terça-feira, 28 de julho de 2026

Capítulo 13: Paraíso Perdido

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Gabriel rastejava para fora do casulo de concreto que era o edifício Villanova. Lá fora, o sol do meio-dia alvejava o chão de concreto e asfalto da USP, que se escondia tímido entre a multidão de estudantes e funcionários que o pisoteavam, saindo para seus intervalos, trabalhos e residências. Mas ele estava esgotado, o realinhamento urbano com que fechou as frestas da Vila Carrão exigia um estipêndio exorbitante, que ele pagava a prestações.

Mesmo exaurido, a presença do jovem era um magneto repulsivo, que abria caminhos sem que as pessoas a seu redor sequer percebessem. Era um temor reverencial profundo, quase prometeico, que remontava ao princípio da História. Ele havia se acostumado, e era melhor assim.

Todavia, por suas costas alguém se aproximou que rejeitava essa gravidade, sua voz melodiosa não escondia sua indignação. — Você não tinha o direito, Hazan! — Bárbara se aproximou de Gabriel como um vento acusador, as diversas pulseiras tocavam como guizos em seus braços, e os cachos negros balançavam furiosos sob o lenço, era uma sentença que não precisava de palavras. — Como pôde usar a Mari para chegar na Bia? Como pôde usar o Rica? Para que todo esse rodeio para passar seu celular para ela? O que você quer com a Biazinha, afinal, Gabriel?

Os nomes passavam por Gabriel como setas mal direcionadas. Ele não reconhecia nenhum deles. Mas Bia, esse nome de alguma forma o tocou, mesmo sem precisar sua identidade. — Eu… — Ele fez uma pausa, como quem tenta se localizar por um mapa antigo. — Eu não faço idéia do que você está falando, Senhorita de Lira. — A voz dele era descarregada, como respingos de argamassa que secaram no sol. Mas os olhos esmeralda fitavam o rosto de Bárbara com uma curiosidade que beirava o perturbador.

— A Biazinha, Gabriel! A caloura japonesa da Arquitetura, que fica observando você por aí com olhos de cachorro sem dono. — Bárbara parou por um instante, a melodia de sua voz mudando de brava para taciturna. — Ela merece coisa melhor, Gabriel, e não essa sua obsessão doentia.

Gabriel levou três segundos inteiros para entender, mas então a percepção da gravidade do caso desceu sobre ele como uma pilha de escombros, tudo de uma só vez. — Maldição, de Lira! — Ele sussurrou entre os dentes, seus olhos procurando Beatriz na massa indistinta de pessoas que caminhavam na saída do bloco, como um falcão perseguindo sua presa.

Sua vista aguçada rapidamente divisou a menina, escondendo-se com seu casaco amarelo pastel clarinho atrás de uma coluna, mas antes mesmo dele erguer os pés para partir em seu encalço, ela saiu correndo como um gatinho assustado. Ele precisava seguir atrás dela antes que fosse tarde demais, mas Bárbara o segurou pela manga do casaco. — Me escuta aqui, Gabriel Hazan. Se você machucar ela de alguma maneira, eu nunca vou te perdoar! — O aviso de Bárbara foi um sopro cortante.

Suas palavras, porém, deslizaram por Gabriel sem deixar marcas. Ele não ansiava o perdão dela, ou de ninguém; a verdade é que ele não acreditava na eficácia do perdão. O que naquele momento o atingiu como uma bola rompedora e o fez sentir perder a fundação, foi o peso de seu próprio julgamento. Se acontecesse algo com aquela menina, ele não se perdoaria. Jamais.

Gabriel saiu correndo, a fragrância de flores de macieira evadindo-se das cadeias de sua memória. Ele não corria de Bárbara, ela já deixara de ter realidade para ele naquele momento. Tampouco atrás de Beatriz, ela fugira dele e ir em seu encalço só pioraria a situação. “Aki, ele me ajudará com o contraplano.” Ele já começava a esboçar um traçado em sua mente, dominada pela centralidade de Beatriz em seu projeto de retificação.


