terça-feira, 7 de julho de 2026

Capítulo 10: Geometria da Culpa

Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda)

Bia estava encolhida na cabeceira de sua cama, próxima do parapeito da janela de seu quarto, observando as velas que acendera se consumirem pelo fogo de base azulada. À frente de seus olhos, os pavios se transformavam numa fumaça transparente, que fazia um movimento bruxuleante no ar parado de seu quarto. No coração da garota, aqueles traços de luz invisíveis eram como a linha do novelo de Ariadne, com os quais ela poderia trazer Gabriel para seu abraço, para seu peito. Mas no fundo, ela sabia que aquilo era apenas um artifício impossível no mundo real, um clichê dos mangás shoujo que ela gostava tanto de ler desde que adolesceu.

Ela se sentia culpada pelos avós, os quais ela ainda escutava, discutindo baixinho na sala de estar; por Mariana, Felipe, e mesmo por Erik, que à sua maneira a tentavam proteger, mesmo sem saber sua nova situação. E ela se sentia perdida, pois sabia que Gabriel velava por ela, mas não entendia a razão dele a rejeitar tão friamente, não lhe acolher, não lhe explicar o que aconteceu. E isso era uma câmara de eco para as dúvidas dela a respeito das verdadeiras intenções do rapaz. “O casaco é a prova que ele se importa,” mas o pensamento era imediatamente retrucado por outro “‘Quando eu precisar de você,’ foi o que ele disse.”

Os olhos de Bia insistiam em fitar a porta fechada do guarda-roupa, e mesmo longe ela ainda conseguia sentir o cheiro de terra molhada e madeira, já apagado pelo sabão de coco que a avó usara para limpar o paletó enlameado na noite de terça-feira.

Uma vibração quase inaudível no vidro da janela cortou o ritmo de seus pensamentos, atraindo seus olhos para além da luz das velas, e das flores do ipê amarelo que salvaguardava a janela de seu quarto como um guarda fiel desde sua tenra infância. Ela atirou seu corpo para frente, colocou suas mãos no vidro gelado que parecia tremer sutilmente, e observou o mundo exterior, a escuridão da noite iluminada parcamente pelos postes que pontilhavam a rua da frente de sua casa.

Um calafrio perpassou seu corpo, mais gélido que o vento sul quando sopra nas madrugadas de inverno, pois no canto de seus olhos ela podia enxergar, se locomovendo como água que verte das paredes, passando pelas frestas que separavam os novos prédios das casas velhas da Vila Carrão, três vultos cinzentos, sem qualquer brilho ou calor que pudessem testemunhar que estavam vivos. Ela sentiu o rosto empalidecer de imediato, como se o fluido vital de seu corpo quisesse escapar de terror ante aquela visão. Instintivamente, Bia já sabia a quem eles estavam procurando.

Como uma enchente que repentinamente destrói toda uma vizinhança, o trauma gritava em sua mente, na cor do borralho da lâmina que a arrebatara dias antes. Eram três, exatamente três, como no dia em que o frio a envolveu e o gosto doce e enjoativo de sangue tomou de assalto sua boca, naquele terreno baldio, antes de tudo escurecer. Para ela, aquele tom de cinza não era mais uma cor, mas o cheiro fúnebre do vácuo estéril que a transformara em um cadáver sob as flores do ipê amarelo. “Eles voltaram, pensou ela. “Como me encontraram? O que querem de mim?

Bia se levantou de sobressalto e pensou em gritar por sua obachan e seu ojichan, se esconder nos braços dos avós, para que eles a abrigassem do perigo como sempre fizeram desde que era nova demais para se lembrar. Mas antes que a palavra se formasse em sua garganta, ela percebeu que o fazer só os colocaria em risco. Se gritasse e corresse para seu lugar seguro, transformaria o espaço sagrado de seu lar num mausoléu.

