencista calejado por seu trabalho. Olhava para as pessoas e as via transformadas em cascas, engrenagens de um sistema que parecia girar no vazio impessoal, um mundo desprovido de calor ou telos. O olhar de Gabriel era sério, silencioso, como se escondesse algo que nem ele sabia ter escondido. Em seu coração ele desejava encontrar um sentido para tudo isso.
As aulas da manhã foram tediosas, como se tornara hábito. Ele devorara o conteúdo programático do curso inteiro antes de começar o segundo ano, incluindo as matérias facultativas, fora seus muitos estudos anteriores sobre o assunto. Mesmo assim ele insistia na Arquitetura, seu estudo o fazia se sentir estranhamente em casa, e seus projetos eram estranhamente catárticos, um ritual de normalidade num mundo anormal.
No almoço era seu hábito comer algo trazido por um de seus empregados, sozinho e com a presteza de alguém que não tem tempo a perder. Em seguida se retirava para seus estudos reclusos numa das bibliotecas do campus, como ele fazia quase todos os dias. Ele nunca gostara de dividir espaço com outras pessoas, exceto seu fiel mordomo Aki; sentia-se deslocado, como se ninguém pudesse o entender, ou talvez ele não pudesse entender ninguém.
Na biblioteca da universidade, ele era uma ilha de silêncio. Sentado ao fundo, abriu um volume de Jâmblico em latim, mergulhando em discussões sobre a emanação da Mônada e a natureza da alma. Em seu âmago ele não buscava sabedoria; buscava uma estrutura lógica para o caos que sentia dentro de si. Ele se via como um arquiteto tentando reconstruir um templo em ruínas sem ter a planta original.
Uma sombra cruzou sua mesa. Ele sabia que era alguém querendo algo, ou quem sabe querendo alguém. Levantou os olhos para saber quem estava à sua frente, e viu uma sorridente menina de delicados traços orientais — uma caloura que ele já havia encontrado na mesma biblioteca, no começo do semestre — que se aproximou com uma pasta de desenhos.
— Oi, Gabriel! — ela disse, com aquela voz carregada de uma admiração que ele achava irritante, inadequada. — Tudo bem? Me ajuda a procurar o livro… O-o… Complexidade e Contradição na Arquitetura, por favor? Não consigo achar em lugar nenhum!
Ele lançou o olhar para ela, os olhos verdes dele eram como vidro: refletiam a luz, mas não revelavam nada do que estava por trás. “Como é o nome dela agora?”
— É para a aula de Estética. Não é muito avançado? — Ele devolveu a questão com um tom de cortesia mecânica.
— E esses livros? São de alguma eletiva? Ou do seu outro curso? Filosofia, né?
— Não. Apenas buscando comentários para melhor compreender a ontologia da alma.
— Nossa, que legal! — Aquela admiração o perturbava, parecia imerecida. — Você é muito “cabeça” né? Um dia o senpai poderia me dar uma aula deles! — Ele não seria um bom professor, ele sempre tivera dificuldade em lidar com pessoas. Ele sequer tinha tempo para dar aulas. Mesmo assim, ele tirou um tempo para atender a garota de olhos ternos e bochechas vermelhas que lhe solicitava atenção, se dirigindo ao lado dela até a biblioteca da FAU em silêncio.
Foi quando se encaminhavam para a estante com o livro solicitado que uma outra caloura, de cabelos de fogo e olhos decididos, chamou a atenção da jovem a seu lado. — Bia, vem! Eu já achei os livros que precisamos. — Literatura sobre a escola Bauhaus estava espalhada sobre a mesa onde um grupo de estudantes se sentava, junto de notebooks, cadernos e canetas.
Gabriel levantou a sobrancelha, ele entendeu a artimanha da garota, e por um breve momento não pôde conter sua surpresa. — Bauhaus? Achei que fosse…
Ele sempre fora muito bom em afastar as pessoas. Mesmo os professores tinham certo temor reverencial dele, e aquela menina conseguira fazê-lo de tolo. Ela era mais corajosa do que parecia.
