terça-feira, 26 de maio de 2026

Capítulo 4: Abalo Estrutural

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Para Gabriel, a realidade era um edifício mal construído. As pessoas comuns viam paredes e tetos; ele via as rachaduras. Naquela tarde, enquanto caminhava pela calçada duma avenida movimentada, a cidade parecia especialmente instável. O ar tinha um gosto de fumaça molhada e as luzes dos carros se afundavam nas poças que se formavam no asfalto, uma profundeza maior do que a lógica permitia.

Atrás de si, ele sentia um zumbido incômodo. Uma presença insistente, desajeitada e vibrante. A menina da biblioteca. “Como era o nome dela mesmo?” Ele tentou buscar na memória, mas nomes de pessoas vivas sempre lhe escapavam — ele guardava com muito mais facilidade as genealogias de filósofos mortos ou os comentários escritos das notas de rodapé de tratados medievais.

Aquela garota era um erro sistemático, um rosto gravado apenas pela contumácia da pequena jovem em chamar sua atenção com um misto de desembaraço e acanhamento. Um frágil dente-de-leão cuja flor da cor do sol desabrochava pelas rachaduras da descorada calçada da vida.

Ele não tinha tempo para aquilo. Seu tempo se dividia entre os negócios da família, seus estudos livres e sua peleja pessoal, o curso de Arquitetura pela manhã, onde se dedicava a desenhar edificações de linhas retas e firmes, e seu curso de Filosofia à noite, onde ele se tornara seu próprio carcereiro.

Gabriel tentou dobrar esquinas em ângulos fechados, buscando o isolamento necessário para o que sentia estar por vir. Todavia ela continuava lá, repleta de uma curiosidade inapropriada, um eco persistente de converse All Star surrado e molhado. Ele precisava fazer alguma coisa e, murmurando palavras antigas de proibição, entregou um édito ao próprio universo para que fosse cumprido com urgência, dispensando o impasse que lhe impedia de agir com a diligência necessária.

O rapaz continuou sua caminhada, virou numa travessa vazia e entrou numa brecha entre tapumes de metal enferrujado num canteiro de obras abandonado, um atoleiro vermelho onde materiais e ferramentas deixados para trás dividiam lugar com um ipê que insistira em sua permanência. Todavia, ele não conseguia esquecer os olhos castanhos e amendoados da garota, que momentos antes o observavam bem abertos. Se não fosse pela distração causada por aquele ruído humano, talvez Gabriel tivesse se preparado melhor para o que estava por vir.

Quando ele entrou no terreno baldio, retirou seu paletó e o atirou no chão, mas não houve barulho, o silêncio não era natural. O som da chuva contra o metal dos tapumes não ecoava; ele morria. Os três homens não surgiram de trás dos entulhos. Eles simplesmente passaram a ocupar o espaço, como se sempre estivessem ali. Eram batedores, homens de alma vendida que trajavam capotes cinzentos, os peões do sistema que ele tanto desprezava.

— Vocês estão adiantados. — Gabriel disse. A voz dele saiu firme, mas o ar ao redor de sua boca parecia vibrar com uma frequência errada. — O acordo era sobre a logística editorial na Europa. Não sobre me cercar em um terreno baldio em São Paulo. — Havia um toque de sarcasmo afiado em seu tom.

— A linhagem Hazan tem dívida, conosco que viemos cobrar, Arquiteto. Nos entregue agora o que Samuel roubou de nós. — A voz era fria, quase sintética.

O diálogo foi interrompido pelo tilintar de metal contra o concreto, um som mundano que perturbava aquele momento tenso, quase sagrado. Gabriel girou o corpo e seu sangue gelou. Entre os sacos de cimento e a árvore solitária, a garota estava lá, encharcada, o guarda-chuva de gatinhos fechado e os olhos brilhantes e assustados dela destoavam da paisagem sinistra.

— Você… — Gabriel deu um passo em direção a ela, quebrando o silêncio que parecera durar tempo demais, e sentindo um pavor que não sentia desde a noite em que encontrara o cadáver de seu pai debruçado sobre os mesmos tomos que ele agora se dedicava a decifrar. O escritório em silêncio, o cheiro de flores de macieira e a percepção de que, agora, ele era o último. — O que você está fazendo aqui? Por que me seguiu? — Seu timbre era mais ameaçador do que deveria.

Ela balbuciou uma frase incompleta, encerrada antes de fechar sua idéia. — Gabriel-senpai, eu… Eu só achei que… — Gabriel sentiu uma náusea profunda. A ingenuidade dela era um insulto à gravidade da situação, aquele não era o momento para isso.

