| Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda) |
O mundo de Bia se fechava, como um livro que o autor desistiu de escrever. O som foi o primeiro a ir embora. Gabriel gritou algo, não para seus adversários, mas para os Céus, e ela não entendia o que ele falava, mas sentia seu coração batendo forte contra o seu, protegendo-a, isso a deixava estranhamente feliz. E então foi a luz; aquela luz esmeralda tão forte dos olhos verdes do rapaz, emoldurada pelas flores douradas pintadas sobre o céu cor de chumbo, aquela luz se apagou.
Bia parecia flutuar, só ele e ela, e então só ela, as gotas gélidas lavando seu corpo, e sob ela a lama úmida e quente a abraçava, clamando seu retorno. “Era para ser quente assim?”, ela pensava, tentando encontrar uma narrativa no que, de outro modo, parecia uma história tão crua, tão banal.
E então foi como se ela tivesse mergulhado em um oceano escuro, gélido e ruidoso, sem um raio de luz ao qual ela pudesse se agarrar. Seu corpo formigava, e em sua mente ela se questionava “É assim? A morte?”, ela não via ninguém que a recebesse, que pudesse lhe dizer que está tudo bem. Aquele frio violento que queimara seu peito no momento do impacto deu lugar a uma dormência pesada, e havia uma gravidade que puxava sua consciência para o fundo de sua própria mente.
Bia sentiu a estrutura de quem ela era desmoronando. As memórias que ela guardava com carinho de seus pais, de quando ainda era muito pequena, o cheiro da comida de sua mãe, e as cantigas que seu pai cantarolava para afastar o medo da tempestade. As memórias de seus avós maternos, de aprender a pescar no barquinho do avô, aprender paciência, e de entrar em casa ensopada para exibir, orgulhosa, sua captura para a avó.
As memórias de seus anos como uma garotinha tímida na escola, se perdendo no estudo e no mundo de animes e mangás de romance shoujo. As memórias de Mariana, que a acolhera quando Bia chegou no colégio novo, calada e desajustada.
As memórias do vestibular, e daquele primeiro semestre da faculdade, aquele mundo novo que ela explorava com sofreguidão. Do esforço para desenhar perspectivas perfeitas na prancheta, ou personagens excessivamente airosos de histórias bobas para meninas.
Até mesmo as memórias da batida de seu coração, da batida do coração de Gabriel, tudo parecia se desfazer em fios de poeira prateada. Era essa a “ontologia da alma” de que Gabriel tanto falava? Em sua mente um tempo interminável se passou. E então algo a segurou.
Não eram mãos de carne. Era como se a própria escuridão ao redor dela tivesse sido agarrada e puxada de volta. A primeira coisa que voltou foi o som. Uma vibração ressoava através do seu nada, uma voz que não vinha de ouvidos, mas que vibrava diretamente nos ossos de sua consciência.
— Ná! — A palavra era uma súplica desesperada, uma prece que a realidade não conseguia ignorar. Ela pôde ver seu pai sorrindo para ela.
E então veio a luz. Primeiro uma luz vermelha como a alvorada, que esquentava seu corpo, chamando-a de volta. Essa luz foi crescendo, tornou-se áurea, a mãe de todas as luzes, e além dela Bia enxergava, com seus olhos ainda cerrados, o caos esmeralda, uma linha brilhante como o céu que se estendia de fora e circundava o globo de luz dourada que a envolvia e preenchia.
Por seus lábios entrou um alento que desceu até seu peito, e lá se tornou fôlego restaurado, reiniciando a vida que lhe fora interrompida. O novo ar em seus pulmões até então vazios se incendiava, uma chama acendida por uma centelha roubada dos Céus, proibida aos moradores da Terra, que com rapidez devolvia a vida a cada centímetro de seu corpo. Ela podia sentir a água que caía como lâminas sobre suas pernas, a lama pegajosa em suas costas, a dor da ferida aberta em seu peito esquerdo, a firmeza da mão de Gabriel, o corpo dele apertando contra o seu, as sensações retornavam como velhos conhecidos.
Naquele momento, Bia sentiu uma dor súbita e excruciante na altura de seu coração, como se milhares de agulhas de fogo costurassem seus nervos novamente. Onde antes havia a eternidade da morte, agora havia uma pressão insuportável, um abraço mão a mão, testa a testa, boca a boca. O peito ardia, não com o metal do estilete, mas com algo que parecia brasa viva sendo empurrado como um cateter para dentro de suas costelas.