— D-desculpa, Gabriel-senpai! Eu confundi! Muito obrigado por ter vindo mesmo assim! — Ela parecia ferver quando se curvou virada em direção a ele, e em seguida foi se sentar com seu grupo.
— Tudo bem! Não foi incômodo algum, bons estudos para vocês. — Não importava. Ele precisava retornar a seus estudos. Naquele mesmo instante sua mente vagou por abismos vastos e misteriosos, como se contemplasse uma solução há muito perdida para os problemas do universo.
Naquela noite ele não teria aula de História da Filosofia Medieval, seu professor havia adoecido e passou um trabalho. Ele já havia informado seu chofer, que o aguardava no estacionamento.
No meio do caminho, um desconforto súbito o atingiu, uma intuição penetrante. Um carro preto vinha mantendo a mesma distância há três quarteirões. Ele não gostava de ser seguido, fosse por jornalistas ou por rivais de negócios.
— Senhor Valente, pare o carro aqui. Tire o resto do dia de folga. Vá para casa.
O motorista rechonchudo hesitou, olhando pelo retrovisor para o céu que escurecia rapidamente e preocupado com o bem-estar de seu jovem mestre mais do que a experiência lhe havia ensinado a ser. — Mas ainda estamos longe do prédio, Sr. Hazan. E a previsão é de uma tempestade severa…
— Eu gosto de andar na chuva, Jorge. Ajuda a pensar. E eu preciso pensar sem ninguém me olhando pelo espelho.
— O senhor vai estragar sua camisa, é seda…
— Vá agora, Sr. Valente. É uma ordem. Aproveite sua família, enquanto o dia ainda permite.
O tom de Gabriel era frio, mas havia uma urgência em sua voz que o motorista conhecia bem. O carro partiu, e Gabriel ficou parado na calçada. Ele não se importava com a chuva que começava a pingar; ele sentia que as ruas falavam mais com ele do que as salas de reunião, com suas curvas e quebras, suas faixas e cores.
Foi rápido para a tormenta enfim desabar. Gabriel andava na avenida como quem sabe exatamente o que está procurando, e não era uma marquise para se proteger. A água encharcava sua camisa de seda por baixo do paletó, mas ele não se moveu. Ele observava um dos prédios de sua família, o antigo e imponente centro administrativo da Hazan Publishing House.
Um ônibus passou ruidoso ao seu lado, espalhando água da sarjeta. Ele percebeu, através do vidro embaçado da porta traseira do coletivo, um rosto conhecido. Era a menina que o movera de seu lugar na biblioteca mais cedo. Ela o olhava com uma expressão de preocupação e doçura quase cômica.
Por um breve instante, Gabriel permaneceu imóvel. Para ele, ela era apenas mais uma no meio de milhões, mais uma figura trágica entre tantas outras num mundo cinzento e sem sentido. Ele não sentia conexão, não sentia nada — não mais que um comentário numa nota de rodapé — registrado pela insistência daquela garota, que acabara por gravá-la em sua mente. Mas o que ele não conseguia esquecer era o peso de estar ali, vivo, em busca de um propósito que ele temia nunca encontrar.
“Todo esse movimento, toda essa pressa... Para nada.”, pensou ele, enquanto o ônibus desaparecia na cortina de gotas da chuvarada. “Eu preciso encontrar uma saída. Eu preciso consertar o que foi quebrado, mesmo que eu não saiba por onde começar.” O peso do legado Hazan o impelia.
Ele apertou os punhos sob o aguaceiro e voltou a se locomover com renovado zelo sobre as poças que se acumulavam. A mente calculando o próximo movimento em seus negócios, tão importantes nesse momento, tentando se manter alheio àquela menina teimosa que vinha ao encontro dele, e deixá-la para trás.