| Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda) |
A noite paulistana estava especialmente fria naquele dia. Bia fitava o pé de ipê que lhe estendia um tapete amarelo para que atravessasse o espaço entre o portão e a entrada da casa. Ela não conseguia se lembrar direito de como chegara.
O trajeto no transporte foi um borrão de luzes fluorescentes, e durante a viagem de volta ela sentiu uma vertigem nova. As pessoas ao seu redor não eram apenas desconhecidos cansados; elas brilhavam em uma multidão de cores. Como se cada um houvesse sido embebido em tinta fresca e atirado com força contra um papel. As pessoas brilhavam, algumas fortes, outras fracas, algumas com tons berrantes, outras com tons pastéis, e algumas até mesmo em branco e cinza, havia quem misturasse um pouco de tudo, todas a seu modo individual.
Naquele caos, ela se afastava, procurava um canto isolado para ficar. Tinha medo que, se alguém esbarrasse nela, suas cores poderiam se misturar, e talvez aquele eco de vida que a sustentava pudesse silenciar.
Ela só lembrava de esconder compulsivamente a mancha vermelho rubi em sua roupa com o paletó que Gabriel lhe entregara, com sua mochila, e com sua pasta de materiais. “O omamori não sujou…” o pensamento passou rápido e não se demorou, como uma visita que chega numa hora inconveniente.
Por quantas estações ela passou? Em quantos veículos diferentes ela transitou nas ruas da metrópole? Por que aquela mancha carmesim em suas roupas brilhava como uma pedra preciosa? Eram perguntas que pareciam impossíveis de responder para aquela garota desnorteada. Mas a pergunta mais importante era a mais difícil de todas: Como ela iria explicar tudo isso para seus avós?
A garoa ainda insistia quando a menina atravessou o portão de ferro da casa na Vila Carrão, pisando sobre o tapete de pétalas, que havia sido estendido especialmente para ela, até chegar à porta de seu lar. A edificação simples era uma relíquia que seus avós se recusavam a vender, apesar das torres de condomínios que brotavam ao redor como ervas daninhas a cada ano que passava. Um sobrado antigo de tijolos, todo pintado de branco, com um pequeno jardim de azaleias e aquele ipê imponente que ela conhecia desde que se lembrava por gente.
Ela correu por sobre as flores salpicadas de chuvisco e sereno, como se quisesse fugir para os braços amorosos de sua família.
No minúsculo vestíbulo, Bia parou por hábito, mas suas mãos tremiam tanto que ela quase caiu ao desamarrar os cadarços do converse All Star encharcado. Ela deixou os tênis no tapete de entrada e calçou os chinelos de pano, sentindo o conforto familiar do tecido contra a pele molhada da planta do pé. Mesmo assim, o rito doméstico de trocar o calçado, que sempre servira para separar o mundo exterior do sagrado da casa, hoje parecia insuficiente. Havia algo que insistia em a acompanhar em seu peito para dentro da segurança de seu lar, algo antigo e poderoso.
— Bia-chan? É você? Por que demorou tanto, menina? Foi bem na entrevista? — A voz de Dona Yukimi veio da cozinha, acompanhada pelo som rítmico de vegetais sendo picados. Dessa vez, Bia não ajudava sua avó com o preparo do alimento, aquela rotina aconchegante que aprendera quando ainda era apenas uma criança grande.
Bia parou na porta da cozinha. Ela olhou para a avó e o mundo oscilou. Dona Yukimi não era apenas uma senhora de setenta anos usando um avental florido. Bia viu, por cima dos ombros da avó, uma espécie de pulsação dourada, um calor que emanava de sua pele e preenchia o cômodo, igual àquela luz que a preenchera e transbordara de si antes. Mas aquele brilho era real, orgânico, e não uma fantasmagoria etérea.
— Obachan… Eu… — Bia murmurou, apertando o casaco sujo de Gabriel e segurando sua pasta enlameada contra o peito.