Então ela abriu os olhos.
O céu de São Paulo não era mais cinza. Por um segundo, por entre as flores e através do véu da chuva, Bia viu padrões geométricos de neon riscando as nuvens, como se o céu fosse o croqui de um arquiteto rabiscado com luzes de todas as cores, prestes a ser apagado. As linhas que se formavam entre os objetos e espalhados no terreno baldio e os tapumes que lhe cercavam se transformaram na estrutura de um templo construído em sombras. Aquelas sólidas vigas de linhas paralelas e as perpendiculares que as adornavam se encontravam em ângulos que faziam sua cabeça girar, e no centro de tudo estavam ela e Gabriel, debaixo das flores do ipê amarelo.
Só então ela percebeu Gabriel debruçado sobre ela, sua mão pressionada contra o ferimento de seu peito. Foi naquele instante que Bia retornou a si, o coração batendo descontrolado em surpresa pela cena desenhada como um retrato à sua frente, um lapso dilatado desconfortavelmente entre o inspirar e expirar.
Gabriel se levantou como que saído de um transe. — Respire. — Ele comandou, a voz soando como o estalo de um trovão próximo que anuncia o fim de um céu ensolarado primaveril.
Bia inspirou mais uma vez. O ar entrou em seus pulmões, forçando para fora o sangue e a água que haviam invadido aquele espaço sagrado com a violência de uma explosão. Ela se arqueou, se segurando sobre seus cotovelos, tossindo sangue e água. A vida que lhe havia sido devolvida era corpórea, definida, concreta. O buraco na jaqueta jeans ainda estava lá, manchado de carmim, atravessando sua camisa e sua lingerie, mas a pele por baixo estava intacta, marcada apenas por uma cicatriz alva que parecia brilhar.
— Gabriel-senpai… Você… Você me… — Bia ergueu o braço em direção ao rapaz, como que pedindo seu auxílio, e tentou formular a frase, mas sua voz era um fio de seda.
Gabriel a olhava de modo circunspecto, o medo de antes ainda presente em seus olhos, como se ele a pudesse quebrar se a tocasse. Para Bia, ele parecia alguém que envelhecera mil anos em um só dia. Mesmo assim, ele esticou sua mão para ela e a ajudou a levantar, era um rapaz forte. Ela observou que sua camisa de seda estava arruinada, uma mistura de sangue e lama, e quando seus olhos procuraram pelo paletó atirado no chão, esse não estava em melhores condições. Ele respirava profunda e compassadamente, como se tentasse decifrar um mistério embrulhado num segredo.
— Senhorita Sato, você precisa ir para casa. — Ele disse bruscamente, a voz seca, uma barreira de gelo que o protegia do mundo, ou talvez fosse o contrário. Ele se recusava a deixar que os olhos afáveis dela se encontrassem com os seus. — Alguém deve estar esperando por você. — Ele parou para respirar, como quem fala de um conteúdo sobre o qual não estudou. — Sua família a aguarda. Vá embora.
— Gabriel, por favor! — Era o clamor de uma menina perdida num mundo que ela não conhecia. — O que foi aquilo? Eu… Eu morri, não morri? Eu senti o frio, eu vi a escuridão… Você me tirou de lá?
— Esqueça o que você acha que viu, Senhorita Sato. — Ele a interrompeu, a voz agora carregada de uma autoridade soturna, se erguendo num tom de advertência. — Para seu próprio bem, continue sendo apenas a caloura que teve um dia ruim na chuva.
Bia levou a mão ao peito, por cima da jaqueta rasgada. Dava para sentir o calor palpitante da cicatriz através do tecido, como se fosse um segundo coração que ela ganhara naquela tarde.
— Me explica, Gabriel! — A súbita valentia, ainda que acompanhada de olhos marejados, era inusitada na menina tímida, o que o desarmou por um instante.
— Você está viva. Não é suficiente? — Para ela, ele parecia perdido com as palavras pela primeira vez, a elegância habitual dele perturbada pela sua persistência. E ele apenas pôde voltar a insistir. — Seus pais estão esperando por você em casa, devem estar preocupados. — A voz dele abrandara, demonstrando um desvelo até então disfarçado por insensibilidade.
