| Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda) |
Desde aquela fatídica sexta-feira à noite, Bia não conseguia parar de pensar no que acontecera e continuava acontecendo em sua vida.
Naquela manhã, ela repassava em sua cabeça tudo que ocorrera como quem tenta encaixar as peças de um quebra-cabeças incompleto. Tudo começou quando o cinza veio como uma bocarra aberta para consumir sua vida, como já ocorrera antes. Mas antes dela sentir seu bafejar, o verde e o branco vieram e empreenderam uma guerra nos céus e, no final, o cinza caiu.
Mas não foi só aquilo. Foi o silêncio incômodo que tomou conta da casa de sua família, o olhar gentil da avó que acolhia sem exigir uma explicação, os olhares duros do avô que cintilavam com um carinho que ele se recusava a transparecer, como se pretendesse condená-la com uma sentença que ele mesmo já reformara.
O próprio bairro pelo qual ela caminhara com os avós desde a infância, e mesmo sozinha depois de ficar crescidinha, parecia diferente. As ruas estavam todas em seu lugar, os prédios e as casas não mudaram de lugar. Mas as frestas que ela tinha aprendido a enxergar nos limites de sua visão estavam fechadas, dobradas como origami amassado.
Havia também um ar de paranóia que a acompanhava desde que passara dos limites da Vila Carrão, como se os estranhos com quem compartilhava o transporte público, e agora as próprias paredes do prédio da FAU, estivessem mais próximos do que o normal. Era como se a observassem com olhos que se recusavam a tocá-la, não por respeito, mas por medo de serem arrancados.
Na universidade, ela apertou o casaco utilitário amarelo pastel clarinho contra o corpo, como se o tecido a escondesse do que quer que tentava se aproximar. O moletom oversized bege, com um gatinho gordo bordado no lado esquerdo, a calça mom de jeans azul, até os tênis velhos, tudo parecia uma armadura fina demais contra a ameaça que ela sentia mas não podia ver. A fita verde brilhante prendendo o cabelo num meio-rabo era o único detalhe que ainda se recusava a se apagar, como se fosse um talismã de cetim.
Toda aquela estática que a perseguia desde a manhã não deixou que ela se concentrasse no fio da meada durante as aulas. Ela não podia parar de olhar pela janela e para os corredores do Vilanova Artigas, procurando por algo que não estava lá.
— Bia? Terra chamando Bia! — No intervalo, Mariana a tirou de seu transe com um peteleco brincalhão em sua orelha. Desde que entraram na universidade, ela era a única que sabia da paixonite obsessiva de Bia pelo rapaz Hazan. — Olha, eu sei que você tá mal desde o que aconteceu terça-feira passada. Parece até desalinhada. — Mariana sentou-se sobre a carteira da amiga, a legging preta contrastando com o bege da mesa, e soltou um longo suspiro. — Você sumiu, não atende o celular direito, não responde mensagens… Eu consegui uma coisa para você.
Bia olhou para ela, o coração saltou de surpresa e os olhos arregalaram de antecipação. Ela não sabia se seria algo bom ou ruim. — O quê, Mari? — A voz escapou num único fôlego.
— O contato do Hazan. A Bebê das Artes Plásticas tem um primo na Contabilidade que faz estágio na filial da editora da família dele, lá em Curitiba, e me passou. — Mariana deslizou pela mesa um papel escrito a caneta com o celular, exibindo um número de São Paulo. — Manda um “oi”, Bia. O não você já tem. Vai que ele é mais humano do que parece e se explica com você sobre o que aconteceu naquele dia? — O sorriso de Mariana era de compreensão sem entendimento, um pouco forçado, mas sincero. Bia sabia que aquilo não tinha vindo de graça para a amiga, mas também sabia que o presente era verdadeiro, sem custos escondidos para ela mesma.
Ela pegou o número com as mãos trêmulas e os olhos marejando. — O-obrigada, Mari… — O agradecimento saiu como um soluço enlevado, ao mesmo tempo grata e feliz pelo desenlace que enfim vislumbrava para sua situação.
— Você sabe que te amo, amiga! — Mariana soltou uma risada que quebrou a tensão daquele momento. — O Felipe já desceu, está na fila da lanchonete. Vamos? — Bia assentiu, levantando-se da mesa e guardando o papel escrito a caneta como um tesouro precioso.