Naquele momento, ela se sentia uma intrusa em sua própria casa, um objeto de valor cobiçado cuja mera presença atraía predadores, e sabia que não podia ser encontrada nas mãos de seus avós quando esses predadores chegassem. Em vez disso, ela se escondeu entre o armário e a escrivaninha. De alguma forma naquele momento, para ela, o paletó de Gabriel ali guardado era como uma armadura que a protegeria do mal que se avizinhava, e as bonecas Hinamatsuri herdadas da mãe, samurais que lutariam em defesa de sua honra.

— Gabriel… Senpai… — Ela sussurrou num suspiro, quase choroso. — Vem logo… Eu preciso de você! Não foi para isso que você me trouxe de volta! — Ela sabia que suas pálpebras bem apertadas eram o último escudo contra a escuridão que a arrebataria. A fé que seu coração depositava na luz daquelas velas de sexta-feira era quase pitoresca, mas não era lógica. Tremendo como uma folha ao vento, Bia já aceitara o desfecho inevitável, com toda a resolução de uma criança na rua ao perceber os faróis do carro se aproximando rápido demais para desviar.

Todavia, de súbito, a cicatriz em seu peito deu um solavanco; um espasmo de calor tão agudo que a subtraiu de seu fôlego, e a fez pressionar a palma de sua mão com força sobre o coração. Aquilo não era a reação normal de sua cicatriz à proximidade de Gabriel; era um aviso do que estava por vir. Reunindo toda coragem que lhe restava, a garotinha escondida entre o armário e os pôsteres de personagens de anime fitou novamente através do vidro da janela, passando pela cortina dourada do lado de fora, até alcançar as frestas entre os sobrados vizinhos e as torres de condomínios que sufocavam a vizinhança. E lá, ela o viu.

Uma luz verde-esmeralda, afiada como uma lâmina, se escondia sobre a luz amarelada de um poste próximo a sua casa, quase que forçando a coluna de concreto a se curvar como bambu tenro sob sua massa. O tom, o brilho, a agudeza, e a gravidade daquela luz denunciavam a presença de Gabriel, escondido nas frestas da cidade. Ele era o único ponto de referência que impedia o cinza daqueles três homens de devorar o asfalto.

Bia sentia a marca que seu assassino deixara em seu peito bater com intensidade, o segundo coração que ela recebera de Gabriel quando ele lhe restituiu a vida. Seu cavaleiro brilhante saltou de seu pedestal e deu combate a seus inimigos.

Mas havia mais alguém além dele. Bia observou, o acompanhando, uma luz gélida e estática, branca como a neve, afiada como o fio de uma navalha. Ela não sabia o que era aquilo, mas podia sentir o frio da neve eterna dos polos lhe tocar. Aquele brilho a assombrava, ele se parecia com o gelo das montanhas, mas de algum modo toda aquela algidez perpetuava o fogo verde de Gabriel. “Ele não veio sozinho. Ele trouxe o inverno com ele”, a menina sussurrou para o escuro, os olhos castanhos repletos de pavor e alívio simultâneos.

Lá no alto, onde as nuvens de poluição costumam esconder as estrelas, o céu parecia estar sendo redesenhado. Os combatentes andavam pela geometria da cidade, atravessando traços impossivelmente estreitos, antes de subirem como línguas de fogo. Não havia som de trovão, apenas um clarão rítmico e silencioso, visível apenas para Bia, como se titãs estivessem batendo placas de metal em brasa nas alturas.

Cada centelha desse conflito invisível ressoava em sua cicatriz, e Bia sentiu que, se aquela luz esmeralda se apagasse, não só Gabriel, mas ela própria simplesmente deixaria de existir novamente.


Andares abaixo da peleja silenciosa que Bia testemunhava, a sala de estar da casa de sua família parecia submersa em um tempo diferente, um tempo de relógios de corda e madeira encerada.

Dona Yukimi trazia uma bandeja de laca preta, onde o vapor de uma infusão de flores de jasmim e cascas de laranja subia em espirais delicadas. O aroma era uma tentativa de maciez, uma mão invisível que buscava acariciar as arestas cortantes do ambiente ou, ao menos, cegar-lhes o fio.