Um silêncio embaraçoso se seguiu. Os pais de Bia faleceram num acidente de carro quando ela ainda era pequena. Ela estava com os avós paternos naquela noite; era pequena demais para ter memórias claras. A avó tentava explicar para uma criança uma tragédia grande demais para se entender, o avô era um pilar de estabilidade em meio ao caos.
— E-eles morreram. Quando eu era pequena. — As lágrimas escorriam de seus olhos, rolando até suas bochechas onde se misturavam à chuva. Gabriel estancou, era apenas um rapaz de vinte e um anos de idade que não sabia lidar com aquela menina, parada a sua frente, chorando por seus pais. Ele a trouxera de volta para o mundo, e o mundo para o qual ele mandou que ela corresse não mais existia. Por dois minutos que duraram toda uma eternidade ele fitou os olhos marejados castanhos de Bia.
Ela soluçava sem qualquer reserva agora, inconsolada, tremendo não pelo frio da morte, mas pela crueza da vida retomada.
— Sinto muito. — Ele também havia perdido os pais, e aquilo lhe assombrava. Mas não era a mesma coisa. Naquele momento ela lamentava pelo paraíso perdido, um paraíso que ele nunca tivera, que ele sequer poderia compreender. Ela seguia em frente apesar da perda, ele ainda se vestia com o mesmo conjunto que seu pai trajava no fatídico dia de sua morte, um terno preto de alta alfaiataria e uma camisa negra de seda, uma armadura de um luto movido pela culpa, e não pelo pesar.
Bia queria dizer que não era nada, que estava tudo bem, mas simplesmente não conseguia, o coração não a permitia. Ela observou o rapaz dar um passo para trás, calado, e pegar seu paletó do chão. Com um gesto contido, quase mecânico, ele cobriu os ombros dela, escondendo a marca do ferimento e a nudez do rasgo na roupa. O tecido caro, pesado e enlameado, que cheirava a madeira e terra molhada, era o único consolo que ele se permitia oferecer. Bia se aconchegou no casaco que lhe foi dado, o pranto cedendo ante o curioso ato de bondade que gritava em meio ao silêncio constrangedor. Mas antes que ela pudesse agradecer, Gabriel reiterou sua demanda:
— Você deve ter alguém esperando por você, Beatriz. Seus tios, uma colega de quarto, um namorado? — A última conjectura a provocou. Gabriel não vira tudo que ela fizera por ele? Como ela o observava atenta desde o começo do semestre, tendo olhos só para ele?
— O quê? Não! Eu não tenho… Nunca tive… Ninguém… Assim.
— Você tem avós? — Ele não permitiu que ela concluísse sua reação a seu último questionamento.
— Só tenho os paternos. Meu ojiisan Seitoku, e minha obachan Yukimi. Eles são tudo o que eu tenho. — A garota falava a verdade, os avós paternos eram seu mundo, o porto seguro de tradições xintoístas silenciosas e cheiro de incenso que contrastava com a vida apressada da metrópole.
— Vá para a casa dos seus avós, Beatriz. — Ele disse com secura, resgatando sua frieza antecedente, exceto por um apelo fora do comum ao final. — Por favor.
Bia estava perdida, confusa, e tudo que ela conhecia já não parecia mais valer, mas Gabriel se recusava a dar-lhe uma resposta, fácil ou difícil.
— Ainda vamos nos encontrar, quando eu precisar de você. Mas não agora. Há uma vida que a espera. Vá vivê-la. — Ele se virou e se dirigiu para a saída, na brecha entre os tapumes. Ela agarrou suas coisas no chão, cobertas de lama e pétalas caídas, e correu atrás dele, mas antes de sair ele já havia desaparecido na névoa do agora chuvisco que cobria a cidade naquele começo de noite.
Na rua, ela apertou o paletó contra o peito, sentindo o ritmo de um coração que, por direito, não podia mais bater. Ela olhou para si mesma, enlameada, as roupas sujas de sangue; parecia um rabisco teimoso, feito com muita força, e que a borracha não podia apagar, mas deixava um borrão no papel a cada tentativa. Era o avesso do nada.
O céu de São Paulo voltara a ser cinza, escondendo as estrelas por trás de nuvens modestas e lacrimosas. O mundo ao redor dela parecia o mesmo, mas Bia sabia que a vida que a esperava já não seria mais a mesma de antes.
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