terça-feira, 30 de junho de 2026

Capítulo 9: Velas na Janela

 

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O que restava da semana se arrastou como um pesadelo em câmera lenta. No campus da faculdade, Bia se sentia uma intrusa em sua própria rotina. Começou a evitar as áreas comuns, escondendo-se atrás de pilares e pranchetas, mas seus olhos sempre buscavam, contra a sua própria vontade, a silhueta de Gabriel, o herdeiro de um reino perdido e mágico que não deveria existir no meio do concreto de São Paulo, e que insistia em desaparecer pelas frestas de sua visão.

Ela sabia que toda vez que ele se aproximava, a cicatriz em seu peito aquecia, um diapasão invisível vibrando em resposta à frequência dele. Ele não conseguiria se esconder por muito mais tempo, e ela obteria dele o que ansiava, desde que conseguisse domar o próprio coração enfeitiçado.

Sexta-feira à noite chegou com o peso de uma sentença. Ela terminou a semana sem uma explicação para toda aquela situação, e com o paletó guardado em seu armário, dividindo espaço nos cabides com suas camisas mais fofas e seus vestidos preferidos. Ela queria se aproximar do homem misterioso, mas não sabia como.

Em casa, Bia ficava mais vulnerável. Vestia uma camisa oversized de algodão cinza, com mangas três-quartos e a estampa de um céu estrelado e uma estrela sorridente dizendo “suki” em hiragana. A camisa era grande o suficiente para cobrir o short de moletom azul marinho, suas pernas escondidas apenas pelas meias cinzas altas de gatinhos e arco-íris. O cabelo comprido preto, liso e sedoso como uma camisa cara, preso num rabo de cavalo alto completava o visual.

Desde que se apaixonara por Gabriel e começara a pesquisar, de forma desajeitada e romântica, sobre as tradições dele, Bia adotara um hábito: acender duas velas brancas no parapeito da janela de seu quarto ao pôr do sol de sexta. Ela não sabia as orações, não conhecia as leis, mas era o seu jeito secreto de tentar tocar a orla do manto daquele mistério que ele representava para ela.

— Beatriz Sato. Venha aqui. Agora. — A voz do avô, Seitoku, ecoou do corredor. Não era um convite; era uma convocação para o tribunal da sala de estar.

Bia terminou de acender o segundo pavio, as mãos trêmulas, e caminhou até a sala. A casa da Vila Carrão estava muda, o silêncio denso como água gelada, quebrado apenas pelo tique-taque do relógio de parede. Seu Seitoku estava sentado em sua poltrona de vime, a mesma que ele ocupava desde que ela se lembrava por gente. Ele era um homem pequeno, de mãos calejadas por décadas de trabalho pesado na oficina mecânica. Ele cheirava a sabonete em barra e óleo de motor, era palpável, quase próximo demais, diferente do cheiro de madeira e terra molhada do paletó de Gabriel. Sua presença preenchia o cômodo com a solidez de um carvalho mizunara secular.

Bia parou na entrada da sala. A aura dele era diferente da de Dona Yukimi. Se a da avó era um dourado suave, a de Seu Seitoku era um âmbar profundo e sólido, como uma rocha que guardava o calor do dia por muitas horas depois do sol se pôr.

— Senta. — ordenou ele, apontando com o dedo nodoso para o banco de madeira à sua frente. — Sua avó diz que você não come direito. Diz que você se tranca no quarto e chora até conseguir dormir. E tem essas velas, que você fica acendendo como se estivesse em um templo que não é o nosso. O que está acontecendo com você, Beatriz?

— É só… Um hábito, ojichan. Uma curiosidade. — Ela ignorou de propósito as duas primeiras coisas que o avô falou, como se responder a elas fosse a deixar desnuda, desprotegida, naquele julgamento.

— Não minta para mim. — A voz de Seu Seitoku subiu um tom, vibrando com uma autoridade que fez a luz da sala parecer oscilar. — Na noite de terça-feira que você chegou atrasada, suja, coberta com o paletó de um estranho, a roupa por baixo rasgada, e o olhar de quem perdeu a alma… Algo aconteceu. Eu conheço o cheiro do perigo. Eu já vi o que acontece quando o coração toma as rédeas e o mundo se desfaz. O que aquele rapaz fez com você?

— Ele não fez nada! — Bia disparou, as mãos fechadas em punho sobre os joelhos. — Houve um problema no caminho… Eu tropecei, e ele me ajudou!

— Ajudou? — O homem velho se inclinou para frente num movimento brusco, os olhos estreitos como fendas. A aura dele se acendeu com um tom avermelhado de irritação. — Ele é um Hazan. Eles são uma gente de livros, cujo dinheiro escreve o destino de miríades. Nós somos donos do nosso suor. Você está se perdendo em um labirinto que não foi feito para os seus pés. Eu trabalhei dez horas por dia, de domingo a domingo, para que seu pai fosse engenheiro e para que você pudesse desenhar casas. Para você crescer em segurança. — A irritação cedeu ao desaponto. — Não para você ser o passatempo de um menino rico que acha que o mundo é seu tabuleiro de xadrez!

— Você não entende! Ele é diferente! Ele é… — Bia tentou buscar a palavra, mas como descrever um príncipe com poderes mágicos para um mecânico que se recusava a se aposentar? — Ele é de outro mundo, ojichan!

— Chega! — Seu Seitoku bateu a mão no braço da poltrona, a resposta dela piorou tudo. — Eu proíbo. Você não vai mais atrás desse rapaz. Não vai correr atrás dele como uma tola na rua, e não vai aos mesmos lugares que ele frequenta. Se eu souber que você cruzou o caminho dele de propósito, eu mesmo vou até aquela faculdade falar com o reitor. Você é o nosso sangue, Beatriz. Não vou deixar você se esvair por causa de uma paixão tola.

Bia sentiu uma pontada de dor no peito, bem em cima da cicatriz. O conflito entre o amor pelo avô zeloso e a ligação inexplicável com Gabriel a estava rasgando ao meio.

— Seitoku-san, querido, deixe a menina respirar… — Dona Yukimi apareceu na penumbra da cozinha, segurando um pano de prato, a voz da petição da garota, que se recusava a sair de seus próprios lábios. — Você está assustando ela.

— Não a defenda, Yukimi-chan! Ela está enfeitiçada. Olha para os olhos dela, parece que está vendo fantasmas!

— E você não estava enfeitiçado quando me conheceu? — A avó deu um passo à frente, e sua luz dourada pareceu suavizar a dureza do âmbar de Seu Seitoku. — Esqueceu que meu pai o chamava de “mecânico sem futuro”? Esqueceu que ele dizia que sua família era pobre demais para a nossa? Você também era de um “mundo diferente”, Seitoku-chan. Mas você ficou parado debaixo da janela da minha casa por três noites até ele deixar você entrar. Naqueles dias, nós também éramos gentes que não se misturavam aos olhos dos outros.

