| Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda) |
A manhã na zona leste de São Paulo sempre começava com o som do rádio de pilha na cozinha e o cheiro de café coado com açúcar. Para Beatriz Sato, ou apenas Bia para os íntimos, aquele era o som da segurança. Aos 17 anos, recém-ingressa no primeiro período de Arquitetura, ela ainda sentia o frio na barriga de quem acabara de deixar o uniforme de colegial para trás.
— Não esquece o guarda-chuva, Bia-chan! O rádio disse que o tempo vira hoje. — avisou a avó, Dona Yukimi, com toda a preocupação de uma mãe pela sua única filha, enquanto organizava os potes de obentô ainda quentinhos na mesa da pequena sala.
A menina deu um beijo rápido na bochecha da avó e do avô, Seu Seitoku, que lia silenciosamente a edição do dia da Folha de S. Paulo sentado em sua poltrona de vime com sua xícara de café quente na mesinha ao lado. Diferente da avó, ele era de poucas palavras, mas o sorriso de aprovação dele já dizia tudo.
Ela foi até a porta segurando uma fita com a boca, colocou uma jaqueta jeans já batida sobre sua camisa branca de listras vermelhas pastéis, verificou o zíper de sua saia de pregas xadrez, calçou e amarrou o converse All Star surrado, e prendeu o cabelo com a fita num grande laço.
Em seguida, amarrou o omamori En Musubi no zíper da mochila com o cuidado de quem desenha uma pintura impressionista dos prédios à noite, pegou seu material, e o guarda-chuva de gatinhos, pronta para sair correndo do aconchego da casa de seus avós para o ritmo frenético da maior cidade do Brasil.
— Tchau, obachan! Tchau, ojiichan! Tô atrasada! Itekimasu! Amo vocês! — Ela arrumou o cabelo preto e liso, que escorria sobre seu rosto ao mesmo tempo que fechava a porta. O pé de ipê amarelo que fronteava a casa estava coberto de flores, derramando um tapete amarelo para ela caminhar. “Hoje vai ser um grande dia!” ela pensou consigo mesma.
A jornada até o campus era um ritual de sobrevivência para a menina nipo-brasileira que mal tinha virado moça. Primeiro, o ônibus de bairro, barulhento e sacolejante, até o metrô. Depois, a Linha Vermelha lotada, onde ela se espremia entre executivos de terno. Por fim a Linha Amarela, cheia de estudantes viajando até a Cidade Universitária no Butantã.
Em seu longo itinerário diário até a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, ela protegia sua pasta de desenhos como se fosse um tesouro nacional e passava o tempo sonhando acordada. Enquanto a maioria das garotas de sua idade falava sobre as festas da faculdade, Bia perdia o fôlego pensando em um certo veterano de seu curso e de Filosofia.
A faculdade era um universo novo, e Gabriel Hazan era o seu centro gravitacional.
Ela o conhecera por acaso na Biblioteca Brasiliana Mindlin, quando explorava seu novo ambiente na primeira semana de aula. Ele estava sentado no fundo, numa mesa isolada pela penumbra. Naquela época, Bia achava que ele era apenas um monitor ou talvez um professor jovem e excêntrico.
Ele era alto e magro, quase etéreo, e sempre vestia preto — um terno bem cortado de alfaiataria, uma camisa de seda igualmente negra, mas sem uma gravata, e sapatos de couro bem engraxados, como se houvesse acabado de sair duma cerimônia importante e não tivesse tido tempo de trocar de roupa. A pele dele era tão pálida que parecia brilhar sob as luzes fluorescentes, contrastando com os lábios e bochechas naturalmente avermelhados e o cabelo negro, ondulado, um pouco comprido e partido ao meio de um jeito que parecia ao mesmo tempo desleixado e elegante.
Naquele dia Bia puxara assunto usando uma desculpa boba sobre a localização de um livro e, repetindo o mesmo vestuário daquele dia, decidiu que era hora de tentar mais uma vez.
