| Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda) |
Gabriel se afastava de Beatriz com passos cuidadosamente coreografados, atraindo os inimigos para uma dança desencaminhante na escuridão entre as árvores, longe dos olhos indiscretos das estrelas, ou da face castiça da lua minguante.
O pulmão ardia, mas continuar se esquivando dos golpes de seus oponentes era menos desconfortável do que usar magia naquela hora. Ele sentia não ter mais forças físicas para manifestar e sustentar ainda mais poder nesse mundo. Enquanto lutava, o fardo das muralhas místicas que ele erguera na Vila Carrão espremia sua coluna.
Em sua consciência os pensamentos passavam com a velocidade dum farol de motocicleta numa rodovia vazia de noite. Ele se culpava por não ter feito o suficiente, por não ter previsto o que ocorreria, era tudo óbvio demais. Mas nenhum pensamento se demorava, não havia ensejo para isso; exceto por um. “Apenas mais quinze minutos.”
A descida de Aki até a garagem do condomínio foi ansiosa, aquele era todo tempo que ele tinha para desperdiçar, consumido pela lentidão do elevador. Assim que as portas de aço se abriram, ele disparou até a ducati, colocou seu capacete, deu a partida e, antes que o portão estivesse totalmente aberto, saiu do prédio numa só girada da manopla do acelerador.
A moto atravessou a cidade como um raio traçado por esquadro, zunindo em direção a seu destino. As placas de “Pare” e os sinaleiros vermelhos não o detinham; as buzinadas e xingamentos eram vagarosos demais para alcançar os ouvidos do velho finlandês.
“Eu não perderei outro Hazan.” O pensamento não era quente, era frio como a neve antiga, comprimida pela passagem dos anos até virar gelo. Esse era um juramento que ele havia feito ao avô de Gabriel, seu primeiro senhor, na mocidade. Salomão Hazan era um nome que exigia respeito mesmo do gelo polar. Alguém que ele até hoje chamava de amigo, ainda que não pudesse mais ser ouvido.
Bia estava aterrorizada. “Como eu posso ter sido tão boba?”, o pensamento se traduzia em lágrimas quentes e salgadas que escorriam com lentidão por suas bochechas. Gabriel a protegia mantendo a distância, ele se importava com ela, mas não se permitia a tocar pois, se o fizesse, o mundo inteiro desmoronaria.
Seu coração estava dilacerado, não pela cicatriz que insistia em brilhar em seu peito, mas por ter acreditado na promessa tola de seus shoujos, de que o amor podia salvar tudo, construir pontes e unir mundos que deveriam permanecer separados para sempre. E agora, o que a afastava do perigo no qual ela se colocara era um vendaval enfurecido que congelaria o próprio minuano, ou as suas mãos se ousasse o tocar.
“Ele está ofegante, o rosto vermelho demais… Ele cheira a suor… E sangue.” A imagem de Gabriel lhe servindo de escudo no momento em ela seria tomada pelos capotes cinzentos ficou gravada em sua consciência. E, agora, ele lutando alucinadamente contra aqueles mesmos homens bem diante de seus olhos não permitia que seu coração repousasse.
“Se continuar assim, ele vai acabar morrendo… Tudo isso é culpa minha.” Ela pensava em seus amigos, Mari, Felipe, Bebê, pensava em seus avós, Dona Yukimi e Seu Seitoku, e segurava com força o pingente no pescoço; a lembrança dos pais era um abraço que nunca chegava.
O mundo cheirava a amoníaco e terra úmida de sereno quando Galo abriu seus olhos. O coquetel de cachaça barata e pedra queimada ainda lhe queimava o esôfago. Mas o que o acordou não foi a ressaca ou a abstinência, e sim o estalo perturbador que ouvira.
Ele descobriu o cobertor velho de sobre o peito e se ergueu sobre o cotovelo, tentando focar a visão. A floresta era um breu que não conseguia ocultar o jogo de luzes que se desenrolava naquele lugar. Havia um jovem bastante alto vestido de bacana que brilhava como uma lâmpada incandescente pintada de verde, prestes a explodir. Havia também três personagens cinzentos cuja postura o lembrava policiais ou, talvez, assistentes sociais.