O avô bufou, mas o brilho avermelhado de sua aura cedeu, e deu lugar a um leve esplendor que remetia à juventude. Ele desviou o olhar, as memórias amolecendo a linha dura de sua boca. Mas a preocupação com a neta era maior que a nostalgia.

— Era diferente. — Resmungou ele. — Eu era pobre, mas eu era real. Esse Hazan… Há algo nele que me dá arrepios. É um frio que não é de São Paulo.

Bia aproveitou o momento para se levantar. Suas pernas estavam bambas, e a cicatriz em seu peito latejava como uma ferroada.

— Eu só quero compreender, ojichan. Eu sinto que… Que não sou mais a mesma.

O silêncio que se seguiu foi cortante. O rosto de Seu Seitoku mudou drasticamente. A dúvida deu lugar a uma certeza amarga e terrível. Para um homem de sua geração e cultura, aquela frase, dita por uma neta que chegara em casa com roupas rasgadas e o olhar perdido, só tinha um significado.

— “Não é mais a mesma”? — Ele repetiu, a voz agora baixa e carregada de um desprezo dolorido. — Então foi isso. Você se entregou para ele num canto de rua, num terreno baldio qualquer? Ele tirou de você o que não era dele e agora você acha que “mudou”?

— Não! Não é isso! — Bia gritou, horrorizada com a conclusão dele. — Não foi o que você está pensando!

— Vá para o seu quarto, Beatriz! — Seitoku rugiu, virando o rosto, recusando-se a olhar para ela. — Vá chorar pelo que você perdeu por causa de um príncipe de mentira. Se você não é mais a mesma, então a neta que eu criei morreu naquela noite.

Bia sentiu o golpe como se tivesse sido física. Ela olhou para a avó, buscando socorro, mas Dona Yukimi tinha os olhos baixos, triste pela brutalidade das palavras do marido, sua luz dourada havia ficado muda. Bia fugiu para o quarto, trancando a porta e desabando contra a madeira. Ela se jogou na cama e abraçou o travesseiro com força, as lágrimas finalmente venceram a barreira.

Ela olhou para as duas velas no parapeito da varanda de seu quarto, que alumiavam as flores do ipê que caíam lânguidas lá fora. Elas queimavam com uma chama alta e constante, azulada na base. Bia levou a mão ao peito e sentiu o relevo linear sobre a pele. “Ele me amava?” Ela se perguntou, lembrando-se do desespero nos olhos verdes dele quando a chamou pelo nome. “Aquilo foi um beijo, né?” A imagem dos lábios dele apertando contra os dela acelerava seu coração. “Ou, talvez, ele me marcou como propriedade, e me transformou em algo que nem meu próprio avô reconhece?”

Gabriel Hazan não era um namorado. Ele era um sol negro que a puxara para sua órbita, e agora, até o amor de sua família parecia ser reduzido a cinzas pelo fogo que ele soprara em suas veias.

— O que você fez comigo, Gabriel-senpai? — Ela sussurrou para o escuro, enquanto as velas projetavam sombras que pareciam se mover sozinhas entre os personagens dos pôsteres pendurados nas paredes do quarto da antiga casa da Vila Carrão.


terça-feira, 23 de junho de 2026

Capítulo 8: Perpendiculares

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

 No dia seguinte Bia acordou cansada, envergonhada. Naquela manhã de quarta-feira, ela passou tempo demais fitando a própria mão, os olhos castanhos afogados em incertezas, atracada com seu travesseiro como se fosse uma âncora, até que a avó a arrancou do transe.

— Bia-chan, desse jeito você vai se atrasar! — A doce voz que se seguiu às três batidas leves na porta era consoladora.

— Eu… Já vou levantar obachan. Só preciso terminar de acordar! — Ela se sentou na cama e se espreguiçou tão forte que parecia que as sombras da tarde anterior fugiriam dela. Com a barra da camiseta limpou as lágrimas secas dos olhos. Antes de se levantar, ela correu o olhar pelo quarto, como se procurasse alguém que não estava lá, parando apenas quando pousou os olhos nas bonecas que enfeitavam sua escrivaninha de imbuia.

Eram duas figuras de rosto redondo e impecavelmente branco, sentadas com elegância sobre as próprias pernas, que Bia herdara da mãe quando ainda era uma bebê. Ohina-sama, a boneca feminina, trajava um pesado junihitoe branco, cujas doze camadas de seda adornadas com flores de pessegueiro escondiam o vermelho vibrante do kosode por baixo. O cabelo, feito de fios de seda negra que pareciam reais, estava preso num osuberakashi preciso, coroado por um tenkan dourado que refletia a luz da manhã. Em suas mãos um leque aberto exibia uma floresta de folhas verdes, pintado a mão com cuidado como a tela de um quadro.

A seu lado estava Odairi-sama, a figura masculina. Trajava um sokutai carmesim sobre um kosode dourado. Sua cabeça sustentava um kanmuri negro e imponente, e ele segurava o shaku de madeira com toda a solenidade de um príncipe-regente. Depois de alguns segundos que lhe pareceram uma eternidade, enfim, Bia se levantou para abrir a porta. Do outro lado, a gentil avó a aguardava, como um sol dourado que aquece mas não queima.

— Não se preocupe que eu já preparei seu banho e café da manhã. Seja rápida menina! — Bia abraçou a mulher sorridente e com cheiro de sabonete de alfazema à sua frente com força, e deu um beijo em sua bochecha. Não eram necessárias palavras para explicar aquele momento, a avó retribuiu calada, dizendo que estava tudo bem com suas mãos entre os cabelos da garota que ela criara. O momento, para Bia, lembrava a noite fatídica em que seus pais morreram.

Ela tomou seu banho apressada e vestiu sua roupa com rapidez. Uma camisa branca básica de gola redonda, um cardigã cropped lavanda por cima, e uma saia plissada midi da mesma cor completava o conjunto. Ela amarrou o cabelo em uma trança e passou uma maquiagem leve. Era simples, mas acima de tudo, era verdadeiro, fiel à garota que ela sempre fora.

Ela desceu as escadas quase correndo, carregando uma pasta de reserva, leve demais para a sustentar. A menina não parou sequer para engolir o café da manhã, apenas colocou um pão com manteiga na boca e catou o obentô ainda quentinho que a avó lhe preparara antes de chispar para o pequeno vestíbulo da sala de estar, onde o converse All Star surrado a esperava junto de uma sacola preta de loja de departamentos com o paletó lavado mas ainda úmido do rapaz de ontem, passando direto pelo avô como se não pudesse o encarar. — Te amo, obachan! Te amo, ojiichan! Tô atrasada! Itekimasu! — Naquele momento a rotina matinal parecia errada, mas ela não podia voltar agora para um beijo que não fora dado, apenas reiterar o que sentia. — Amo vocês!

Bia fechou a porta no mesmo movimento que a abriu, ouvindo a avó gritar um “Também te amo, meu bem!” da cozinha. Ela apurou o passo sobre o tapete amarelo que enfeitava o caminho entre o lar que ela deixava para trás e a rua à sua frente. Seu coração também estava apurado, ela precisava de uma resposta, ainda que machucasse.


