terça-feira, 11 de agosto de 2026

Capítulo 15: Perspectivas

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

O céu da manhã de terça-feira de outono era um azul metálico opressivo, como se o sol houvesse banido as nuvens que poderiam esconder Bia de seu olhar impiedoso. A cicatriz em seu peito se tornara um metrônomo cujo pulso marcava o ritmo de sua nova e estranha vida, pulsando em uníssono com o estresse.

Os passos dela nos corredores do Vilanova Artigas eram curtos e tímidos; ela se movia sem fazer barulho, como pisar com mais força fosse quebrar o prédio e soterrar todos que se encontravam nele. Sua própria roupa parecia pesar: jaqueta anorak azul-marinho com a touca puxada sobre o coque baixo, camisa preta básica por baixo, calça cargo igualmente preta, e os tênis converse All Star surrados de sempre. Ela carregava sua pasta portfólio A2 como um escudo escondendo metade de seu rosto, quando Mariana a interpelou na entrada da sala.

— O que aconteceu ontem, Bia? A Bebê apareceu na saída perguntando por que você saiu disparada! Você não leu nenhuma das minhas mensagens ou do Fê! E agora você tá parecendo um zumbi! — A amiga a pressionava sem dar espaço para respiro; ela estava claramente zangada, mas mais por zelo que por raiva. — Eu já tava achando que você tinha sido sequestrada!

— Tá tudo bem, Mari… Eu só… — Bia começou a responder, a voz saindo num sussurro tragado pela acústica do prédio da FAU, quase se perdendo no eco dos estudantes conversando antes da primeira aula começar. Ela respirou profundamente, como que para tomar para si a coragem de sua melhor amiga. — Desculpa não ter respondido. — Bia se curvou num gesto automático, a touca de sua jaqueta anorak azul-marinho tapava a visão do rosto dela. — Foi impulso… Eu só queria me arrumar e encontrar ele… Só isso.

— Encontrar “ele”? — Mari arqueou as sobrancelhas e ergueu o canto dos lábios, numa expressão que misturava curiosidade, triunfo e traquinagem, o que deixou Bia tão desconsertada que seu rosto virou um pimentão. — E então? Desenrola tudo! — Mariana radiava. — Você correu metade da cidade para encontrar o seu príncipe? — A pergunta era carregada de implicância e estima dum jeito que só Mariana conseguia fazer. — Como foi o encontro? Foi num bistrô italiano daqueles chiques nos Jardins? Ou num sushi bar com reserva para daqui a seis meses? Dizem que gente rica adora comida japonesa, né?

Bia sentiu o estômago dar um nó. Gabriel sentado no chão com o braço todo ensanguentado coberto em retalhos de seda negra, a atadura improvisada que ela fizera com sua fita e que agora parecia tão imprestável, e o homem com os olhos que pareciam dois icebergs sentenciando sobre seu futuro, era tudo tão vívido que parecia que ela nunca tinha saído daquele momento. E ali estava Mari, a sua frente, quase rindo de entusiasmo.

— Não foi nada disso, Mari. A gente… A gente só se encontrou no Ibirapuera. Foi rápido. — Ela não queria decepcionar a amiga, mas não podia contar o que acontecera. Que caíra numa armadilha armada por caras que nem pareciam totalmente humanos e sangravam fuligem, que Gabriel quase perdera o braço tentando a salvar, ou que agora ela era a Fonte da Vida… Seja lá o que isso significava.

— Mas que pão duro! — Mariana urrou! — Me diz que depois ele te deixou em casa num carrão importado! Porque se ele te fez andar de ônibus depois daquele gelo todo, eu vou pessoalmente no nono período chutar as canelas dele! — Bia podia ver sua amiga brilhando num vermelho intenso, como se pegasse fogo. Ela precisava apaziguá-la de alguma forma. Só não sabia como.

— Não teve carrão. — Bia desviou o olhar para um pilar de concreto próximo. — Foi… Confuso. Ele é muito mais complicado do que eu imaginei. Aconteceram coisas que eu ainda não sei como explicar.