No meio de tudo, um esplendor dourado que o fazia sentir vergonha de si mesmo. Era uma estrela que atraia toda aquela dança para sua órbita.
A cena diante de seus olhos encheu Galo de pavor. Ele não sabia se estava tendo a viagem de sua vida, ou se o apocalipse decidira iniciar no Ibirapuera. Ele tentou se levantar, mas as pernas haviam virado gelatina. A dança das quatro figuras se aproximava perigosamente de Galo, que começou a gritar a plenos pulmões.
O rapaz se atirou a sua frente e ficou lá parado por um breve momento, como se o grito o tivesse suspendido no tempo. Seu rosto se virou para o maltrapilho, e Galo podia ver que era um tomate esbaforido. O grito não teve tempo de cessar. Foi tudo muito rápido quando os olhos vidrados do pobre diabo captaram a própria morte vindo pela mão dum dos homens cinzas, para além da figura verde trajada de preto.
Gabriel se mantinha de pé apenas pela mistura instável de sua vontade férrea com um instinto de sobrevivência feroz que ele não sabia que tinha até aquele momento. Era uma argamassa por demais fraca para sustentar a estrutura de seu corpo. As pernas criavam separação entre ele e seus oponentes, enquanto os braços defendiam com movimentos febris o rosto e tronco dos ataques de estilete que atravessavam a distância.
Suas roupas haviam se tornado um farrapo, os membros estavam cobertos de cortes que queimavam em sua pele, e seriam ainda piores não fossem os encantamentos primários de defesa sempre mantidos erguidos. O que deveria ser um embate corriqueiro contra inimigos débeis demais para um magus de seu calibre se tornara uma batalha de vida ou morte por conta de sua exaustão física, intelectual e mágica. Mas ele não morreria naquele lugar. Em sua mente, um pensamento monótono ecoava. “Apenas mais dez minutos.”
— O desfecho de nosso conflito já está determinado, Arquiteto. Insistir será infrutífero, e resultará em consequências imprevisíveis. — O capote cinzento que ele amputara antes não titubeava, apenas declarava a realidade que se apresentava. — Uma vez eliminado, o espírito familiar será incapaz de proteger a Fonte da Vida por muito tempo. É melhor que desista.
— Senpai! Foge daqui! — Beatriz gritou com a voz chorosa de dentro de sua gaiola gelada. Mas Gabriel a ignorou, e respondeu à requisição do homem com um chute certeiro em seu peito que o derrubou de costas no chão, um baque molhado sobre a grama orvalhada. A contenda continuaria, e a decisão já havia sido tomada. Os operativos dos Arcontes agora seriam mais enérgicos.
Os outros dois homens cinzentos não esperaram o companheiro se levantar. Sua apatia burocrática deu lugar a uma aceleração mecânica e violenta. Eles não mais deslizavam pelas frestas; eles investiam como touros bravios para o eviscerar.
Um dos atacantes girou o braço, talhando um rasgo fundo no braço direito de Gabriel. Mas dessa vez o movimento não parou na carne dele; o impacto atingiu um poste de iluminação próximo. O metal grosso dobrou-se como papel, a lâmpada explodiu numa chuva de faíscas elétricas que banhou o caminho de asfalto próximo ao lago.
O segundo dos atacantes lançou contra ele uma lufada de vento magicamente comprimido. Ele se atirou, rolando na terra para um centenário salgueiro chorão, esquivando-se por apenas uma polegada da poderosa corrente de ar que arrancou um banco chumbado do chão e o atirou contra as árvores do bosque, partindo ao meio o tronco duma jovem quaresmeira que florescia temporã.
Gabriel começava a se aprumar quando um grito espectral cortou a atmosfera. Ele virou o rosto e viu um homem sujo, desmazelado e vestido de trapos se segurando sobre os cotovelos atrás de si. “Uma testemunha civil.” ele pensou consigo.
Sua atenção fora desviada, e por muito pouco ele não viu o terceiro ataque vindo do adversário mutilado, que já recuperara sua compostura e tinha uma linha de tiro limpa para ele. Era um projétil explosivo de escuridão concentrada envolto por vácuo, capaz de destruir um carro forte. Se Gabriel desviasse, o morador de rua atrás dele morreria, se tentasse o tirar do caminho, Gabriel morreria. Só havia uma coisa a ser feita.