A arquitetura brutalista do Villanova Artigas parecia ainda mais brutal naquele dia, ignorando com sua grandeza esmagadora a insignificante presença da garota de olhos tenros que procurava no caos de estudantes por seu redentor. Ela tentava cruzar os olhos com os dele, como duas retas que se encontram na perpendicular de um plano cartesiano, porém ela o via fugir por entre as frestas, como se eles pertencessem a duas geometrias diferentes.

Mas pela primeira vez, Bia sabia de alguma forma que ele prestava atenção nela, com seus olhos verde-esmeralda virados para ela com toda a frieza de uma espada. E ela precisava devolver o paletó dele, e exigir explicações.

Bia! Ei, Bia! A voz de Felipe se destacou do burburinho da multidão, chamando-a de volta. Ele brilhava com um azul-bebê honesto. “Combina com ele,” ela pensou.

— Você sumiu ontem, Bia… Do nada! Eu tentei te ligar, mandei mensagem, e nada. Você não atende mais o celular! Você correu atrás daquele cara e desapareceu na chuva. Eu achei que você tinha sido assaltada ou… — Ele parou, hesitando em revelar a extensão de seus pensamentos, enquanto seus olhos varriam o rosto dela em busca de feridas. — Você está bem? Voltou em segurança? Não importa porque você foi atrás dele, eu só… Preciso saber se você está inteira.

— Eu estou bem, Felipe. Sério. Só… Tropecei, e ele me ajudou. — A resposta saía automática, mas o tom era oco, como um escudo de madeira fina. Mas não havia tempo para conversas, o professor acabara de entrar.


As aulas andavam trôpegas, cada tique-taque do relógio sobre o quadro negro um passo desajeitado, lento. As horas se arrastaram até chegar a hora da saída, e quando o relógio marcou a hora e o minuto certo, Bia começou a arrumar suas coisas para buscar a solução para o mistério de sua nova vida.

Fica aí, amiga. Eu preciso falar uma coisa. Mariana se aproximou dela como uma labareda que parecia que a iria queimar. Os cachos do volumoso cabelo ruivo pareciam roubar a luz das lâmpadas só para eles. Diante daquela figura de autoridade, Bia não podia dizer não. Quando a sala se esvaziou, ela bradou. — Pode começar a falar, Beatriz. E não olhe para o Felipe com essa cara de acusação, ele não abriu o bico. Sua BFF não é burra, sabia?

— Mariana, agora não… — Bia tentou recuar. Não era uma negativa, era uma petição.

— Agora sim! — Mariana a segurou pelo braço e expulsou Felipe da sala com os olhos. — Que história é essa de sumir? Você tem noção que a gente tinha aquela conversa marcada com o pessoal do escritório, para o estágio? Você perdeu a chance, Bia! Tudo por causa de um babaca com um rei na barriga que nem sabe o seu nome!

Bia sentiu o peso da cicatriz pulsar. — Eu tropecei, Mari. Em um canteiro de obras. Um ferro me pegou, e ele me ajudou e… — De novo aquela história, aquela mentira por omissão, que já se tornara espontânea.

— Bia, olha para mim. Eu sou sua amiga, não sua avó. Essa história está mal contada. Você está com cara de quem viu um fantasma e agora está tentando virar um. Cria juízo! Aquele Hazan… Ele é veneno. Ele não é desse mundo, e desse jeito, você vai se afogar tentando alcançar ele.

Bia não respondeu, ela não podia. Até que ela sentiu a ressonância em seu peito, e seus olhos foram atraídos novamente para o vão das escadas. Lá estava ele de novo, Gabriel. No intervalo ele aparecera entre os pilares do subsolo, apenas para sumir assim que ela deu um passo à frente. Era um jogo de esconde-esconde cruel. Ele a evitava como se ela fosse uma mancha de nanquim em seu projeto perfeito, mas não conseguia parar de monitorar a garota que ele arrancara dos braços da morte.

Seu silêncio de espanto logo deu lugar a uma inquietação febril, ela precisava falar com ele. Bia se desvencilhou da amiga e correu até o corredor, mas ele sumira de novo, nas frestas do canto da visão. Ela olhou para Felipe buscando uma resposta para aquilo, mas o rapaz estava distraído jogando em seu celular.

— Bia, vamos logo, pega o seu material. O Erik disse que vai passar para nos pegar, vai te levar para casa hoje. — Mariana lançou um olhar desconfiado para a sacola preta e saiu da sala, a voz já não tinha mais cobrança, era de novo aquela irmã mais velha legal, a onee-chan que no ensino médio ajudara Bia a se integrar no novo colégio.

— Pode ir, Mari. Eu… Esqueci uma coisa na biblioteca. — Ela se preparou para sair correndo, agarrando com força a sacola com o paletó que a protegera na noite do dia anterior.

— Bia, não ouse. — O tom era de intimação, e ela soube naquele mesmo instante que não poderia ousar. A menina ficou ali, suspensa no alto da escadaria, uma estátua imóvel e delicada. Felipe a observava com cara de espanto, a boca entreaberta dum rapaz que não sabe bem o que dizer.

Na frente do edifício, o trio aguardava a chegada de Erik Schneider, o namorado de Mariana. Ele era um estudante do quarto ano de medicina. Loiro e alto, de ombros largos, pele avermelhada e a risada divertida de quem encontrou o ponto de equilíbrio. Quando ele parou com seu hatch na frente do prédio, Mariana correu para o abraçar, completando o protocolo com um selinho rápido, aquele gesto de casal amorzinho que fazia Felipe desviar o olhar, mas que Bia havia aprendido a apreciar, e que agora, entretanto, a perturbava.

Mariana era tão plena, dona de si, e dona de um lindo par de pernas que pareciam querer sair da calça jeans escura apertada. Não dava de a comparar com aquela menina plana, sem graça, que Mariana cuidava como uma irmã mais nova.

— Oi galera! Tudo bem? — O rapaz sorria enquanto falava, e brilhava com o branco de uma parede sólida e bem caiada. — Vamos para casa? A Mari me falou que hoje vou ter de fazer a corrida fiado. — A piada sem graça fez Mari dar uma cotovelada de leve no namorado, mas em seguida os dois se entreolharam, cada um com um sorriso pela metade, trocando uma confidência silenciosa que só quem se ama consegue.

— Pode deixar que depois eu acerto as contas com o meu CDF particular! — Mariana falou num tom travesso e em seguida olhou para Bia. Seu olhar era uma ordem silenciosa que não aceitava um não como resposta. Bia sabia que estaria em segurança se obedecesse, e por isso ela obedeceu.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Capítulo 7: Eco de Vida

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

 A noite paulistana estava especialmente fria naquele dia. Bia fitava o pé de ipê que lhe estendia um tapete amarelo para que atravessasse o espaço entre o portão e a entrada da casa. Ela não conseguia se lembrar direito de como chegara.

