terça-feira, 9 de junho de 2026

Capítulo 6: O Fardo da Onipotência

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Após resolver seus negócios, Gabriel partiu com urgência. A cidade seguia seu ritmo impassível, ignorando propositadamente o mandamento absoluto transgredido com completo desacato em seu coração. Gabriel andou de volta até a avenida como um fantasma entre os paredões de aço e concreto que se amontoavam à beira da calçada. Os faróis dos carros cortavam o cinza em lampejos de luz artificial que faziam o sangue em suas mãos parecer, por breves instantes, mercúrio negro.

Ao chegar na avenida, Gabriel não chamou seu chofer de volta, tampouco pegou um táxi. Ele caminhou sob o chuvisco por quilômetros, ignorando os olhares curiosos dos pedestres que viam um jovem de camisa de seda negra, completamente encharcada, e com expressão apática, vagando pelas rígidas calçadas de São Paulo.

A água não conseguia lavar o sangue de Beatriz das suas mãos, mas pior era o rastro místico do que fizera, que se apegara à sua alma como piche. Ele não estava abatido pela luta, mas pela falha, por ter se deixado distrair por aqueles olhos castanhos e amendoados, e ter sacrificado a herança de seu pai para corrigir seu erro, deixar que um inocente morresse em sua guerra particular. Cada passo era uma luta contra a força terrível que ele exigia de si mesmo.

Ao entrar no hall de mármore translúcido do edifício desenhado em art déco, o silêncio do condomínio de luxo o atingiu como uma bofetada, contrastando com o lamento baixinho da água que sussurava ao cair dos céus do lado de fora. O segurança noturno desviou o olhar, treinado para nunca questionar o estado em que as deidades retornavam para seus olimpos de vidro.

Dentro do elevador, o painel digital marcava a ascensão enquanto o reflexo de Gabriel no espelho cristalino parecia se desintegrar. Ele observou a si mesmo, e a imagem lhe repugnou: a camisa cara empapada de água e sangue, grudada ao peito como uma segunda pele morta, e a palidez de sua tez contrastando com o escarlate seco em suas mãos e sob as unhas. Ele não era um salvador; era um usurpador que acabara de roubar a soberania da morte.


Quando finalmente terminou sua subida e entrou na cobertura, a camisa de seda negra agora arruinada — uma de muitas, todas idênticas — pesava como uma armadura de chumbo. O luxo do salão de entrada do apartamento, com seus móveis de design exclusivo e obras de arte discretas, afrontava a sujeira que ele carregava consigo.

Joakim “Aki” Virtanen o esperava no vestíbulo. Ele não segurava uma toalha ou uma bebida quente; segurava um cronômetro e um mapa estelar impresso. O velho finlandês não moveu um músculo sequer ao ver o estado deplorável do jovem patrão, mas seus olhos azuis, gélidos e penetrantes, varreram cada rasgo no tecido e cada mancha de lama deixada pelos sapatos no mármore italiano.

— O senhor demorou dezessete minutos a mais do que o cálculo de contingência permitia, Senhor Hazan — disse Aki, a voz seca como papel antigo, sem qualquer traço de alívio. — E o senhor cheira a entropia revertida. É um odor ofensivo para as leis da física.

Gabriel passou por ele sem dizer nada, deixando um rastro de água suja. Ele foi direto para o escritório, um santuário de carvalho e couro com piso variegado em xadrez onde o silêncio era interrompido apenas pelo tique-taque de relógios de precisão. Na parede da frente, transformada em quadro negro, plantas baixas e desenhos técnicos de catedrais nunca construídas conviviam com mapas estelares. Nas estantes que ladeavam sua escrivaninha de jacarandá-preto, instrumentos técnicos antiquados e modernos disputavam o pouco espaço restante com livros cuidadosamente catalogados, incluindo edições raras de textos esquecidos, bem como manuscritos e incunábulos supostamente perdidos.

Fechando as paredes, a janela de trás, com seu vidro grosso e bem transparente, exibia a cidade como um quadro pintado à mão. Dois enormes globos, um terrestre amarelado e um celeste esverdeado, se situavam no centro da sala, sustentados por suportes massivos. Naquele momento, a luz das luminárias de design industrial não só iluminava, mas revelava o asseio com que o cômodo era mantido, pois não havia poeira alguma sobre os móveis.

Finalmente o corpo de Gabriel cedeu ao cansaço e ele desabou na poltrona, as mãos ensanguentadas tremendo sob a luz fria da sala. A harmonia do ambiente estava quebrada por sua presença poluída.

— Os capotes cinzentos dos Arcontes me encontraram. — Disse Gabriel, a voz rouca, recusando-se a olhar para o mordomo. — No terreno baldio da Rua Santo Acácio. Estavam me monitorando.

Aki entrou no escritório, fechando as portas com um clique definitivo. Em seguida, ele se aproximou da mesa, observando Gabriel com uma severidade que apenas alguém que vira gerações de homens cometerem os mesmos erros poderia possuir.

— Os capotes cinzentos são um problema de logística, Sr. Hazan. Sua chegada já era esperada. Eles podem ser neutralizados ou realocados. O que eu sinto emanando do seu corpo, entretanto, é um problema de arquitetura. O senhor mexeu nos alicerces do que é irrevogável, conjurou um poder que a magia é incapaz de alcançar.