— Qual é o seu nome? — Ele exigiu, com a dureza de um professor que demanda respeito de seus alunos. Se ele ia intervir na trajetória de uma vida, ele precisava da coordenada básica daquela existência.

— B-Beatriz. Beatriz Sato. — As palavras pareciam desmaiar ao sair dos lábios finos da menina.

— Escute bem, Beatriz. Você vai sair por aquele buraco. Você vai correr até a avenida e não vai parar por nada. Haverá um táxi parado na esquina, esperando por você. Não se preocupe em o pagar, mas você tem que sumir da minha vista agora! — Seu coração o impelia a levá-la para segurança, mas não havia tempo. Ele precisava voltar sua atenção aos oponentes que o cercavam, e começou a preparar seu encanto.

— Mas e você? Esses homens…

A aflição dela com a segurança dele era incômoda, quase ofensiva. — Agora! — Ele interrompeu seu ritual e rugiu com um misto de raiva e receio, mas o comando foi engolido por um movimento que desafiava a física.

Um dos capotes cinzentos deslizou pelas frestas do espaço, com toda a graça de um patinador de gelo. — Uma testemunha civil. Um resíduo indesejado. — Uma afirmação eficiente, precisa, e cruel.

Gabriel estendeu a mão para trás de si, para Beatriz Sato, sua mente disparando simultaneamente cálculos capazes de alterar a corrente de probabilidades, bem como sequências de contenção que ele já dominara, mas que nunca precisara aplicar para salvar outra vida. Ele era bom, o melhor de sua linhagem em gerações, mas nunca fora um escudo para os outros. — Hafsek, Kadish! Lô tirtzach! — Ele afirmou em alto e bom tom seu decreto mágico, enquanto desenhava o Escudo do Rei com seu indicador no ar, lançando-o para Bia com um célere golpe da palma de sua mão. O escudo girou e sua luz esmeralda fundiu-se num único disco fosforescente.

Não foi o suficiente. Não foi rápido o suficiente, nem foi bom o suficiente. O selo mágico se quebrou em centenas de cacos, estilhaçado ao se chocar com o estilete longo e fosco do homem que avançava. Mas Gabriel não podia desistir. Kivlê hakibush! Amarti lechá hafsek! ele esticou sua perna esquerda se agachando para baixar seu centro de gravidade, enquanto erguia o braço num movimento brusco, as palavras rolando como cascalho numa ribanceira.Chituch hazahav!

Com o primeiro encantamento ele prendeu o agressor em correntes místicas de luz, que ele puxava para trás como as rédeas de um cavalo. Com o segundo encantamento, ele dividiu o próprio espaço ocupado pelo braço de seu adversário em uma série de infinitos segmentos cada vez menores; era impossível ao ataque atravessar aquela distância numa sequência finita de tempo.

Gabriel tentou manter a concentração enquanto os outros dois capotes cinzentos surgiam a seu lado para o atacar, devolvendo a agressão com a fluidez de um artista marcial, um chute certeiro no abdômen de um e uma cotovelada brutal no rosto do outro.

Mas naquele momento de distração, os encantamentos que ele havia conjurado se enfraqueceram o suficiente para que o capote cinzento em frente a garota alcançasse seu objetivo, atravessando o próprio paradoxo de Zenão. Sua lâmina monotômica atravessou o tecido espaço e rasgou o peito de Beatriz com uma facilidade mágica.

A garota caiu, um baque molhado no chão de lama misturado com pétalas amarelas, o guarda-chuva de gatinhos para um lado e sua bolsa de materiais, já ensopada, para o outro. Ela não gritou, não se debateu, não reagiu, não havia tempo para isso.

Numa reação automática Gabriel se jogou para o lado dela, se desvencilhando de seus adversários com socos e chutes frenéticos, e passando pelo assassino, agora livre de suas correntes, agachado no chão como um gato, como se o homem não estivesse lá.

Gabriel a puxou para seu colo, tentou estancar o sangue, fechar a ferida, mas ele era melhor construindo armas místicas e erguendo escudos de magia que curando machucados, físicos, emocionais ou espirituais. O sangue dela o empapava, pesava em sua camisa, e parecia pressionar seu próprio coração.

— Beatriz, olha para mim! Não fecha os olhos! — O fôlego de vida escapava das narinas da menina, e seus lábios delicados vertiam sangue. Mesmo assim, ela parecia sorrir. A boca dela se movia, um gorgolejo úmido tentando formar palavras. Os olhos dela possuíam uma brandura que não condizia com a situação. — Beatriz! Boi! Kumi! Boi! Kumi! — O dano era fatal. Ele falhou em a proteger, outra morte em sua conta, o rosto de seu pai passou como um lampejo em sua mente. Sua memória era uma senhora cruel. Ele não pôde segurar o grito que queria saltar de sua garganta. — Maldição! Não assim! Não posso deixar terminar assim! Não é justo!