— Para onde você vai, amiga!? A biblioteca da FAU é por aqui! — Bia mal conseguia prestar atenção em sua melhor amiga, Mariana Otero, um ano mais velha, que ela conhecera no ensino médio, e com quem fizera cursinho em seu terceirão. Era uma ruiva alta de lindos cabelos cacheados e um corpo de dar inveja a qualquer garota. — Eu tenho que encontrar uma coisa lá. Eu já volto! — Bia se justificou, escondendo seu verdadeiro propósito.
Ela correu até a BBM, que mais parecia um castelo de concreto, seu coração parecia querer sair do peito, e não pela corrida. Ela entrou com passos determinados e rastreou o lugar por quem ela buscava. Lá estava ele, isolado num canto, a pilha de livros à sua frente incapaz de o esconder.
Bia respirou fundo, acariciou o omamori até se acalmar, e se aproximou, com firmeza. — Oi Gabriel! Tudo bem? Me ajuda a procurar o livro… — Ela gelou por um momento, tentando lembrar algum título difícil dos períodos mais avançados, algo que combinasse com o rapaz à sua frente. — O-o… Complexidade e Contradição na Arquitetura, por favor? Não consigo achar em lugar nenhum!
— É pra aula de Estética. Não é muito avançado? — perguntou ele, num barítono sussurrado, levemente rouco, levantando os olhos verdes, profundos e carregados de uma melancolia que Bia não sabia explicar. Erguendo-se da cadeira para ajudá-la na sua busca, ele fechou o livro que lia com calma, juntando-o a outro que parecia haver recém-terminado. Na capa, nomes que ela mal conhecia: Les Sources de Plotin, Avicenne, De l’âme, e Iamblichus, De Mysteriis Aegyptiorum.
— E esses livros? São de alguma eletiva? Ou do seu outro curso? Filosofia, né?
— Não. Apenas buscando comentários para melhor compreender a ontologia da alma. — Ele respondeu. A voz dele era firme, baixa, mas sem qualquer traço de arrogância.
— Nossa, que legal! — Bia respondeu com a animação de uma criança que admira o que não entende, maravilhada por ele ler esse tipo de livros por prazer. — Você é muito “cabeça” né? Um dia o senpai poderia me dar uma aula deles! — Ela tentara um elogio desastrado, querendo quebrar o gelo. Gabriel apenas acenou com a cabeça, sem se importar, enquanto a guiava no caminho até a biblioteca da FAU, na seção do livro que ela dissera precisar.
Ele não parecia se importar com elogios ou com o fato de ser o herdeiro do império Hazan Publishing. Essa distância, esse desapego de aprovação, junto de sua disposição desprendida, era o que o tornara irresistível. Para Bia, ele era um herói de romance literário perdido no século XXI, um príncipe judeu exótico duma cidade distante e misteriosa, uma primeira impressão que a marcou de verdade.
Ao chegar na biblioteca de Arquitetura e Urbanismo, Mariana parecia já a esperar com um olhar gelado, sentada com alguns outros alunos da sala. — Bia, vem! Eu já achei os livros que precisamos. — A última frase soava como uma declaração de guerra velada dirigida a Gabriel, de quem Mariana claramente desconfiava.
— Oi Mariana! Ah… Claro… — A delicada adolescente oriental, uma menina-moça crescida, parecia subitamente diminuída frente à espontaneidade de sua amiga, seu plano foi descoberto.
— Bauhaus? — Gabriel levantou a sobrancelha. — Achei que fosse…
Antes dele terminar sua frase, Bia se virou para ele e se curvou, o rosto vermelho como um ferro em brasa. — D-desculpa, Gabriel-senpai! Eu confundi! Muito obrigado por ter vindo mesmo assim! — Com os lábios cerrados, ela se virou e correu para a mesa onde a amiga estava, como uma moleca arteira retornando para se explicar a uma irmã mais velha.