Depois da aula, Bia estava radiante. Felipe tentou conter a menina quando ela já avançava pelo umbral da porta. — Bia, para onde você vai? Eu acompanho! — Mariana não se ergueu de sua cadeira, mas o brilho de seus olhos obstou a saída do rapaz da sala como se fosse uma pedra.
— Deixa Fê, ela precisa resolver isso sozinha. E quando ele quebrar o coraçãozinho dela, a gente tá aqui para colar os caquinhos. — Mariana tinha todo o comedimento de quem conforma-se a um resultado já assegurado.
Felipe parou sob o umbral, observando quieto Bia descer correndo as escadas do Villanova. — Ela não é mais uma criança, Felipe. Não é mais só nossa kohai. — A ponderação da ruiva era genuína, mas dilacerava o peito do rapaz como uma faca bem encravada.
Bia precisava agradecer Bebê, como era conhecida pelos amigos Bárbara Azura de Lira. A moça curitibana de dezenove anos tinha uma alma poética, e um guarda-roupa que a marcava como deslocada no tempo. Sempre gentil, sempre atenciosa, sempre pronta a ouvir, era como uma jovem mãe cuja própria fala tem a cadência de uma melodia de ninar, contrastando com a personalidade incandescente de Mariana.
Porém, antes de sair do prédio da FAU, seu peito começou a latejar, e o que ela viu a empurrou para trás de uma coluna do edifício, o rosto vermelho de indignação e vergonha. Debaixo da marquise estava Gabriel, com seu perpétuo uniforme composto por um terno preto e uma camisa de seda negra. Sua presença parecia dobrar o espaço ao redor, forçando a massa de estudantes a abrir espaço para ele.
Mas o que realmente pegou Bia de surpresa foi que com ele estava Bebê, com sua saia longa babada colorida e um casaquinho de crochê bege, a cabeleira bem preta presa num coque por um lenço que parecia ter dificuldades para segurar o peso dos cachos que teimavam em fugir de sua prisão, atirando-se para as costas de Bebê como cordas. E ela brilhava, brilhava intensamente, como o reflexo de uma lua cor-de-rosa na superfície de um lago cristalino coberto de neblina.
Eles conversavam como velhos conhecidos, ainda que a expressão corporal do rapaz permanecesse contida, reservada, os ombros rígidos como se carregasse o peso do mundo inteiro.
“Ele nunca fala com ninguém! E agora os dois parecem que se conhecem há anos! A Bebê é a namorada dele? Ela quer que ele me dispense?” A torrente de pensamentos não dava trégua, mas Bia não era uma heroína de shoujo, nem Gabriel era seu mocinho. Ela beliscou com força a bochecha, até sentir machucar, puxando a si mesma de volta para a realidade. “Pára de ser boba Bia! Ele só deve ter pedido pra Bebê passar o contato porque a Mari odeia ele. Ou então… A Bebê sabe algo que eu não sei.”
Bia tentou entrever o par sem sair de seu esconderijo, ela temia que eles a captassem ou, pior, que o olhar de Gabriel pudesse ler os devaneios que se intrometiam sem permissão em sua mente febril. Quando ele atirou para ela o olhar agudo como flechas na direção dela, parecendo segurá-la pela fita verde em seu cabelo, a menina envergonhada e desnorteada saiu correndo, precisava voltar para a rotina confortável de seu lar logo. Não era como em seus mangás e animes, mas seu coração não lhe permitia evitar reagir como se fosse.
Em casa, depois de ajudar a avó com a louça do almoço, Bia passou o resto da tarde no quarto. A luz do sol atravessava brandamente os vidros da janela, adquirindo um matiz amarelado ao passar pelas flores do ipê que protegia o quarto da garota. Ela se sentia sozinha no mundo, sem saber o que fazer, e exausta demais para abrir o caderno e iniciar o trabalho da faculdade.
Sua alma era o palco de uma batalha interna que vinha se arrastando desde o meio-dia. — Vocês não desistem, né? — Ela falou baixinho com seus pôsteres de anime. — Eu também não. Eu preciso saber o que houve naquele dia! — Os olhos dela faiscavam de determinação. Ela sabia em seu âmago que Gabriel a protegia, e a seu modo se importava com ela.