— Zroa barzel! — Gabriel esticou sua mão esquerda, concentrando o que restava de suas forças no braço esquerdo que brilhava com uma luz verde esmeralda, mas era insuficiente. O encantamento absorveria força do projetil, mas não havia energia o bastante para anular o impacto, ele seria apenas reduzido e desviado.
A ponta de lança constituída do mais puro nada atravessou a palma de sua mão, resvalando pelo rádio do braço até sair por seu cotovelo, o impacto reduzido e o trajeto alterado o suficiente para não causar mortes. A dor lancinante fez Gabriel arrevessar um grito surdo e torturado, abafado pelo grito do infeliz em pânico, que começava a perder o fôlego. Seus oponentes caminhavam com denodo em sua direção, para finalizar o trabalho.
Mas a aproximação dos capotes cinzentos foi interrompida pelo ronco do motor de uma motocicleta em alta velocidade. Ela foi desgovernada e atropelou um dos homens, dispersando os outros dois. Aki saltara de seu veículo naquele momento e, antes de seus pés tocarem o chão, ele atirou suas adagas prateadas contra seus adversários. Uma das navalhas atingiu a carótida dum dos que permanecia de pé, degolando-o. O corpo sem vida caiu no chão, se desfazendo em fumaça e vapor d’água.
— Você se adiantou cinco minutos ao que o cálculo previra, Aki. — Gabriel não levantou o olhar, o corpo não acompanhava a altivez de sua voz. Pela primeira vez em muito tempo, ele sabia que fora derrotado. A culpa, sua velha companheira, o acusava pelo desleixo de sua arrogância, pelo acúmulo de erros que se somaram numa única falha catastrófica; o coração pesava.
Aki caiu no chão sobre os pés, e se ergueu com agilidade felina, recuperando uma de suas adagas, cravada no solo, num único movimento fluido. Seus olhos estavam fixos nos oponentes que restavam, debilitados, um aferrolhado pelo motor quente da ducati ainda trabalhando seus pistões, outro com seu braço amputado.
Os homens de cinza se olharam sem mover o rosto, e desvaneceram pelas frestas do parque como sombras sugadas por um dreno invisível, a motocicleta com a roda ainda girando terminando sua queda num tombo que fora interrompido no atropelamento. Aki tentou acertar um deles atirando a adaga em sua mão com presteza, errando por menos da metade de uma polegada, a lâmina se fincando no tronco duma árvore no bosque escuro. A santidade daquele jardim fora profanada por um cheiro acre de ozônio, químicos, borracha queimada e gasolina.
E então, tudo se encerrou, não com um estrondo, mas com um murmurejo.
Atrás de Gabriel, o homem alucinado despencou num desmaio sufocado, o grito se encerrando junto de seu alento. Os ventos árticos que protegiam Beatriz se encerraram tão subitamente quanto haviam se iniciado, e naquele mesmo instante ela saiu correndo na direção do jovem ensanguentado. O primeiro desejo em seu coração não era agradecer seu salvador, mas enlaçá-lo em seus braços com força, como que para nunca mais o perder de novo.
Ela passou direto por Aki, como se carregada pela brisa da noite, e envolveu Gabriel num abraço apertado, encharcando suas roupas e feridas com lágrimas quentes que despencavam como uma cachoeira. No encalço dela, os passos do velho finlandês eram pesados, calculados, cada um deles uma decisão tomada como contingência.
— Gabriel-senpai, v-você tá todo machucado! S-seu braço… E-ele está sangrando muito. — Ela tirou a fita verde de cetim de seu cabelo e fez uma atadura improvisada. A mistura de sangue e suor de Gabriel, misturado às lágrimas da menina que embebiam o curativo era a prova de sua inocuidade. Mesmo assim, ele resistia o ímpeto de afastá-la de perto. “Por que o Senhor não resolveu isso falando pessoalmente com a Senhorita Sato?”, as palavras de Aki ainda reverberavam em sua cabeça.