— “Complicado,” é? — Mari voltou a sorrir torto. — “Complicado” é apelido para “quero mais e não sei como pedir”, Bia! Mas agora é hora da “imouto” escutar sua “one-san”… — Os apelidos do ensino médio soavam tão “vergonha alheia” que Bia teve de se esconder ainda mais atrás da pasta A2. — Garotos ricos assim às vezes acham que o mistério compensa a falta dum Uber Black.

Felipe, que estava encabulado ao lado de Mari escondendo metade do rosto atrás de sua própria pasta A2, limpou a garganta. — Mari, talvez ela só não queira falar sobre…

Shiu, Felipe! Tô dando uma consultoria de vida aqui — Mariana o calou com um gesto de mão, voltando-se para Bia com uma seriedade súbita. — Escuta bem, amiga. — A voz dela baixou de repente. — Eu sei que para você ele é o “gênio incompreendido do nono período” e tem aquele jeitão de quem já viu de tudo, mas não vai caindo nos lençóis dele de bandeja, não. Homem desse tipo não dá valor quando recebe tudo fácil. Tem que fazer ele suar. Tem que fazer ele entender que para entrar no seu mundo, ele tem que ralar o joelho no asfalto.

Bia soltou um riso triste, quase inaudível. Ela pensou na fita de cetim verde manchada de sangue que ficara com ele.

— Eu acho que o problema é o contrário, Mari — murmurou Bia, forçando um sorriso amarelo, e os olhos lacrimejando levemente, enquanto o sinal para a aula ecoava pelo prédio como o gongo dum templo. — Eu é que entrei no mundo dele. E não tem uma saída.


Depois da aula, Bia correu para a Biblioteca Florestan Fernandes. Era uma catedral que exigia respeito na forma de silêncio absoluto. Beatriz estava cercada por uma muralha de papel que ela mesma erguera sobre a mesa de madeira. Diante dela, uma confusão de volumes de religião, esoterismo e filosofia.

Conforme Gabriel havia lhe orientado na noite anterior, ela procurou em especial uma Bíblia para ajudar em seus estudos, mas havia dúzias de versões e respectivas abreviaturas para as classificar. Com ajuda duma bibliotecária, ela pegou várias versões da Bíblia; algumas mais acadêmicas, e algumas judaicas.

Sem saber por onde começar, ela pegou: a Bíblia de Jerusalém de capa marrom; uma Bíblia de estudo de capa de courino vermelho; um robusto mas já bem velho volume em capa azul empoeirada intitulado Tanakh, em inglês e hebraico; e dois exemplares da Torá com capas de azul profundo, um em português subtitulado “A Lei de Moisés”, e outro em espanhol, denominado “El Jumash”. Para ela, pareciam todos iguais.

Como xintoísta, ela compreendia a reverência ao antigo, mas a centralidade absoluta que Gabriel dera àquelas páginas a atordoava. O sagrado para ela sempre fora algo vivo, presente na purificação e no altar simples de seus avós; ali, no entanto, tudo parecia codificado em uma fortaleza de tinta.

Ela sabia, de forma vaga, que a gente dele guardava um Deus único, como os cristãos, mas ainda esperava por um messias. Era essa a porta que, em sua simplicidade, ela tentara abrir ao acender velas na sexta-feira, esperando encontrar um caminho para o mundo de Gabriel. Mas, agora, diante daquela profusão de alternativas, a porta parecia pesada demais para as suas mãos.

Ela folheava o Tanakh com os dedos trêmulos. As letras hebraicas eram glifos angulares, coroados e sublinhados por uma miríade de pontos e traços minúsculos que pareciam formigas marchando em uma ordem rígida. Aquilo era muito diferente dos kanjis que ela conhecia; não havia a fluidez do pincel, apenas uma geometria que a fazia se sentir analfabeta.

— O Gabriel disse que os segredos do mundo estavam gravados aí, escondidos por uma fórmula matemática… Então isso deve ser a base de tudo. — sussurrou para si mesma, tratando os volumes com um respeito quase religioso.