O trajeto no transporte foi um borrão de luzes fluorescentes, e durante a viagem de volta ela sentiu uma vertigem nova. As pessoas ao seu redor não eram apenas desconhecidos cansados; elas brilhavam em uma multidão de cores. Como se cada um houvesse sido embebido em tinta fresca e atirado com força contra um papel. As pessoas brilhavam, algumas fortes, outras fracas, algumas com tons berrantes, outras com tons pastéis, e algumas até mesmo em branco e cinza, havia quem misturasse um pouco de tudo, todas a seu modo individual.

Naquele caos, ela se afastava, procurava um canto isolado para ficar. Tinha medo que, se alguém esbarrasse nela, suas cores poderiam se misturar, e talvez aquele eco de vida que a sustentava pudesse silenciar.

Ela só lembrava de esconder compulsivamente a mancha vermelho rubi em sua roupa com o paletó que Gabriel lhe entregara, com sua mochila, e com sua pasta de materiais. “O omamori não sujou…” o pensamento passou rápido e não se demorou, como uma visita que chega numa hora inconveniente.

Por quantas estações ela passou? Em quantos veículos diferentes ela transitou nas ruas da metrópole? Por que aquela mancha carmesim em suas roupas brilhava como uma pedra preciosa? Eram perguntas que pareciam impossíveis de responder para aquela garota desnorteada. Mas a pergunta mais importante era a mais difícil de todas: Como ela iria explicar tudo isso para seus avós?

A garoa ainda insistia quando a menina atravessou o portão de ferro da casa na Vila Carrão, pisando sobre o tapete de pétalas, que havia sido estendido especialmente para ela, até chegar à porta de seu lar. A edificação simples era uma relíquia que seus avós se recusavam a vender, apesar das torres de condomínios que brotavam ao redor como ervas daninhas a cada ano que passava. Um sobrado antigo de tijolos, todo pintado de branco, com um pequeno jardim de azaleias e aquele ipê imponente que ela conhecia desde que se lembrava por gente.

Ela correu por sobre as flores salpicadas de chuvisco e sereno, como se quisesse fugir para os braços amorosos de sua família.


No minúsculo vestíbulo, Bia parou por hábito, mas suas mãos tremiam tanto que ela quase caiu ao desamarrar os cadarços do converse All Star encharcado. Ela deixou os tênis no tapete de entrada e calçou os chinelos de pano, sentindo o conforto familiar do tecido contra a pele molhada da planta do pé. Mesmo assim, o rito doméstico de trocar o calçado, que sempre servira para separar o mundo exterior do sagrado da casa, hoje parecia insuficiente. Havia algo que insistia em a acompanhar em seu peito para dentro da segurança de seu lar, algo antigo e poderoso.

— Bia-chan? É você? Por que demorou tanto, menina? Foi bem na entrevista? — A voz de Dona Yukimi veio da cozinha, acompanhada pelo som rítmico de vegetais sendo picados. Dessa vez, Bia não ajudava sua avó com o preparo do alimento, aquela rotina aconchegante que aprendera quando ainda era apenas uma criança grande.

Bia parou na porta da cozinha. Ela olhou para a avó e o mundo oscilou. Dona Yukimi não era apenas uma senhora de setenta anos usando um avental florido. Bia viu, por cima dos ombros da avó, uma espécie de pulsação dourada, um calor que emanava de sua pele e preenchia o cômodo, igual àquela luz que a preenchera e transbordara de si antes. Mas aquele brilho era real, orgânico, e não uma fantasmagoria etérea.

Obachan… Eu… — Bia murmurou, apertando o casaco sujo de Gabriel e segurando sua pasta enlameada contra o peito.

Dona Yukimi limpou as mãos no avental enquanto se virava. Seus olhos se encheram de preocupação maternal quando ela viu o estado da neta, e em passos curtos e rápidos ela se aproximou para tocar o rosto da neta. Suas mãos cheiravam a gengibre e shoyu, um cheiro que Bia sempre associou à segurança. — Você está pálida. E toda suja de lama, inclusive seu material. Cadê sua fita? E esse paletó imundo? Ele é muito grande para você. Me deixe tirar! — O afeto da pequena senhorinha impediu que Bia reagisse a tempo. — Bia, sua jaqueta! Sua roupa! Está rasgada no peito, manchada de sangue! O que aconteceu? Foi assalto?

— Eu… Eu tropecei. Em um canteiro de obras perto da faculdade. Um ferro me pegou, mas estou bem. O paletó é de um veterano que me ajudou. — Era a primeira vez que ela mentia para seus avós, e a desculpa parecia tão absurda aos seus ouvidos que ela sabia que somente sua avó a compraria. Mas o que ela falaria? Que morrera e ressuscitara no caminho para casa? Suas orelhas se dobravam de tão quentes.

Dona Yukimi suspirou ao ver a expressão de vergonha no rosto de Bia, conduzindo a neta para a mesa de madeira gasta. — É aquele rapaz, não é, Bia-chan? Aquele Hazan. Você correu atrás dele, tropeçou e se machucou. — Bia mal podia acreditar que sua avó acreditou. — Beatriz, preste atenção: judeus e japoneses são como duas ilhas. Cada uma tem seu mar, suas tradições, seu sangue. Eles não casam fora, nós também não. O avô do rapaz foi um patriarca, e seu avô também é um patriarca. Duas gentes que não se misturam. Você é uma boba, uma menina sonhadora, querendo entrar num mundo que não tem porta para você. — Houve um breve silêncio, como se a advertência fosse se transformar em ralha. — Fique aqui e coma alguma coisa, depois eu vou preparar um banho para você. — A doçura da avó era reconfortante, mas aquilo que a menina escondia machucava seu peito como ferro em brasa.

A avó preparou e serviu uma xícara de chá verde fumegante, acompanhado de um prato de bolachas de arroz. O calor do líquido emanando do recipiente parecia brigar com o frio que Bia ainda sentia na base da coluna.

— Coma. Aqueça o corpo. O coração dos homens é complicado, mas o chá é simples.

Bia bebeu o chá em goles sôfregos, mas as palavras de cautela da avó ecoavam em sua mente. “Um mundo que não tem porta para você.” Os Hazan eram uma dinastia de papel e tinta, donos de um império editorial e de uma elegância que, para aquela menina corriqueira, parecia remontar de séculos. Ela era a neta de imigrantes que suaram para comprar aquele terreno na Zona Leste. Mas não era o dinheiro. Era a natureza deles. Gabriel carregava algo que ela de algum modo sabia ser muito antigo, primordial.

Depois de comer rapidamente, ela subiu apressada para o banho. A avó levou suas roupas para a lavanderia, junto do material e do guarda-chuva, mas Bia viu que algumas flores de ipê ficaram para trás, uma lembrança de tudo que acontecera naquele dia. Ela entrou na banheira, precisava remover a sujeira que havia se agarrado a seu corpo, mas não queria se demorar, pois se tivesse de explicar o ocorrido para o avô o desafio seria maior. O curioso é que não havia marca de sangue em seu corpo, nem mesmo na cicatriz que agora adornava seu peito esquerdo.