Apesar do peso conjunto das palavras duras do avô na sexta-feira, do fim de semana silenciosamente constrangedor em casa, da paranóia constante que a acompanhara desde o transporte público de manhã, dos ciúmes que sentira ao ver Gabriel conversando com Bárbara, a fome por respostas diante de sua conjuntura aparentemente impossível era mais forte, e parecia engolir tudo que se interpusesse em seu caminho. O sol da tarde já estava cansado quando, brigando com as mãos que não queriam obedecer, Bia mandou uma mensagem para o número em nome de Gabriel:
Sou eu, a menina daquela terça-feira à tarde. Precisamos conversar sobre o que você fez comigo.
As palavras eram mais ásperas na mensagem que na cabeça de Bia. Ela correu para apagar a mensagem, mas a resposta se atravessou no caminho, chegando quase de imediato. Era objetiva, minimalista. Exatamente como ela supunha que seu “príncipe” escreveria:
Parque do Ibirapuera. Hoje, oito da noite. Banco perto do lago. Sozinha. Não conte a ninguém.
Bia sentiu o corpo estremecer por inteiro, uma mistura de emoções que não deviam compartilhar o mesmo espaço, como se ela fosse um ônibus matinal muito cheio. Naquele horário, o parque se tornava deserto e perigoso, mas, de algum modo, o ambiente noir combinava com a sofisticação de Gabriel, o rapaz que habitava um mundo tão distinto do dela. Parecia romântico de todos os jeitos certos.
Ela saltou da cama como se a resposta de Gabriel a empurrasse. Precisava se arrumar para o encontro, selecionar uma boa roupa, tomar banho. E precisava de uma boa desculpa para sua obachan.
— Obachan! — Ela gritou do quarto, a voz retomando a energia de exatamente uma semana atrás, antes daquela terça-feira. Mas as palavras seguintes não queriam sair.
— O que foi, Bia-chan, querida? — A voz de Dona Yukimi subiu da cozinha, trazendo junto a doce senhora com cheiro simples do chá adoçado com açúcar. Ela se sentiu apurada pela lenta aproximação da avó carinhosa que sempre a acolhera.
— A Mari quer que eu veja uma coisa… — O engodo pesou em seu estômago como se ela engolisse bolas de chumbo, mas a necessidade de ver Gabriel era um ímã que ela não conseguia ignorar. “Eu preciso entender o que foi aquilo.” sua mente ecoava como se estivesse perdida em corredores estranhos de ruínas de templos derrubados pela história.
Antes de iniciar o ritual de arrumação, ela pegou a correntinha de prata e o relicário oval metálico com a foto de seus pais sobre a escrivaninha. “Por favor venham comigo… Otosan e okasan!” Ela precisava se preparar para todo o peso da verdade desmoronando sobre ela, e sentiu que assim, naquela hora que se aproximava com o tique-taque do relógio, ela estaria amparada.
Bia chegou um quarto de hora adiantada no lugar marcado. O mesmo casaco amarelo clarinho da manhã agora cobria um moletom cropped lilás claro de manga longa, com um coração de lantejoulas brancas do lado esquerdo, com uma camisa branca básica por baixo, e uma bolsa tiracolo preta cruzando sua figura. A calça jeans era similar à anterior, um pouco mais escura, mas os mesmos tênis e a fita de cetim verde no cabelo continuavam a lhe acompanhar, como amigos inseparáveis. Amarrado na alça do cinto e guardado cuidadosamente no bolso estava o omamori En Musubi, que ela trouxe quase que por impulso, sem pensar muito a esse respeito. A maquiagem suave realçava a frágil inocência de seu rosto, sem esconder nada.
O ar noturno do outono era refrescante, e uma brisa suave soprava entre as árvores do parque, que pareciam um mar verde escuro balançando suavemente sobre o leito do firmamento. Bia podia entrever as estrelas acima, por entre os galhos escuros das árvores, não eram muitas, mas eram mais que entre as luzes artificiais que não davam descanso real à cidade. Mesmo o grasnado da gralha-do-campo não a perturbava. Dessa vez, ela não encontraria Gabriel sob um ipê-amarelo.
Ela se sentou no banco próximo ao lago, com o paletó de Gabriel no colo. Ela pretendia o devolver como um agradecimento inicial, “Para quebrar o gelo,” pensava, a mão inconscientemente buscando o omamori no bolso. A luz da lua minguante refletia na superfície espelhada da água, que emanava uma névoa translúcida como sonhos românticos que atravessava as frestas que sulcavam a paisagem. “É a hora da verdade!” seus pensamentos afirmavam com uma determinação que o coração não acompanhava.