Ao se preparar para sair, ela juntou as Bíblias selecionadas, acrescentando quase que por impulso um volume de capa preta e dourada chamado O Poder dos Arcanos e a Sorte Cigana que encontrara na seção de esoterismo — parecia sério e falava de símbolos, talvez ajudasse. Quando se levantou, cambaleando com o peso dos livros, uma sombra se projetou sobre a mesa.

Bebê estava parada ali, com as mãos nos bolsos duma calça de sarja larga. Tinha a pele morena bronzeada e uma linda cascata de cachos pretos fechados que emolduravam o rosto. Vestia uma bata indiana leve da cor da terra, mas seus olhos escuros estavam fixos na pilha de livros com uma seriedade que não condizia com o ambiente universitário.

— É perigoso carregar tanto peso duma vez, Bia. — A voz de Bebê era baixa, com uma ressonância que parecia vibrar no ar. Ela parecia analisar Bia com os olhos, de cima a baixo.

Bia teve um sobressalto, mas logo se recompôs. “Então ela é a namorada dele mesmo? Finge demência, Bia!” Ela fez um leve meneio com a cabeça, um gesto automático de sua vida familiar, mas seus ombros pareciam carregar um peso excessivo para um cumprimento tão simples.

— Bebê! Muito obrigada por ter se preocupado comigo ontem. — Disse ela, segurando os livros contra o peito. — Sobre aquela hora… Eu estou bem. Depois eu falei com o Gabriel e ele cuidou de tudo! — Ela abriu um sorriso de agradecimento tão sincero que poderia até mesmo fundir o coração de seu avô.

Bebê não sorriu. Ela deu um passo à frente e Bia sentiu um súbito calor emanar da luz rósea que circundava a amiga, como se o ar ao redor dela estivesse mais denso, como o calor duma tarde de verão sem vento.

— Ele cuidou? — Bebê parecia olhar para dentro da alma de Bia, e depois olhou para os livros. Bia precisava se justificar de alguma forma. Ela não roubaria o namorado da amiga! Ela precisava duma explicação rápida, mas ela não sabia se podia falar para Bebê que o rapaz era um mago, ou que a ensinaria magia.

— É que… Bem, eu não queria ser um incômodo, sabe? Eu vi o tanto que vocês são próximos. E eu só pedi ajuda com um trabalho… Só isso. Um trabalho sobre arquitetura antiga, e ele… Ele sugeriu alguma coisa sobre… Uhm… Templos judaicos. Sinagogas, né? E eu… Eu pedi uns materiais de pesquisa para entender… E ele me passou esses… — As orelhas de Bia queimavam tanto que pareciam se enrolar em si mesmas. Ela nunca vira Bebê tão séria, e sentia que não fora convincente. — Por favor… E-eu não tô tentando me meter entre vocês… — Ela baixou a cabeça, sem jeito, os olhos quase explodindo em lágrimas.

— Ele não é nada meu, Bia. Nunca foi. Eu só vim aqui te avisar. — A voz de canção de ninar de Bebê parecia agora um aviso sombrio, soava taciturna como se ela estivesse em um velório. — Essas páginas dizem a verdade, Bia. Eu também já estive debruçada sobre elas. Mas elas são um fogo que consome, e o Gabriel não vai te puxar para a segurança quando você se queimar.

Bia recuou um passo. Aquilo não era conversa de vida universitária, e isso a assustava. — O-o que você quer dizer, Bebê?

— Esse caminho pro qual o Gabriel te arrastou, é um caminho de luz, intensa e pervasiva. Mas essa luz arde, porque é real demais. E o Gabriel, ele tá machucado demais, e se acostumou. — Bebê não revelava tudo que sabia, mas sua voz recuperou a melodia. — Só toma cuidado, tá, meu doce! Você tá entrando num incêndio, se chegar perto das chamas, você vai se queimar. E tem gente que acha que se queimar é parte do processo.

— Eu não tenho escolha, Bebê. Eu já tô dentro. — Bia disse, olhando nos olhos de Bebê, mas ainda de cabeça baixa.