— Vou deitar, obachan. Estou exausta. — Bia gritou ao sair do banheiro, com toda a tranquilidade de uma estelionatária, e em seguida fugiu para o quarto e trancou a porta. Lá, entre suas coleções e mangás, pôsteres de animes, bonecas e materiais da faculdade organizados no pouco espaço disponível, ela se jogou na cama, enterrando o rosto no travesseiro e agarrando-o como se fosse a única coisa sólida em um universo de papel. Ela levou a mão ao peito, por baixo da camiseta do pijama, e sentiu a cicatriz. A linha perfeitamente reta pulsava.

Ele me segurou. A imagem de Gabriel, com o rosto colado ao dela, a mão esquerda segurando sua mão direita, e a mão direita pressionada contra o seu peito; ele era o centro do seu furacão. “Ele me salvou. Ninguém faz aquilo por nada. Ele me ama? Ela não conseguia evitar se comparar às heroínas de suas revistas de romance em quadrinhos. Mas logo a dúvida vinha, ácida: “Ou ele só quer me usar?

Ele dissera que precisaria dela. Mas como? Ele só falou com ela quando ela o puxou para fora de seu esconderijo na Biblioteca, apenas duas vezes em todo o semestre, exceto por alguns ois encabulados que ela lhe dirigiu nos corredores da FAU, respondidos sempre com aquela gentileza formal, distante de sempre. Havia algo mais ali. Não era “aquilo”, e não era um interesse comum. Era algo terrível, sublime como a própria vida.

Eu morri? Eu lembro do escuro ruidoso, gelado.

Ela viu o homem de capote cinzento. Viu o estilete. Sentiu o gosto do sangue. E lembrou-se da voz de Gabriel. “!” Não era uma ordem, era uma melodia triste cujo poder a costurou de volta à existência. Só de lembrar, o peito ainda queimava, ardia, doía.

Ela lembrou da cor de Gabriel, um verde-esmeralda tão profundo, tão brilhante, que no começo parecia que a cegaria. Não eram mais só os olhos dele. Ele, assim como o mundo, também fora pintado pela experiência que ela tivera.

— Beatriz? — A voz de Dona Yukimi soou do outro lado da porta, vindo num tom de preocupação apertada, acompanhada por três batidas leves. — Você esqueceu o remédio para alergia. Está tudo bem aí dentro? Você está chorando? — Ela só percebeu nesse momento que seu travesseiro estava encharcado. O colo de sua avó seria um lugar melhor para isso, como ela fizera inúmeras vezes desde que foi morar nessa casa. Mas ela não podia abrir a porta, não podia encarar os olhos da avó e explicar o inexplicável.

Bia prendeu a respiração por tempo demais, até controlar os soluços baixinhos que acompanhavam seu choro. Através da madeira, ela conseguia “sentir” o calor da avó, aquela aura batendo contra a porta. De novo, o pânico subiu. “Eu morri e agora vejo o que ninguém vê? Eu sou um fantasma dentro de casa? Mas não havia mais tempo para se acalmar.

— Tô bem, obachan! Só… Só tô com sono! — Gritou, a voz embargada. Ela não conseguiria mentir de novo para sua querida avó, não sem se machucar com as próprias mentiras, sem fazer seu próprio coração chorar.

— Tudo bem, boa noite! Durma bem. E se precisar de mim, pode me chamar. Eu sempre vou estar aqui para ouvir minha querida omagochan. — Ela prestou atenção aos passos silenciosos da avó se afastando, até que não mais os pudesse escutar.

Bia estava ainda em choque. Ela se enrolou nas cobertas, tremendo, querendo se esconder do mundo, da própria realidade. De algum modo Gabriel mudara a frequência de sua alma. Ele a salvara do fim, mas com isso a condenara a um início que ela não entendia, e ele se recusava a explicar. Ele a amava? Ou ela era apenas uma peça em uma arquitetura maior, uma decoração de porcelana quebrada que ele decidiu remendar por orgulho? “KintsuKuroi.” Ela rememorava a luz dourada que ela vira no momento da ressurreição.

Ainda vamos nos encontrar…” Bia fechou os olhos, mas o silêncio do quarto agora ressoava com a pulsação da cicatriz em seu peito, como se um segundo coração estivesse batendo ali agora.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Capítulo 6: O Fardo da Onipotência

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Após resolver seus negócios, Gabriel partiu com urgência. A cidade seguia seu ritmo impassível, ignorando propositadamente o mandamento absoluto transgredido com completo desacato em seu coração. Gabriel andou de volta até a avenida como um fantasma entre os paredões de aço e concreto que se amontoavam à beira da calçada. Os faróis dos carros cortavam o cinza em lampejos de luz artificial que faziam o sangue em suas mãos parecer, por breves instantes, mercúrio negro.

Ao chegar na avenida, Gabriel não chamou seu chofer de volta, tampouco pegou um táxi. Ele caminhou sob o chuvisco por quilômetros, ignorando os olhares curiosos dos pedestres que viam um jovem de camisa de seda negra, completamente encharcada, e com expressão apática, vagando pelas rígidas calçadas de São Paulo.

A água não conseguia lavar o sangue de Beatriz das suas mãos, mas pior era o rastro místico do que fizera, que se apegara à sua alma como piche. Ele não estava abatido pela luta, mas pela falha, por ter se deixado distrair por aqueles olhos castanhos e amendoados, e ter sacrificado a herança de seu pai para corrigir seu erro, deixar que um inocente morresse em sua guerra particular. Cada passo era uma luta contra a força terrível que ele exigia de si mesmo.

Ao entrar no hall de mármore translúcido do edifício desenhado em art déco, o silêncio do condomínio de luxo o atingiu como uma bofetada, contrastando com o lamento baixinho da água que sussurava ao cair dos céus do lado de fora. O segurança noturno desviou o olhar, treinado para nunca questionar o estado em que as deidades retornavam para seus olimpos de vidro.

Dentro do elevador, o painel digital marcava a ascensão enquanto o reflexo de Gabriel no espelho cristalino parecia se desintegrar. Ele observou a si mesmo, e a imagem lhe repugnou: a camisa cara empapada de água e sangue, grudada ao peito como uma segunda pele morta, e a palidez de sua tez contrastando com o escarlate seco em suas mãos e sob as unhas. Ele não era um salvador; era um usurpador que acabara de roubar a soberania da morte.


Quando finalmente terminou sua subida e entrou na cobertura, a camisa de seda negra agora arruinada — uma de muitas, todas idênticas — pesava como uma armadura de chumbo. O luxo do salão de entrada do apartamento, com seus móveis de design exclusivo e obras de arte discretas, afrontava a sujeira que ele carregava consigo.

Joakim “Aki” Virtanen o esperava no vestíbulo. Ele não segurava uma toalha ou uma bebida quente; segurava um cronômetro e um mapa estelar impresso. O velho finlandês não moveu um músculo sequer ao ver o estado deplorável do jovem patrão, mas seus olhos azuis, gélidos e penetrantes, varreram cada rasgo no tecido e cada mancha de lama deixada pelos sapatos no mármore italiano.