— A garota se tornou o alvo principal, Senhor. As coisas não mais poderão continuar como estão. É hora da decisão. — A voz de Aki era clara mas poderosa como um sino de igreja. Bia virou o rosto para aquele homem que se parecia mais uma escultura de gelo. Os cabelos brancos longos amarrados num rabo de cavalo baixo tinham um brilho prateado sob a luz do crescente da lua, e seus olhos azuis claros emitiam uma luminescência de aço frio bem afiado. Ele era assombroso, mas Bia não sentia medo.
— Senhorita Sato, há um lugar seguro. — A voz de Gabriel tinha a rispidez de uma gentileza forçada, mas havia um fundo de preocupação hesitante. Os olhos de Bia se arregalaram, ela podia ler o temor que os olhos verdes agudos do rapaz não conseguiam mais esconder.
— Você não pode mais voltar para seu lar na Vila Carrão, Senhorita. Esqueça a vida que teve até agora. Há uma ilha particular na costa de Bornéu, com uma boa casa e pessoas que a atenderão. Lá a Senhorita estará segura. E confortável. — Aki foi incisivo, terminante.
Bia buscava aflita por consolo no olhar de Gabriel. — Eu não vou a lugar nenhum, Gabriel! Tenho família! Meus avós! Tenho amigos! A universidade! Aqui é meu lar! — As palavras saíam em gritos abafados, curtos e trêmulos, acompanhadas das lágrimas que escapavam, mas havia firmeza de propósito. — Você vai pensar num jeito… Você sempre encontra uma saída… — Mesmo assim, a voz falhava, e as lágrimas não aceitavam mais resistência.
— Eles estão vindo por você, Beatriz. Não por mim. — Ele parou, tentando encontrar as palavras certas, não para pedir desculpas, mas para se responsabilizar. — Eu fui leviano. Encarreguei você com a Fonte da Vida, sem considerar o peso daquilo que lhe impus. — Ele sentia a fratura da pilastra que sustentava a estrutura de seus planos se aprofundar.
Por tempo demais ele tentou ser um arquiteto distante, desenhando plantas baixas para retificar uma construção que, todavia, ele não desejava tocar, como se um mero esbarrão seu pudesse rachar e, por fim, deitar abaixo todo o edifício da realidade a partir de seus alicerces.
Ele levantou seus olhos para Beatriz, e depois para Aki. Em sua mente ele calculava os riscos e as probabilidades.
— O Senhor se provou inábil para protegê-la. — O mordomo já resolvera a equação enquanto limpava uma de suas adagas de prata. Sua fala não era uma crítica, era uma análise da realidade que se colocava a sua frente.
— E-então… — Bia encheu seus pulmões num único gole de ar, que se queimava com a brisa fria do outono de noite. Ela transformou aquele alento em ânimo, uma bravura grande demais para uma garota tão miúda. — Então me ensinem! Eu posso aprender a me proteger, eu prometo… E-eu prometo que não vou ser um fardo.
Gabriel a encarou, surpreso, seus lábios entreabertos. A menina delicada de roupas graciosas era mais corajosa do que parecia. Ele vira nela um vaso frágil, mas agora Beatriz oferecia ser um pilar.
— A magia é uma arte perigosa, Beatriz. — Ele advertiu, o tom pesaroso, quase apreensivo. — Ela muda a forma como você vê o mundo, seu preço desmesuradamente cruel é pago em humanidade.
Beatriz pousou a mão direita sobre a cicatriz que brilhava sob o moletom. — Eu já não vejo o mundo do mesmo jeito desde aquela terça à noite, Senpai. — Ela objetou com delicadeza, mas decidida. — E eu vi o que você fez por aquele homem. — Com a mão esquerda ela apontou para o homem desmaiado sob o salgueiro. — Você se isola atrás de frieza, solidão e livros difíceis, mas eu vi a bondade em você, Gabriel Hazan. Eu sabia que ela estava aí. Agora eu tenho certeza.
De todos os ângulos pelos quais ele poderia ter analisado aquele problema, esse era o mais obtuso. Mas a aliança estava selada, os olhos verde-esmeralda penetrantes dele e os olhos castanhos amendoados dela se fixaram mutuamente, refletindo a luz em forma de foice da lua como dois lagos de águas cristalinas. — Então eu serei seu mestre.
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