— Tudo bem! Não foi incômodo algum, bons estudos para vocês. — Ele se virou para sair, imperturbável como sempre. Bia observava de soslaio as costas largas do rapaz. Foi apenas quando sua figura sumiu que ela percebeu o olhar recriminador da amiga, ao qual ela respondeu com uma risada sem graça.
Ao fim da tarde, a previsão da avó se confirmou como uma profecia. O céu cinzento de São Paulo desabou numa chuva torrencial.
Bia estava na saída da universidade, teria uma entrevista de estágio antes do sol se pôr e, quando viu o ônibus da linha Cidade Universitária / Praça da Sé se aproximar. A chuva era tão forte que a rua parecia um borrão cinzento. Ela correu, sentindo a água gelada encharcar seus pés, e conseguiu entrar no veículo no último segundo.
O ônibus estava entupido. Bia ficou espremida perto da porta traseira, segurando-se no cano de metal gorduroso. A viagem seria longa. A seu lado, Felipe Sugimoto Cavalcante, um colega de sala que ela conhecera nos tempos do cursinho e que agora falava pelos cotovelos, tentando chamar sua atenção.
— Bia! Você viu o que o professor falou sobre a Bauhaus? — Felipe gritava por cima do barulho do motor.
— Vi, Felipe… Legal, né? — Ela respondeu, tentando ser educada, mas seus olhos estavam fixos na janela embaçada, sua atenção capturada por uma figura escura na rua.
Conforme o ônibus avançava lentamente pelo trânsito parado, Bia limpou um pequeno círculo no vidro com a manga do moletom. Foi quando o coração dela deu um solavanco.
Lá estava ele.
Gabriel andava com uma firmeza e resolução invulgares na calçada do outro lado da janela do transporte, sob a tempestade e sem qualquer proteção. A água escorria pelo seu cabelo e se derramava sobre seu rosto, e o traje tão formal que ele sempre vestia como um uniforme parecia ainda mais pesado molhado daquele jeito, mas isso não o incomodava. Ele caminhava como se imbuído de um propósito misterioso, com uma intensidade que beirava a obsessão. Por um segundo, o ônibus parou no semáforo bem em frente a ele.
Bia ficou sem fôlego. Daquela distância, a expressão de Gabriel não era de alguém buscando a proteção de uma marquise ou procurando um transporte para fora dali. Era como se ele estudasse o desenho da cidade, desenhando diagramas invisíveis na cidade emoldurada pela chuva, rascunhando croquis com olhares rápidos e atentos aos detalhes. Seu olhar tomado por aquela melancolia terrível e aquela sobriedade absoluta que Bia havia aprendido a achar tão atraente. Ele não parecia um jovem de 21 anos; parecia alguém que já tinha vivido seis mil anos e estava cansado de todos eles.
"Ele é tão lindo...", pensou ela, com a testa encostada no frio horizonte de vidro, suas bochechas corando enquanto o ônibus voltava a se mover. "Tão profundo. O que será que ele está procurando?" Ela suspirou tão alto que Felipe se espantou.
— Preciso descer aqui! — Bia falou em sobressalto, a voz esganiçando, ao perceber que o ônibus estava prestes a chegar ao próximo ponto sem uma parada solicitada.
— Bia, você ainda vai fazer integração lá na Sé. Do que que tá falando? — Felipe protestou.
Entre os sons da cidade filtrados pela carroceria do ônibus, os próprios barulhos do veículo, e os batuques de seu coração, ela não conseguiu ouvir o colega e apertou com ansiedade o botão da campainha de parada. “O que você tá fazendo, Bia!?” Ela não podia ouvir os próprios pensamentos.
Ela quase caiu da escada ao sair, abriu seu guarda-chuva de gatinhos e saiu correndo para encontrar seu príncipe dos livros. Diante de seus olhos, se desenhava um momento que ela guardaria para sempre. Mal sabia ela que a resposta para a pergunta de seus pensamentos mudaria como ela o enxergava, e a si mesma.
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