— O senhor demorou dezessete minutos a mais do que o cálculo de contingência permitia, Senhor Hazan — disse Aki, a voz seca como papel antigo, sem qualquer traço de alívio. — E o senhor cheira a entropia revertida. É um odor ofensivo para as leis da física.

Gabriel passou por ele sem dizer nada, deixando um rastro de água suja. Ele foi direto para o escritório, um santuário de carvalho e couro com piso variegado em xadrez onde o silêncio era interrompido apenas pelo tique-taque de relógios de precisão. Na parede da frente, transformada em quadro negro, plantas baixas e desenhos técnicos de catedrais nunca construídas conviviam com mapas estelares. Nas estantes que ladeavam sua escrivaninha de jacarandá-preto, instrumentos técnicos antiquados e modernos disputavam o pouco espaço restante com livros cuidadosamente catalogados, incluindo edições raras de textos esquecidos, bem como manuscritos e incunábulos supostamente perdidos.

Fechando as paredes, a janela de trás, com seu vidro grosso e bem transparente, exibia a cidade como um quadro pintado à mão. Dois enormes globos, um terrestre amarelado e um celeste esverdeado, se situavam no centro da sala, sustentados por suportes massivos. Naquele momento, a luz das luminárias de design industrial não só iluminava, mas revelava o asseio com que o cômodo era mantido, pois não havia poeira alguma sobre os móveis.

Finalmente o corpo de Gabriel cedeu ao cansaço e ele desabou na poltrona, as mãos ensanguentadas tremendo sob a luz fria da sala. A harmonia do ambiente estava quebrada por sua presença poluída.

— Os capotes cinzentos dos Arcontes me encontraram. — Disse Gabriel, a voz rouca, recusando-se a olhar para o mordomo. — No terreno baldio da Rua Santo Acácio. Estavam me monitorando.

Aki entrou no escritório, fechando as portas com um clique definitivo. Em seguida, ele se aproximou da mesa, observando Gabriel com uma severidade que apenas alguém que vira gerações de homens cometerem os mesmos erros poderia possuir.

— Os capotes cinzentos são um problema de logística, Sr. Hazan. Sua chegada já era esperada. Eles podem ser neutralizados ou realocados. O que eu sinto emanando do seu corpo, entretanto, é um problema de arquitetura. O senhor mexeu nos alicerces do que é irrevogável, conjurou um poder que a magia é incapaz de alcançar.

Gabriel levantou o rosto, os olhos verdes tentando esconder um segredo de alguém que podia lhe ler como a um livro aberto. — Uma garota… Uma caloura do curso de Arquitetura. Ela me seguiu, e eu me distraí.

Aki permaneceu posto em silêncio, paciente como um velho e sólido carvalho, olhando para as mãos enodoadas de carmim de seu jovem mestre. Ele o contemplava com toda a inclemência de um pai que sabe que seu filho mente, e aguarda ouvir a verdade, não para fazer as pazes, mas para aplicar a justa punição. Gabriel não conseguia se esquivar.

— Ela foi atingida pelo estilete, e morreu em meus braços. Eu senti o exato momento em que sua estrutura desmoronou. O fôlego dela escapou de suas narinas, eu pude sentir o peso do corpo dela mudar.

— E, no entanto, o senhor não está de luto. — Aki observou, sua voz ganhando um tom mais cortante, quase cruel. — O senhor está exausto. — Aki aguardou um instante antes de continuar. Ele lia as palavras invisíveis, inexprimidas, na fronte de seu amo.

— O senhor tomou a herança de seu pai e a depositou em um vaso inadequado. Uma civil? Uma garota que ainda não alcançou os vinte e um anos de idade? Que não possui a geometria necessária para suportar o que o senhor forçou para dentro dela? A Fonte da Vida é um tesouro único, que você desperdiçou. Isso não foi um resgate, Gabriel. Foi uma irresponsabilidade monumental.

— Eu não podia deixá-la morrer! — Gabriel levantou a voz, o corpo ficando ereto na poltrona como se quisesse se levantar. — Eu nunca deixei nenhum inocente morrer desde que assumi este lugar. Eu não sou como o meu pai, Aki. — Pelo tempo de uma oração ou duas, seu timbre ganhou uma cadência sussurrada. — Ele passou seus últimos anos estudando a Fonte da Vida, e mesmo assim não conseguiu sustentar a própria vida. Se eu vou retificar o mundo, eu não posso permitir mais uma rachadura em sua estrutura! — Em sua última frase ele recuperou o tom inicial.

Aki não recuou. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância até que sua sombra cobrisse o rosto de Gabriel.

— Esse é o seu erro. O senhor se acha onipotente. — Disse o velho, com uma calma que era pior do que um grito. — O senhor acredita que pode carregar o peso do mundo nas costas e redesenhar a realidade conforme sua conveniência ética. Ao ressuscitá-la, o senhor não a salvou, mas a condenou a ser um farol para nossos inimigos. O senhor vinculou uma alma inocente a um projeto de destruição, deu a ela uma vida que não é dela, um empréstimo da sua própria arrogância. E o mais grave de tudo, o senhor colocou em risco o próprio projeto de retificação.

— Eu assumo a inteira responsabilidade por ela. — murmurou Gabriel, voltando a se sentar, envergonhado por sua precipitação.

— Sua culpa não é uma moeda de troca no cosmos, Gabriel. O senhor ambiciona ser o Arquiteto do Universo, responsável por projetar a retificação, o Mundo Vindouro, mas esquece que até as catedrais mais belas desabam se o solo não for firme. Aquela menina é barro comum. O senhor soprou o Fogo Divino nela apenas para aplacar o seu próprio pavor de perder. Mas ela vai quebrar, e quando quebrar, o senhor terá o sangue dela nas mãos pela segunda vez. Só que, da próxima vez, não haverá retorno, pois o senhor extraviou a Fonte da Vida.

Gabriel fechou os olhos. No escuro de sua mente, ele ainda sentia o calor macio do peito de Beatriz na palma de sua mão, e a resistência do Universo cedendo à sua súplica.

— Prepare a vigilância. — Ordenou Gabriel, sem abrir os olhos, sua estratégia. — A Fonte da Vida permanecerá segura. Se ela é um farol, eu serei a sombra que a esconde.

— O senhor será o fogo negro que a consome. — Corrigiu Aki, virando-se para sair. — Mas farei o que pede. Eu prometi a seu avô que cuidaria dos últimos Hazan. Eu já perdi seu pai, mas vou seguir o senhor para o inferno se for necessário, mesmo que seja para queimar o mundo e provar que tem razão sobre as cinzas. — Havia uma determinação frígida como o Ártico na fala de Aki.