No momento de suas imprecações, Gabriel percebeu que os agressores não lhe dariam mais tempo para o luto. Eles o observavam atentamente, buscando uma brecha em suas defesas místicas. Ele a apertou contra seu peito uma última vez, preparando-se para retomar o conflito.

Quando os outros dois homens avançaram simultaneamente ele estirou Beatriz gentilmente sobre o leito lodoso coberto de flores e se ergueu, na velocidade dum piscar de olhos. Eles queriam o prêmio que o último Hazan carregava consigo, e Beatriz fora apenas um obstáculo removido. Algo dentro de Gabriel estalou. Quando um de seus oponentes avançou, Gabriel deu um passo à frente e o mundo ao redor dele pareceu se contrair. — Ruach hakoach. — Suas palavras, cadenciadas como uma melodia antiga, acompanhada de um gesto semicircular de seu braço, aplicou uma pressão na estrutura do ar. O homem de cinza bateu com violência no próprio ar, jorrando sangue de seu nariz quebrado, e foi lançado contra o tapume, batendo com um som surdo de metal retorcido que veio da chapa e de seus ossos.

O assassino a frente de Gabriel se ergueu sobre suas pernas e tentou um golpe lateral. Gabriel desviou com um movimento mínimo, segurando o pulso direito do homem com sua mão esquerda. Ele murmurou algo que parecia arranhar o fundo de sua garganta. — Tishcach yeminchá. — O braço do homem de capote simplesmente perdeu a coesão, dobrando-se em muitos ângulos errados.

— Fora daqui! — Gabriel sibilou, sem se virar, salvo por seus olhos que brilhavam como uma fornalha e acompanhavam o último dos capotes cinzentos ainda de pé.

Os atacantes recuaram, eles sabiam que não podiam mais o vencer, e desapareceram nas frestas abertas entre os cantos da realidade física. Gabriel não os perseguiu, não havia mais tempo. Ele viu que Beatriz ainda respirava tenuemente, com dificuldade, um abalo na estrutura de seus planos, e decidiu fazer o impensável.

Com a mão pesada, Gabriel arrancou um colar de seu pescoço. Era uma estrutura simples, um pequeno cânulo de cristal com um pergaminho no meio, entre duas tampas de metal vazado que se tocavam no centro. Ele estava pronto a quebrar as regras, redesenhar a linha intransponível entre a vida e a morte. Em sua mente ele conjurava energias primordiais que ele sabia não poder controlar, grandes demais mesmo para um magus competente como ele. Forças que ele herdara de seu pai, e que agora ele guardava consigo com zelo extremo, o projeto que continha o segredo para corrigir a falha que tanto o perturbava num edifício mais antigo que o arquiteto que o estudava, mais velho que o próprio tempo.

Ele se deitou sobre o corpo dela, que jazia ensanguentado a sua frente, segurou a mão direita fria da garota, encostou seus lábios com os dela, seus olhos com os dela, e com sua mão empurrou o cânulo para dentro da ferida aberta no peito dela. A Fonte da Vida era a única coisa que a poderia salvar, que poderia apagar do rapaz de olhos tristes a culpa de ter falhado mais uma vez, de permitir que aquela menina inocente chegasse perto o suficiente para ser ferida por sua sombra.

— Beatriz Sato! Me escuta! Eu não permito que você morra! — Ele se apertou contra ela, sua mão apertou seu peito ferido. — Atá hang’alê min Sheol nafshah! — Mas seu encanto declamado com a veemência de uma sentença, não foi ouvido pelo Universo. Ele insistiu mais uma, duas, três vezes, num tom de desafio, mas sua magia não era o suficiente para o que necessitava de um milagre.

A respiração parou, ele pôde senti-la ficando mais leve, e naquele momento ele voltou a ser só aquele garoto assustado que vira o corpo sem vida de seu pai na biblioteca. — Aba Ná! — Sua voz era lamúria de quem já desistira de tentar.

Um brilho intenso emanou do peito ferido de Beatriz Sato, ele podia sentir em sua mão, era quente, acolhedor, uma luz dourada que se refletia na copa amarela acima deles, e que era circundada por uma luz esmeralda que parecia um anel a seu redor. Gabriel abriu os olhos, observou a situação e suspirou com breve confusão. Aquele único instante se estendia no tempo, esticado, como se não quisesse acabar. Foi então que Gabriel percebeu que o impossível havia acontecido. O corpo dela se aqueceu por inteiro, ela podia sentir. Era um milagre.

Capítulo 4: Abalo Estrutural