A viagem de retorno para seu santuário escondido no vidro na Vila Olímpia foi um borrão de cálculos e traçados mentais. O silêncio usual com que Gabriel tratava Jorge no carro progredira geometricamente, consternando o sempre sorridente chofer.

Gabriel subiu o elevador até a cobertura e ingressou no salão de entrada sem tirar o paletó, como um homem de negócios apressado para uma reunião importante. — Aki! Eu preciso de sua ajuda! — Ele chamou em voz alta e urgente. Antes que pudesse chegar no umbral de seu salão negro, no coração de seu abrigo, ele encontrou Aki.

Os passos calculados do velho finlandês sobre o mármore faziam-no parecer pesado como uma escultura de granito. Com sua mão direita ele segurava uma adaga de prata, e com a esquerda a polia com uma flanela, como se fosse um espelho capaz de cortar a própria luz.

— O escudo foi comprometido, Aki — declarou Gabriel, a voz seca. — Eles usaram a Senhorita de Lira para plantar um canal de comunicação falso. A pequena Sato acredita que tem o meu número. — A calma em sua voz não era normal, mas de alguém que rejeitava o desespero como ferramenta inadequada.

Aki parou o movimento da flanela. Via-se o brilho de seus olhos azuis álgidos na superfície da lâmina, um reflexo quase ofuscante, até que num clarão repentino o brilho da lâmina prateada refletiu-se de volta nos olhos gélidos do finlandês, que fitava a arma em sua mão. Seu rosto esculpido no frio não mostrava surpresa, apenas desaprovação técnica.

— E por que o senhor não resolveu isso falando pessoalmente com a Senhorita Sato? — A pergunta de Aki foi precisa e direta, sem floreios, mesmo assim Gabriel travou por um instante.

— Eu tentei — a resposta saiu áspera, como a madeira de uma casa que estala no clima frio da madrugada. — Hoje, na faculdade. Mas ela fugiu antes que eu pudesse sequer abrir a boca. Ela correu como se eu fosse…

— Como se você fosse um animal arisco, Gabriel — Aki completou, finalmente encarando o patrão. — Um cão que não permite aproximação sem rosnar ou morder. — O silêncio que se seguiu foi necessário para que os olhos dos dois homens se conversassem.

— Você ignorou por tempo demais o fator humano em sua estrutura, e agora o cupim está destruindo seu alicerce. — Sua fala era carregada de uma autoridade ártica. — O senhor a trouxe de volta, mas a deixou no escuro. Ela só fugiu porque você a deixou livre para seguir seu próprio rumo, desde que ela não seguisse o do senhor, e agora ela está assustada.

O que mais doía para Gabriel eram as pausas desconfortavelmente eloquentes, mas ele sabia que prestar atenção nelas era tão importante quanto aquilo que era efetivamente falado. — Você a trouxe de volta, mas a deixou no escuro. E no escuro, qualquer luz no fim do túnel parece um farol de esperança, mesmo que na verdade seja apenas o trem vindo em sua direção.

Gabriel não respondeu. Ele recebeu o impacto das palavras de Aki como pregos martelados em sua consciência. Sem abrir a boca, ele caminhou até a mesa de cristal, onde mapas astrais dividiam espaço com mapas da Vila Carrão e livros antigos. Cerrando bem seus olhos, ele navegou pelas cartas geográficas e astrais, dirigindo sua atenção para o coração pulsante da vida de Beatriz. A fortaleza que ele erguera ao redor da casa dos Sato funcionava agora como um sensor sísmico, e Beatriz era o ponto de convergência.

Matsati at babeitech, wer’ê at betsetech, Mekor Chaim. — Ele murmurou a abertura do encantamento, mantendo os olhos cerrados para projetar sua consciência sobre as passagens secretas que ele mantivera sobre a Vila Carrão. Invocando o poder da conexão que ele possuía com a garota, ele percebia Beatriz como um ponto verde que pulsava no mapa de sua mente.

O plano era simples: vigiar, garantir a integridade dos sigilos, e confrontá-la no dia seguinte, em terreno neutro. Mas a magia exigia um prumo que seu corpo encontrava dificuldades de sustentar. Seu rosto suava, e cada sigilo mantido era uma viga de aço que ele sustentava com os ombros.