Dona Yukimi limpou as mãos no avental enquanto se virava. Seus olhos se encheram de preocupação maternal quando ela viu o estado da neta, e em passos curtos e rápidos ela se aproximou para tocar o rosto da neta. Suas mãos cheiravam a gengibre e shoyu, um cheiro que Bia sempre associou à segurança. — Você está pálida. E toda suja de lama, inclusive seu material. Cadê sua fita? E esse paletó imundo? Ele é muito grande para você. Me deixe tirar! — O afeto da pequena senhorinha impediu que Bia reagisse a tempo. — Bia, sua jaqueta! Sua roupa! Está rasgada no peito, manchada de sangue! O que aconteceu? Foi assalto?
— Eu… Eu tropecei. Em um canteiro de obras perto da faculdade. Um ferro me pegou, mas estou bem. O paletó é de um veterano que me ajudou. — Era a primeira vez que ela mentia para seus avós, e a desculpa parecia tão absurda aos seus ouvidos que ela sabia que somente sua avó a compraria. Mas o que ela falaria? Que morrera e ressuscitara no caminho para casa? Suas orelhas se dobravam de tão quentes.
Dona Yukimi suspirou ao ver a expressão de vergonha no rosto de Bia, conduzindo a neta para a mesa de madeira gasta. — É aquele rapaz, não é, Bia-chan? Aquele Hazan. Você correu atrás dele, tropeçou e se machucou. — Bia mal podia acreditar que sua avó acreditou. — Beatriz, preste atenção: judeus e japoneses são como duas ilhas. Cada uma tem seu mar, suas tradições, seu sangue. Eles não casam fora, nós também não. O avô do rapaz foi um patriarca, e seu avô também é um patriarca. Duas gentes que não se misturam. Você é uma boba, uma menina sonhadora, querendo entrar num mundo que não tem porta para você. — Houve um breve silêncio, como se a advertência fosse se transformar em ralha. — Fique aqui e coma alguma coisa, depois eu vou preparar um banho para você. — A doçura da avó era reconfortante, mas aquilo que a menina escondia machucava seu peito como ferro em brasa.
A avó preparou e serviu uma xícara de chá verde fumegante, acompanhado de um prato de bolachas de arroz. O calor do líquido emanando do recipiente parecia brigar com o frio que Bia ainda sentia na base da coluna.
— Coma. Aqueça o corpo. O coração dos homens é complicado, mas o chá é simples.
Bia bebeu o chá em goles sôfregos, mas as palavras de cautela da avó ecoavam em sua mente. “Um mundo que não tem porta para você.” Os Hazan eram uma dinastia de papel e tinta, donos de um império editorial e de uma elegância que, para aquela menina corriqueira, parecia remontar de séculos. Ela era a neta de imigrantes que suaram para comprar aquele terreno na Zona Leste. Mas não era o dinheiro. Era a natureza deles. Gabriel carregava algo que ela de algum modo sabia ser muito antigo, primordial.
Depois de comer rapidamente, ela subiu apressada para o banho. A avó levou suas roupas para a lavanderia, junto do material e do guarda-chuva, mas Bia viu que algumas flores de ipê ficaram para trás, uma lembrança de tudo que acontecera naquele dia. Ela entrou na banheira, precisava remover a sujeira que havia se agarrado a seu corpo, mas não queria se demorar, pois se tivesse de explicar o ocorrido para o avô o desafio seria maior. O curioso é que não havia marca de sangue em seu corpo, nem mesmo na cicatriz que agora adornava seu peito esquerdo.
— Vou deitar, obachan. Estou exausta. — Bia gritou ao sair do banheiro, com toda a tranquilidade de uma estelionatária, e em seguida fugiu para o quarto e trancou a porta. Lá, entre suas coleções e mangás, pôsteres de animes, bonecas e materiais da faculdade organizados no pouco espaço disponível, ela se jogou na cama, enterrando o rosto no travesseiro e agarrando-o como se fosse a única coisa sólida em um universo de papel. Ela levou a mão ao peito, por baixo da camiseta do pijama, e sentiu a cicatriz. A linha perfeitamente reta pulsava.