Gabriel levantou o rosto, os olhos verdes tentando esconder um segredo de alguém que podia lhe ler como a um livro aberto. — Uma garota… Uma caloura do curso de Arquitetura. Ela me seguiu, e eu me distraí.

Aki permaneceu posto em silêncio, paciente como um velho e sólido carvalho, olhando para as mãos enodoadas de carmim de seu jovem mestre. Ele o contemplava com toda a inclemência de um pai que sabe que seu filho mente, e aguarda ouvir a verdade, não para fazer as pazes, mas para aplicar a justa punição. Gabriel não conseguia se esquivar.

— Ela foi atingida pelo estilete, e morreu em meus braços. Eu senti o exato momento em que sua estrutura desmoronou. O fôlego dela escapou de suas narinas, eu pude sentir o peso do corpo dela mudar.

— E, no entanto, o senhor não está de luto. — Aki observou, sua voz ganhando um tom mais cortante, quase cruel. — O senhor está exausto. — Aki aguardou um instante antes de continuar. Ele lia as palavras invisíveis, inexprimidas, na fronte de seu amo.

— O senhor tomou a herança de seu pai e a depositou em um vaso inadequado. Uma civil? Uma garota que ainda não alcançou os vinte e um anos de idade? Que não possui a geometria necessária para suportar o que o senhor forçou para dentro dela? A Fonte da Vida é um tesouro único, que você desperdiçou. Isso não foi um resgate, Gabriel. Foi uma irresponsabilidade monumental.

— Eu não podia deixá-la morrer! — Gabriel levantou a voz, o corpo ficando ereto na poltrona como se quisesse se levantar. — Eu nunca deixei nenhum inocente morrer desde que assumi este lugar. Eu não sou como o meu pai, Aki. — Pelo tempo de uma oração ou duas, seu timbre ganhou uma cadência sussurrada. — Ele passou seus últimos anos estudando a Fonte da Vida, e mesmo assim não conseguiu sustentar a própria vida. Se eu vou retificar o mundo, eu não posso permitir mais uma rachadura em sua estrutura! — Em sua última frase ele recuperou o tom inicial.

Aki não recuou. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância até que sua sombra cobrisse o rosto de Gabriel.

— Esse é o seu erro. O senhor se acha onipotente. — Disse o velho, com uma calma que era pior do que um grito. — O senhor acredita que pode carregar o peso do mundo nas costas e redesenhar a realidade conforme sua conveniência ética. Ao ressuscitá-la, o senhor não a salvou, mas a condenou a ser um farol para nossos inimigos. O senhor vinculou uma alma inocente a um projeto de destruição, deu a ela uma vida que não é dela, um empréstimo da sua própria arrogância. E o mais grave de tudo, o senhor colocou em risco o próprio projeto de retificação.

— Eu assumo a inteira responsabilidade por ela. — murmurou Gabriel, voltando a se sentar, envergonhado por sua precipitação.

— Sua culpa não é uma moeda de troca no cosmos, Gabriel. O senhor ambiciona ser o Arquiteto do Universo, responsável por projetar a retificação, o Mundo Vindouro, mas esquece que até as catedrais mais belas desabam se o solo não for firme. Aquela menina é barro comum. O senhor soprou o Fogo Divino nela apenas para aplacar o seu próprio pavor de perder. Mas ela vai quebrar, e quando quebrar, o senhor terá o sangue dela nas mãos pela segunda vez. Só que, da próxima vez, não haverá retorno, pois o senhor extraviou a Fonte da Vida.

Gabriel fechou os olhos. No escuro de sua mente, ele ainda sentia o calor macio do peito de Beatriz na palma de sua mão, e a resistência do Universo cedendo à sua súplica.

— Prepare a vigilância. — Ordenou Gabriel, sem abrir os olhos, sua estratégia. — A Fonte da Vida permanecerá segura. Se ela é um farol, eu serei a sombra que a esconde.

— O senhor será o fogo negro que a consome. — Corrigiu Aki, virando-se para sair. — Mas farei o que pede. Eu prometi a seu avô que cuidaria dos últimos Hazan. Eu já perdi seu pai, mas vou seguir o senhor para o inferno se for necessário, mesmo que seja para queimar o mundo e provar que tem razão sobre as cinzas. — Havia uma determinação frígida como o Ártico na fala de Aki.

O mordomo saiu, e Gabriel ficou sozinho com o tique-taque do relógio. Seu bisavô havia trazido o negócio de livros quando viera da Síria para o Brasil, e seu avô transformara o ofício do pai em um império global; mas ele nunca os conheceu, suas vidas ceifadas antes do tempo em acidentes mundanos.

Ele sabia que os Hazan sempre esconderam segredos, mas foi Samuel, seu pai, quem verdadeiramente os decifrou. Gabriel herdou esses segredos, inclusive aquele que cobrara a vida de seu pai há treze anos. Essa era a chave para reconstruir o mundo, reiniciar o próprio cômputo dos anos, uma segunda chance para poder fazer tudo certo.

E Gabriel desperdiçara sua herança com um vaso de qualidade inferior, ele fora irresponsável em sua empáfia. Ele olhou para as palmas das mãos, que agora pareciam carregar uma vibração invisível. Ele havia salvado Beatriz, mas, ao olhar para o vazio da sala, ele se perguntou se o preço daquela vida não seria, eventualmente, a destruição de tudo o que ele planejava construir, e mesmo de quem ele ousou tentar salvar do inevitável.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Capítulo 6: O Fardo da Onipotência