Aki não podia ajudá-lo com isso, os espíritos ancestrais que ele dominava estavam banidos das proximidades da casa dos Sato pela própria magia usada por Gabriel para selar as frestas do bairro onde a jovem residia.

Minutos se tornaram horas que se arrastavam com a morosidade de séculos. A imobilidade da casa dos Sato era absoluta, uma calmaria que Gabriel tentava desesperadamente não confundir com segurança. O esgotamento acumulado desde sexta-feira nublava sua visão astral, transformando os traçados mentais geralmente nítidos em labirintos turvos.

Então, sob o manto da noite, o mapa mental de Gabriel oscilou.

Não foi um tremor, mas um rompimento. A pulsação verde que identificava Beatriz se descolou do perímetro protegido da residência. Ela havia cruzado o umbral da porta principal da casa e estava saindo para o mundo exterior. Para os sentidos magicamente aguçados de Gabriel, aquele movimento não era um passeio — era uma trajetória de colisão.

— Ela saiu — Gabriel sibilou, os olhos ardendo de suor se abrindo na escuridão, as pupilas ainda dilatadas pelo esforço místico. — E está caminhando direto para o vácuo.


Aki ficou na base da família Hazan, dando seguimento ao rastreio mágico de Beatriz por meio de seus haltijahenget, desde que a garota atravessou a fronteira da Vila Carrão. A caçada era mais laboriosa do que precisava ser, havia clara interferência externa.

Gabriel, por sua vez, estava no banco de trás da mercedes, recebendo direções diretas de Aki pelo ponto discreto em seu ouvido. O corpo empapado de suor, segurando com esforço sobrehumano calafrios que pareciam querer arrancar sua alma da carne, um prédio condenado que rejeitava ficar inabitado.

No banco de motorista, Jorge olhava preocupado para o patrão, desprezando a gravidade do que ocorria naquele momento. O homem rechonchudo e sorridente achava que, se pudesse travar os olhos no jovem febril, talvez um sorriso pudesse o desarmar, e ele poderia levá-lo ao hospital em vez de transitar aparentemente sem rumo pelas ruas e avenidas da cidade.

— Senhor Hazan… — Era a voz de um pai tentando estabelecer uma conexão a um filho rebelde. — A respiração do senhor tá estreita…

— Apenas obedeça, senhor Valente. — Gabriel interrompeu o chofer duma maneira que desconsertou o homem. Gabriel não era um rapaz grosseiro, apenas frio, desconectado, mas dessa vez havia uma indignação apressada em seu timbre.

O carro preto deslizava como uma mancha de nanquim pelas ruas e avenidas de São Paulo. — Recuperei o rastro, senhor. Ela entrou no Parque Ibirapuera. — A voz de Aki era um chiado no ouvido de Gabriel.

— Faça o retorno. Vamos ao Parque Ibirapuera. — O motorista ficou visivelmente consternado pela mudança abrupta de direção, da Zona Leste para Moema. Mas permaneceu mudo, ele aprendera a aceitar o absurdo de certas decisões tomadas pelo jovem Hazan.

Já era possível divisar o limiar do bosque encravado na urbe cinza quando o trânsito começou a se engarrafar, tornando-se um mar plácido de faróis e luzes vermelhas de freios. Os servidores da SMT desviavam o trânsito para as vicinais, e Gabriel percebia a manipulação probabilística dos Arcontes trabalhando. Antes que a mercedes completasse a frenagem, ele escancarou a porta e se jogou na calçada num salto longo.

— Sr. Hazan?! — Jorge exclamou, assustado, vendo o patrão saltar do carro sem oferecer qualquer explicação.

Gabriel ignorou o chamado, deixando o motorista parado entre os carros enquanto corria em direção ao gradil de ferro do parque, seu coração parecia querer explodir pelo esforço. Ele saltou o muro com uma agilidade que desafiava a gravidade, aplicando apenas sua vontade pura para garantir o funcionamento do corpo exaurido em máxima eficiência. Sua visão estava embaçada de suor, mas fixada na névoa que começava a subir entre as árvores.