Bebê suspirou, e pareceu brilhar repentinamente com uma intensidade que afugentava a escuridão, e a própria energia a seu redor parecia se acalmar. Seu sorriso era aconchegante como um colo de mãe. — Eu sei. Não vou impedir. Mas fique sabendo que, quando o calor for demais e você sentir que vai derreter, eu estarei por perto.

A moça morena de cabelos cacheados abraçou Bia por entre os livros, e deu um beijo na sua testa, deixando uma marca de calor residual na pele da menina. Em seguida, ela saiu em direção à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, deixando Bia sozinha com seus livros de letras estranhas. Ela tinha medo, sabia que havia mais em Gabriel do que ela imaginava; mas a conversa de Bebê a deixou aliviada, sobre o mundo em que ela estava entrando, e sobre o próprio Gabriel. Agora, Bia só precisava passar no Parque Ibirapuera para encontrar algo que perdera, e de lá iria direto para casa.


O cheiro de gohan fresco e o som abafado da televisão na sala eram âncoras duma normalidade fora de lugar. Beatriz entrou em casa quase sem fazer barulho, trocando o sapato pelo chinelo de casa com toda cautela. Todavia, o peso da mochila com os cinco volumes bíblicos e o livro de "Sorte Cigana" faziam suas costelas gritarem a cada passo. No parque ela não encontrou o que procurava, mas ela se explicaria para Gabriel depois.

Tadaima… — murmurou, tentando deslizar para o corredor como uma sombra.

Okaeri, Bia-chan! — a voz da avó veio da cozinha. — Como foi com a Mari-chan ontem? Você estava tão apressada ontem. Conseguiram ver o que ela pediu?

Bia congelou. A mentira da tarde anterior, de que correra para ajudar a amiga, parecia um rascunho malfeito. — Foi… Tudo bem, obachan. Coisa de faculdade. E-eu… Já desço para ajudar a senhora, só deixa eu primeiro deixar uns materiais no quarto.

Ela escapuliu para o quarto, jogou a mochila em cima da cama e a cobriu com a colcha. Parecia estar escondendo um pecado. Em seguida ela passou no banheiro, limpou o rosto e voltou para a cozinha para ajudar a avó a terminar o preparo do jantar, sem entretanto pronunciar uma palavra. Sua cabeça dava voltas, mas sua avó respeitava o silêncio, como se picar as verduras juntas fosse em si uma forma de conversa.

A faca afiada cortava o nabo sem resistência, o fio refletindo a luz branca da cozinha. Ela observava aquilo, lembrando as últimas palavras de Aki antes de ir embora. A senhorita não é uma convidada. Se deseja continuar existindo neste mundo, precisará o entender. O preço da ignorância, a partir de agora, é a extinção.”


Após terminar seus afazeres domésticos, Bia subiu numa só carreira para seu quarto. Havia um tempo antes do avô chegar para o jantar. Ela puxou o exemplar da “Lei de Moisés” da mochila, sentou-se sobre a cama, pulou o prefácio, a introdução, algumas bênçãos que ela não entendia para que eram, a introdução ao Gênesis, e abriu o livro na primeira página do texto propriamente. Ela imediatamente sentiu o impacto da incompreensão.

“No princípio criou Deus os céus e a terra.”

Ela olhou para o texto original na página ao lado. Parecia estar alinhado para direita. “Deve ser tipo um mangá,” ela pensou, franzindo a testa. Ela tentava adivinhar o significado daqueles glifos estranhos.

Chichi… Pai… Mas acho que será um. Repete duas vezes, que nem o número um no outro lado. Parece ser o capítulo e o verso. — Ela pensava em voz baixa, como se fosse algo muito difícil para manter só na sua cabeça. — Depois essa letra, é grande… — Ela olhava para a letra, um bloco quadrado, aberto na esquerda, com uma base sólida. — Parece um ko de katakana, mas fechado demais. Será um “C” ao contrário? Ou um pote? Ko tipo uma criança? Ou um “A”? O livro deles deve começar com “A”, né?