— Beba, Seitoku-san — disse ela, a voz fluindo com a suavidade do chá despejado do bule. — Bia está desabrochando. Ela é uma flor que em breve, nós não poderemos mais guardar para nós.

Seu Seitoku não se moveu. Ele estava imóvel em sua poltrona de vime, as mãos calejadas sobre os joelhos não esboçavam movimento. Ele era como um bloco de motor de um Opala, pesado, indomável, e carregado de um torque que o tempo não fora capaz de dissipar. Ele apenas queria sua família bem alinhada e balanceada, sem desvios que pudessem acarretar acidentes potencialmente fatais.

— Ela precisa de direcionamento, Yukimi-chan. — Ele era solene como o motor de um caminhão velho porém funcional. — E agora, ela é um carro desgovernado. Eu temo que, desse jeito, ela acabe se despedaçando contra o muro daquele mundo de vidro onde o rapaz Hazan vive. Ele não é como nós.

— E nem você era, mas nós estamos aqui, itoshi hito. — As mãos macias de Dona Yukimi tocaram a pele áspera e rígida de Seu Seitoku, e suas palavras doces trouxeram de volta as memórias da juventude.

— Era diferente… — Ele insistia em retrucar, mas sua voz já assumia a derrota. Ele temia estar errado, não pelo que em seu coração sentia que deixara acontecer com sua preciosa neta, mas por não se permitir se adaptar, como o chá que toma a forma da vasilha em que é colocado. — Naquele tempo, eu não a teria tomado sem permissão de seu pai, Yukimi-chan. — Ele ainda tentava manter a compostura, antes de sua voz enfim se tornar um murmúrio, como um motor reclamando por não conseguir dar a partida. — E o velho Saburo não teria aceitado um gaijin.

— Era diferente… — Dona Yukimi respondeu, espelhando as palavras do marido, sua voz como as ondas do mar que teimam em chegar à praia, ainda que apenas para voltar ao oceano de onde saíram. — Aquele era o nosso tempo, e não o tempo da Bia-chan, Seitoku-chan. — O sufixo, só usado em momentos de íntimo carinho entre o casal, indicava a mudança no tom da discussão. — Talvez seja tempo de darmos tempo ao tempo.

Seu Seitoku não tocara na xícara. Seus olhos, endurecidos por décadas de trabalho mecânico, estavam fixos na escadaria que levava ao quarto da neta. Ele sentia que algo estava errado em seu mundo, mas sua mente buscava explicações prosaicas demais para a realidade que ele não podia ver: desonra, rebeldia, má influência. Ou, talvez, ele houvesse ficado antiquado, um modelo velho demais para poder circular nas ruas da cidade confortavelmente.

Dona Yukimi suspirou profundamente, como quem termina de sovar a massa do pão. Ela observava os olhos do marido se tornarem mais suaves, o cenho ainda fechado mas agora mais maleável. — Deixe que as águas esfriem, muito calor pode trincar o vidro. E depois que as coisas houverem se assentado, seria bom conversar com o rapaz, quem sabe ele é melhor do que você espera?

O avô bufou, uma descarga de ar quente que lembrava o escape de uma máquina cansada. Esse era um ritual antigo entre os dois: o atrito entre a força motriz dele e a fluidez restauradora dela. Dona Yukimi estava certa, a neta, a única família que lhes havia restado, era o mundo dos dois, de Seu Seitoku também, e apesar das palavras duras proferidas anteriormente, ele não a queria perder.

Mesmo assim, algo o perturbava, algo que ele não sabia precisar o que era. Ele sentiu uma vibração estranha na sola dos pés, um tremor que não vinha do trânsito da rua, mas da profundidade do firmamento. Por um instante, o seu coração falhou uma batida com o ruído de uma telha se quebrando, como se mãos invisíveis tocassem as engrenagens da realidade.

— Tem algo estranho — ele resmungou, a voz se perdendo na paz doméstica que aos poucos se reimpunha.