O mordomo saiu, e Gabriel ficou sozinho com o tique-taque do relógio. Seu bisavô havia trazido o negócio de livros quando viera da Síria para o Brasil, e seu avô transformara o ofício do pai em um império global; mas ele nunca os conheceu, suas vidas ceifadas antes do tempo em acidentes mundanos.

Ele sabia que os Hazan sempre esconderam segredos, mas foi Samuel, seu pai, quem verdadeiramente os decifrou. Gabriel herdou esses segredos, inclusive aquele que cobrara a vida de seu pai há treze anos. Essa era a chave para reconstruir o mundo, reiniciar o próprio cômputo dos anos, uma segunda chance para poder fazer tudo certo.

E Gabriel desperdiçara sua herança com um vaso de qualidade inferior, ele fora irresponsável em sua empáfia. Ele olhou para as palmas das mãos, que agora pareciam carregar uma vibração invisível. Ele havia salvado Beatriz, mas, ao olhar para o vazio da sala, ele se perguntou se o preço daquela vida não seria, eventualmente, a destruição de tudo o que ele planejava construir, e mesmo de quem ele ousou tentar salvar do inevitável.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Capítulo 5: O Avesso do Nada

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O mundo de Bia se fechava, como um livro que o autor desistiu de escrever. O som foi o primeiro a ir embora. Gabriel gritou algo, não para seus adversários, mas para os Céus, e ela não entendia o que ele falava, mas sentia seu coração batendo forte contra o seu, protegendo-a, isso a deixava estranhamente feliz. E então foi a luz; aquela luz esmeralda tão forte dos olhos verdes do rapaz, emoldurada pelas flores douradas pintadas sobre o céu cor de chumbo, aquela luz se apagou.

Bia parecia flutuar, só ele e ela, e então só ela, as gotas gélidas lavando seu corpo, e sob ela a lama úmida e quente a abraçava, clamando seu retorno. “Era para ser quente assim?”, ela pensava, tentando encontrar uma narrativa no que, de outro modo, parecia uma história tão crua, tão banal.

E então foi como se ela tivesse mergulhado em um oceano escuro, gélido e ruidoso, sem um raio de luz ao qual ela pudesse se agarrar. Seu corpo formigava, e em sua mente ela se questionava “É assim? A morte?”, ela não via ninguém que a recebesse, que pudesse lhe dizer que está tudo bem. Aquele frio violento que queimara seu peito no momento do impacto deu lugar a uma dormência pesada, e havia uma gravidade que puxava sua consciência para o fundo de sua própria mente.

Bia sentiu a estrutura de quem ela era desmoronando. As memórias que ela guardava com carinho de seus pais, de quando ainda era muito pequena, o cheiro da comida de sua mãe, e as cantigas que seu pai cantarolava para afastar o medo da tempestade. As memórias de seus avós maternos, de aprender a pescar no barquinho do avô, aprender paciência, e de entrar em casa ensopada para exibir, orgulhosa, sua captura para a avó.

As memórias de seus anos como uma garotinha tímida na escola, se perdendo no estudo e no mundo de animes e mangás de romance shoujo. As memórias de Mariana, que a acolhera quando Bia chegou no colégio novo, calada e desajustada.

As memórias do vestibular, e daquele primeiro semestre da faculdade, aquele mundo novo que ela explorava com sofreguidão. Do esforço para desenhar perspectivas perfeitas na prancheta, ou personagens excessivamente airosos de histórias bobas para meninas.

Até mesmo as memórias da batida de seu coração, da batida do coração de Gabriel, tudo parecia se desfazer em fios de poeira prateada. Era essa a “ontologia da alma” de que Gabriel tanto falava? Em sua mente um tempo interminável se passou. E então algo a segurou.

Não eram mãos de carne. Era como se a própria escuridão ao redor dela tivesse sido agarrada e puxada de volta. A primeira coisa que voltou foi o som. Uma vibração ressoava através do seu nada, uma voz que não vinha de ouvidos, mas que vibrava diretamente nos ossos de sua consciência.

Ná! A palavra era uma súplica desesperada, uma prece que a realidade não conseguia ignorar. Ela pôde ver seu pai sorrindo para ela.

E então veio a luz. Primeiro uma luz vermelha como a alvorada, que esquentava seu corpo, chamando-a de volta. Essa luz foi crescendo, tornou-se áurea, a mãe de todas as luzes, e além dela Bia enxergava, com seus olhos ainda cerrados, o caos esmeralda, uma linha brilhante como o céu que se estendia de fora e circundava o globo de luz dourada que a envolvia e preenchia.

Por seus lábios entrou um alento que desceu até seu peito, e lá se tornou fôlego restaurado, reiniciando a vida que lhe fora interrompida. O novo ar em seus pulmões até então vazios se incendiava, uma chama acendida por uma centelha roubada dos Céus, proibida aos moradores da Terra, que com rapidez devolvia a vida a cada centímetro de seu corpo. Ela podia sentir a água que caía como lâminas sobre suas pernas, a lama pegajosa em suas costas, a dor da ferida aberta em seu peito esquerdo, a firmeza da mão de Gabriel, o corpo dele apertando contra o seu, as sensações retornavam como velhos conhecidos.

Naquele momento, Bia sentiu uma dor súbita e excruciante na altura de seu coração, como se milhares de agulhas de fogo costurassem seus nervos novamente. Onde antes havia a eternidade da morte, agora havia uma pressão insuportável, um abraço mão a mão, testa a testa, boca a boca. O peito ardia, não com o metal do estilete, mas com algo que parecia brasa viva sendo empurrado como um cateter para dentro de suas costelas.

Então ela abriu os olhos.


O céu de São Paulo não era mais cinza. Por um segundo, por entre as flores e através do véu da chuva, Bia viu padrões geométricos de neon riscando as nuvens, como se o céu fosse o croqui de um arquiteto rabiscado com luzes de todas as cores, prestes a ser apagado. As linhas que se formavam entre os objetos e espalhados no terreno baldio e os tapumes que lhe cercavam se transformaram na estrutura de um templo construído em sombras. Aquelas sólidas vigas de linhas paralelas e as perpendiculares que as adornavam se encontravam em ângulos que faziam sua cabeça girar, e no centro de tudo estavam ela e Gabriel, debaixo das flores do ipê amarelo.

Só então ela percebeu Gabriel debruçado sobre ela, sua mão pressionada contra o ferimento de seu peito. Foi naquele instante que Bia retornou a si, o coração batendo descontrolado em surpresa pela cena desenhada como um retrato à sua frente, um lapso dilatado desconfortavelmente entre o inspirar e expirar.

Gabriel se levantou como que saído de um transe. — Respire. — Ele comandou, a voz soando como o estalo de um trovão próximo que anuncia o fim de um céu ensolarado primaveril.

Bia inspirou mais uma vez. O ar entrou em seus pulmões, forçando para fora o sangue e a água que haviam invadido aquele espaço sagrado com a violência de uma explosão. Ela se arqueou, se segurando sobre seus cotovelos, tossindo sangue e água. A vida que lhe havia sido devolvida era corpórea, definida, concreta. O buraco na jaqueta jeans ainda estava lá, manchado de carmim, atravessando sua camisa e sua lingerie, mas a pele por baixo estava intacta, marcada apenas por uma cicatriz alva que parecia brilhar.