“Ele me segurou.” A imagem de Gabriel, com o rosto colado ao dela, a mão esquerda segurando sua mão direita, e a mão direita pressionada contra o seu peito; ele era o centro do seu furacão. “Ele me salvou. Ninguém faz aquilo por nada. Ele me ama?” Ela não conseguia evitar se comparar às heroínas de suas revistas de romance em quadrinhos. Mas logo a dúvida vinha, ácida: “Ou ele só quer me usar?”
Ele dissera que precisaria dela. Mas como? Ele só falou com ela quando ela o puxou para fora de seu esconderijo na Biblioteca, apenas duas vezes em todo o semestre, exceto por alguns ois encabulados que ela lhe dirigiu nos corredores da FAU, respondidos sempre com aquela gentileza formal, distante de sempre. Havia algo mais ali. Não era “aquilo”, e não era um interesse comum. Era algo terrível, sublime como a própria vida.
“Eu morri? Eu lembro do escuro ruidoso, gelado.”
Ela viu o homem de capote cinzento. Viu o estilete. Sentiu o gosto do sangue. E lembrou-se da voz de Gabriel. “Ná!” Não era uma ordem, era uma melodia triste cujo poder a costurou de volta à existência. Só de lembrar, o peito ainda queimava, ardia, doía.
Ela lembrou da cor de Gabriel, um verde-esmeralda tão profundo, tão brilhante, que no começo parecia que a cegaria. Não eram mais só os olhos dele. Ele, assim como o mundo, também fora pintado pela experiência que ela tivera.
— Beatriz? — A voz de Dona Yukimi soou do outro lado da porta, vindo num tom de preocupação apertada, acompanhada por três batidas leves. — Você esqueceu o remédio para alergia. Está tudo bem aí dentro? Você está chorando? — Ela só percebeu nesse momento que seu travesseiro estava encharcado. O colo de sua avó seria um lugar melhor para isso, como ela fizera inúmeras vezes desde que foi morar nessa casa. Mas ela não podia abrir a porta, não podia encarar os olhos da avó e explicar o inexplicável.
Bia prendeu a respiração por tempo demais, até controlar os soluços baixinhos que acompanhavam seu choro. Através da madeira, ela conseguia “sentir” o calor da avó, aquela aura batendo contra a porta. De novo, o pânico subiu. “Eu morri e agora vejo o que ninguém vê? Eu sou um fantasma dentro de casa?” Mas não havia mais tempo para se acalmar.
— Tô bem, obachan! Só… Só tô com sono! — Gritou, a voz embargada. Ela não conseguiria mentir de novo para sua querida avó, não sem se machucar com as próprias mentiras, sem fazer seu próprio coração chorar.
— Tudo bem, boa noite! Durma bem. E se precisar de mim, pode me chamar. Eu sempre vou estar aqui para ouvir minha querida omagochan. — Ela prestou atenção aos passos silenciosos da avó se afastando, até que não mais os pudesse escutar.
Bia estava ainda em choque. Ela se enrolou nas cobertas, tremendo, querendo se esconder do mundo, da própria realidade. De algum modo Gabriel mudara a frequência de sua alma. Ele a salvara do fim, mas com isso a condenara a um início que ela não entendia, e ele se recusava a explicar. Ele a amava? Ou ela era apenas uma peça em uma arquitetura maior, uma decoração de porcelana quebrada que ele decidiu remendar por orgulho? “Kintsu… Kuroi.” Ela rememorava a luz dourada que ela vira no momento da ressurreição.
“Ainda vamos nos encontrar…” Bia fechou os olhos, mas o silêncio do quarto agora ressoava com a pulsação da cicatriz em seu peito, como se um segundo coração estivesse batendo ali agora.
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