— Ela está perto do lago, num banco na margem do lago sul. A pressão atmosférica lá está caindo, eles estão atravessando as frestas. — A cadência técnica, quase inexpressiva do mordomo, deu lugar a um tom quase fúnebre. — Se eles a matarem em sua demora, senhor, não haverá uma Fonte da Vida para trazê-la de volta.

Gabriel não tinha como responder, a força que lhe restara se dedicava a domar os pulmões e impulsionar pernas. Ao longe, ele identificou o casaco amarelo no meio da bruma esbranquiçada, o mesmo tom pastel claro daquela manhã. Naquele paraíso perdido, o primeiro vulto cinza já se desdobrava pelas frestas na atmosfera, sua mão se estendendo para agarrar Beatriz pelo ombro. Ele tinha poucos segundos para agir.


Kyaaaa!!! — O grito agudo de Bia ressoou amarelado por entre as árvores, como se o brilho dourado de sua cicatriz transbordasse e escapasse por entre seus lábios. Gabriel estava exatamente a sua frente, com seu uniforme de escuridão, os braços bem abertos numa diagonal obtusa como se segurasse um fio de lã em sua mão. Não era sua presença que a aterrorizava, mas o braço de manga cinza voando descolado de um corpo.


Não havia tempo para soluções sutis ou limpas. Gabriel precisava ser decisivo, ou os planos que arquitetara seriam levados pela enchente túrbida e cinza. Ele atravessou a distância pelas frestas se materializando na frente de Beatriz e, com um breve encantamento que saiu com um expiro, cortou o próprio espaço entre o corpo e o braço direito do capote cinzento que estendia sua mão contra ela, separando-o do ombro com a precisão de uma régua de arquiteto.

O braço do adversário voou, estalando como chicote na atmosfera fresca da noite, e se desfez em fumaça e vapor d’água em pleno ar. O serviçal dos Arcontes se afastou com alguns passos, seu ferimento não sangrava mas fumava, e o rosto sempre apático desenhava surpresa com marcas de expressão até então inexistentes. Os olhos burocráticos dele brilharam com uma nova percepção, observando a intensa luz dourada que pintava a neblina ao redor do par.

— Ela não é um instrumento de barganha derivado da fraqueza humana. — Ele demorou-se brevemente, analisando Gabriel, que arfava a sua frente, em busca de fraquezas. — Ela é a Fonte da Vida. — Um desavisado poderia pensar haver um toque de satisfação naquela voz vítrea.

O homem de capote cinzento se preparou para pegar seu estilete com a mão esquerda, mas os olhos de Gabriel faiscaram, soltando chispas verdes resplandecentes. — Kros, Kadish! — Ele urrou com a fúria de um homem que sabe que a vitória demanda perfeição, e seu adversário colapsou contra o chão, puxado por uma gravidade impossível.

Mais dois homens surgiram como se sempre houvessem estado lá, saltando em direção a Gabriel. Ele sabia que agora ele era um resíduo indesejado para seus adversários, e tinha de ser eliminado para que o caminho se abrisse para a captura de Beatriz. Ele era obrigado a protegê-la, para que a escuridão não a levasse, mas mantê-la por perto o impedia de lutar com máxima eficiência. O cálculo não fechava. — Aki! — Ele recrutou o mordomo como uma variável externa, que poderia desequilibrar aquela função a seu favor.

— O haltijahenki a protegerá, senhor. A voz era afiada, mas havia uma ponta de premência e brio nela. Acabe com eles.

Um hemisfério de ventos árticos cortantes se formou ao redor de Beatriz no momento que Gabriel jogou seu corpo para frente num só impulso. S-senpai… Não me deixe sozinha aqui! Ela implorava assustada, seus olhos segurando as lágrimas com dificuldade. Ela não entendia tudo que estava acontecendo, mas percebia a extensão do perigo que investia contra eles. Gabriel agora lutaria com todas as suas forças.

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