A aparente tranquilidade da Vila Carrão era uma ilusão sustentada pela cegueira de seus habitantes. Gabriel e Aki saltavam entre postes, muros, telhados e terraços sem fazer barulho, atravessando as frestas que se escondem na edificação da Realidade.

Acompanhando-os numa dança mortal, seus três adversários convergiram sobre eles com a precisão de vetores matemáticos. Não havia gritos de guerra ou hesitação, eles eram máquinas biológicas de combate, cuja única missão agora era incapacitar, ou matar, Gabriel e Aki, para então rastrear e reaver aquilo que procuravam, e que Gabriel tentava ocultar.

Mas era em vão. Os dois magi não podiam ser dobrados pela magia astral dos servos dos Arcontes. Nesse embate, o par era o epicentro de uma força imparável.

O primeiro dos adversários avançou, a mão estendida com seu estilete empunhado como o punhal de um assassino. Porém, ao tocar na aura esmeralda de Gabriel, revelou um escudo de padrões geométricos triangulares que ondulavam ao redor do rapaz. Ele estendeu sua mão direita num arco horizontal, como quem atira alguma coisa com os punhos. — Even hakalang! — O peito do homem de sobretudo cinza se afundou, e seu corpo violentamente arremessado chocou com uma ressonância metálica contra o portão de ferro de um sobrado vizinho.

Aki, no entanto, não era tão misericordioso. A magia de Gabriel podia ser atroz, mas usava sua força para afastar, enquanto a luz branca do mordomo era cirúrgica. Ele não se dava ao trabalho de desviar; ele interceptava. O encanto de Gabriel gerou uma breve abertura em seu escudo, e quando o segundo capote tentou o atacar por essa fenda, Aki atingiu o oponente na base do crânio com um golpe seco da empunhadura de sua adaga de prata.

Não houve sangue, apenas o som de algo essencial se quebrando dentro do pobre diabo, cujo corpo prontamente se desfez em fumaça e vapor d’água. A visão desagradava Gabriel, mas ele não podia contestar a eficácia definitiva do golpe.

O terceiro cinzento se afastou estrategicamente, e começou a pronunciar palavras de poder num idioma antigo mas jamais esquecido. Gabriel de pronto iniciou seu contra-encantamento, preparando-se para resistir ao ataque que viria. Todavia, antes que qualquer um dos dois pudesse terminar, com um movimento fluido, Aki atirou sua faca contra o inimigo restante, quebrando sua armadura mística como cristal de má qualidade, atravessando seu olho e perfurando seu cérebro, iniciando de pronto o processo de sublimação do capanga dos Arcontes.

— Um deles conseguiu fugir, senhor. — Gabriel não sabia se o velho finlandês falava com seriedade ou sarcasmo, mas as mortes o incomodavam mesmo quando necessárias, mesmo quando os mortos eram seus adversários mortais.

— Então vamos iniciar o procedimento. — Gabriel desceu ao centro da rua e se ajoelhou lá, imperceptível na linha entre as faixas dos carros, ignorando o asfalto áspero. Ele não pediu permissão ao mundo, mas impôs sua vontade sobre ele. Suas mãos começaram a traçar sigilos no ar, filamentos verdes que se enterravam no solo e subiam pelas paredes das casas, alcançando telhados que estalavam e trincavam na escuridão noturna iluminada de verde apenas para os que podiam ver, criando uma rede de cálculos impossíveis.

Ele estava redesenhando a vizinhança; não o concreto, não o asfalto, mas as linhas ocultas que permitem ao mundo ser lido de fora. A partir daquele momento, para qualquer magus que tentasse observar o lugar ou se esgueirar até ele pelas frestas da Realidade, a casa dos Sato deixou de ocupar um ponto estável no mapa oculto da cidade. Os ângulos de acesso foram fechados, os trajetos colapsaram sobre si mesmos, e a própria tessitura mística do bairro passou a operar como um labirinto que escapava à visão erudita, coerente em sua estrutura interna, mas ilegível para aqueles que não possuíam a chave, a qual apenas Gabriel detinha.

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