A testa criava rugas de tanto que ela franzia o cenho, como uma arqueóloga tentando decifrar hieróglifos antigos sem uma pedra de roseta. — E depois… Parece um tsu, ou talvez um u, de hiragana, mas desenhado na régua… — Ela insistia naquele absurdo. — E agora… Chichi de novo? Kotsu hitotsu? — E então, o absurdo se tornou patente demais para ser ignorado. Os olhos marejaram e ela meneou a cabeça de um lado para o outro em frustração. — Doushitara iino!?

A garota resmungou, a frustração subindo pelo pescoço, e se jogou no travesseiro. “Você é burra, Bia? Que que você tá tentando ler aqui?” Nesse instante, seu celular tocou. Fazia tempo que ela não prestava atenção nele, mas agora, ela precisava parar para ver.

Era uma mensagem de Mari.

“Minha bebê do coração! Não perguntei antes, mas agora desembucha! Teve beijo? Foi seu primeiro!? Tô chorando aqui de emoção! Nem vem com ‘foi rápido’ que eu sei que foi um evento histórico para você!! Vê se me lê e responde, amiga! Me conta tuuudoo antes que eu vá aí te chacoalhar e te obrigar a falar! Por favorzinhooo!! Beijos da sua onee-san!”

Ela lembrou do dia em que ela voltou. Os lábios dele selando os dela, as testas se tocando, a mão sobre o peito dela… Então ela olhou para seu próprio corpo e se sentiu inadequada, ela não tinha as curvas de outras garotas de sua idade, ela não era como a Mari e a Bebê.

O rosto de Bia começou a esquentar, primeiro as bochechas, então as orelhas, então o pescoço inteiro, e então a frustração explodiu como um vulcão adormecido a tempo demais. Ela jogou o celular sobre o colchão, fechou o livro num só movimento, e começou a se debater na cama como se fosse uma personagem de anime em um surto colérico, chutando o ar e afundando o rosto no travesseiro para abafar o grito de raiva.

— Que ódio! Por que tudo nele tem que ser um enigma?! — Ela rosnou agudo, a voz abafada contra a fronha. — Por que ele não pode ser só um namorado normal? Por que não pode ser só um cara que me leva pro cinema e me dá um beijo sem que o mundo precise acabar no processo? Em vez disso, ele é esse segredo envolto num mistério, escondido num enigma, que ainda por cima se recusa a me deixar chegar perto… E quando deixa, é o Armagedom!

Ela estava furiosa, rolando na cama, discutindo com os pôsteres de personagens de anime que habitavam as paredes do quarto. Eu só queria um beijo romântico! — Ela bufava e encarava o teto do quarto, o fôlego curto. As palavras da Mari na faculdade voltaram como um eco irritante. “Não vai caindo nos lençóis dele de bandeja… Tem que fazer ele suar.

— Como é que eu vou fazer ele suar se eu não consigo nem ler o “A” do livro dele?!

Bia soltou um riso amargo. Na perspectiva de Mari, o “mundo” em jogo era o dela, mas era Bia quem estava ralando os joelhos no asfalto duma realidade proibida. O conselho de Mari parecia uma piada de mau gosto diante do gesto de Bebê, aquele beijo em sua testa que ainda parecia a aquecer como um abraço.

Essas páginas dizem a verdade… Mas elas são um fogo que consome.”A perspectiva de Bebê estava mais alinhada com a experiência de Bia. Não por ser mais verdadeira, mas por ser mais profunda. Isso a acalmou.

Bia tocou a cicatriz no peito e murmurou baixinho, quase inaudível. Ah… É porque ele não é um cara normal. Ele me ressuscitou, e agora vai me ensinar auto-defesa… Mágica… — A idéia pareceria absurda, se não fosse tão real. Ele não era normal, mas ela também não o era mais. O caminho até ele estava bloqueado por uma geometria impiedosa, mas ela sentia que precisava atravessá-la.

Ela abriu o livro de novo, com cuidado e acariciou a letra quadrada, o tal ko fechado demais que ela decidira ser o seu primeiro passo.

— Amanhã. — Ela disse baixinho para o papel, virando em seguida os olhos para a janela, enfeitada pelo ipê amarelo exuberante, cheio de flores. — Amanhã você vai ter que me ensinar, Gabriel. Eu preciso entender. E agora, você também precisa que eu entenda.

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