— Gabriel-senpai… Você… Você me… — Bia ergueu o braço em direção ao rapaz, como que pedindo seu auxílio, e tentou formular a frase, mas sua voz era um fio de seda.

Gabriel a olhava de modo circunspecto, o medo de antes ainda presente em seus olhos, como se ele a pudesse quebrar se a tocasse. Para Bia, ele parecia alguém que envelhecera mil anos em um só dia. Mesmo assim, ele esticou sua mão para ela e a ajudou a levantar, era um rapaz forte. Ela observou que sua camisa de seda estava arruinada, uma mistura de sangue e lama, e quando seus olhos procuraram pelo paletó atirado no chão, esse não estava em melhores condições. Ele respirava profunda e compassadamente, como se tentasse decifrar um mistério embrulhado num segredo.

— Senhorita Sato, você precisa ir para casa. — Ele disse bruscamente, a voz seca, uma barreira de gelo que o protegia do mundo, ou talvez fosse o contrário. Ele se recusava a deixar que os olhos afáveis dela se encontrassem com os seus. — Alguém deve estar esperando por você. — Ele parou para respirar, como quem fala de um conteúdo sobre o qual não estudou. — Sua família a aguarda. Vá embora.

— Gabriel, por favor! — Era o clamor de uma menina perdida num mundo que ela não conhecia. — O que foi aquilo? Eu… Eu morri, não morri? Eu senti o frio, eu vi a escuridão… Você me tirou de lá?

— Esqueça o que você acha que viu, Senhorita Sato. — Ele a interrompeu, a voz agora carregada de uma autoridade soturna, se erguendo num tom de advertência. — Para seu próprio bem, continue sendo apenas a caloura que teve um dia ruim na chuva.

Bia levou a mão ao peito, por cima da jaqueta rasgada. Dava para sentir o calor palpitante da cicatriz através do tecido, como se fosse um segundo coração que ela ganhara naquela tarde.

— Me explica, Gabriel! — A súbita valentia, ainda que acompanhada de olhos marejados, era inusitada na menina tímida, o que o desarmou por um instante.

— Você está viva. Não é suficiente? — Para ela, ele parecia perdido com as palavras pela primeira vez, a elegância habitual dele perturbada pela sua persistência. E ele apenas pôde voltar a insistir. — Seus pais estão esperando por você em casa, devem estar preocupados. — A voz dele abrandara, demonstrando um desvelo até então disfarçado por insensibilidade.

Um silêncio embaraçoso se seguiu. Os pais de Bia faleceram num acidente de carro quando ela ainda era pequena. Ela estava com os avós paternos naquela noite; era pequena demais para ter memórias claras. A avó tentava explicar para uma criança uma tragédia grande demais para se entender, o avô era um pilar de estabilidade em meio ao caos.

— E-eles morreram. Quando eu era pequena. — As lágrimas escorriam de seus olhos, rolando até suas bochechas onde se misturavam à chuva. Gabriel estancou, era apenas um rapaz de vinte e um anos de idade que não sabia lidar com aquela menina, parada a sua frente, chorando por seus pais. Ele a trouxera de volta para o mundo, e o mundo para o qual ele mandou que ela corresse não mais existia. Por dois minutos que duraram toda uma eternidade ele fitou os olhos marejados castanhos de Bia.

Ela soluçava sem qualquer reserva agora, inconsolada, tremendo não pelo frio da morte, mas pela crueza da vida retomada.

— Sinto muito. — Ele também havia perdido os pais, e aquilo lhe assombrava. Mas não era a mesma coisa. Naquele momento ela lamentava pelo paraíso perdido, um paraíso que ele nunca tivera, que ele sequer poderia compreender. Ela seguia em frente apesar da perda, ele ainda se vestia com o mesmo conjunto que seu pai trajava no fatídico dia de sua morte, um terno preto de alta alfaiataria e uma camisa negra de seda, uma armadura de um luto movido pela culpa, e não pelo pesar.

Bia queria dizer que não era nada, que estava tudo bem, mas simplesmente não conseguia, o coração não a permitia. Ela observou o rapaz dar um passo para trás, calado, e pegar seu paletó do chão. Com um gesto contido, quase mecânico, ele cobriu os ombros dela, escondendo a marca do ferimento e a nudez do rasgo na roupa. O tecido caro, pesado e enlameado, que cheirava a madeira e terra molhada, era o único consolo que ele se permitia oferecer. Bia se aconchegou no casaco que lhe foi dado, o pranto cedendo ante o curioso ato de bondade que gritava em meio ao silêncio constrangedor. Mas antes que ela pudesse agradecer, Gabriel reiterou sua demanda:

— Você deve ter alguém esperando por você, Beatriz. Seus tios, uma colega de quarto, um namorado? — A última conjectura a provocou. Gabriel não vira tudo que ela fizera por ele? Como ela o observava atenta desde o começo do semestre, tendo olhos só para ele?

— O quê? Não! Eu não tenho… Nunca tive… Ninguém… Assim.

— Você tem avós? — Ele não permitiu que ela concluísse sua reação a seu último questionamento.

— Só tenho os paternos. Meu ojiisan Seitoku, e minha obachan Yukimi. Eles são tudo o que eu tenho. — A garota falava a verdade, os avós paternos eram seu mundo, o porto seguro de tradições xintoístas silenciosas e cheiro de incenso que contrastava com a vida apressada da metrópole.

— Vá para a casa dos seus avós, Beatriz. — Ele disse com secura, resgatando sua frieza antecedente, exceto por um apelo fora do comum ao final. — Por favor.

Bia estava perdida, confusa, e tudo que ela conhecia já não parecia mais valer, mas Gabriel se recusava a dar-lhe uma resposta, fácil ou difícil.

— Ainda vamos nos encontrar, quando eu precisar de você. Mas não agora. Há uma vida que a espera. Vá vivê-la. — Ele se virou e se dirigiu para a saída, na brecha entre os tapumes. Ela agarrou suas coisas no chão, cobertas de lama e pétalas caídas, e correu atrás dele, mas antes de sair ele já havia desaparecido na névoa do agora chuvisco que cobria a cidade naquele começo de noite.

Na rua, ela apertou o paletó contra o peito, sentindo o ritmo de um coração que, por direito, não podia mais bater. Ela olhou para si mesma, enlameada, as roupas sujas de sangue; parecia um rabisco teimoso, feito com muita força, e que a borracha não podia apagar, mas deixava um borrão no papel a cada tentativa. Era o avesso do nada.

O céu de São Paulo voltara a ser cinza, escondendo as estrelas por trás de nuvens modestas e lacrimosas. O mundo ao redor dela parecia o mesmo, mas Bia sabia que a vida que a esperava já não seria mais a mesma de antes.

Capítulo 11: Traços Invisíveis