| Ilustração por Matheus Freitas (@greencoatpanda) |
Bia desceu do ônibus no ponto seguinte ao lugar onde avistara Gabriel, o coração acelerado pela visão dele na chuva. A água da sarjeta que corria com força na rua da cidade invadiu seus sapatos no primeiro passo, mas aquela sensação pegajosa de meia molhada não a deteve. A ideia de segui-lo era absurda, beirando a obsessão, mas havia algo na forma como ele olhava para o horizonte que a impelia a alcançá-lo. Não era apenas a curiosidade de uma caloura apaixonada; era a sensação de que, se ela o perdesse de vista agora, ele simplesmente deixaria de existir.
Ela voltou pela calçada da avenida, tentando atravessar a densa floresta de guarda-chuvas alheios sem trombar com ninguém. Quando conseguiu divisar Gabriel do outro lado da rua, ele caminhava em uma cadência constante, as mãos nos bolsos do terno molhado, alheio ao caos do trânsito. Ele parecia estar em sua própria bolha de silêncio.
— G-Gabriel! — A voz parecia querer falhar. — Gabriel-senpai! Eu tenho um guarda-chuva! — Ela gritou com os olhos fechados, como quem não quer enxergar as próprias palavras, enquanto esperava o semáforo dos pedestres ficar verde para passar. Por um ínfimo instante ela sentiu que ele a havia reconhecido, que ele reduzira o passo. Ela abriu os olhos num sorriso de alegria, mas sua esperança durou pouco e ele apertou a marcha novamente.
“Me percebe, Gabriel-senpai… Suas pernas são muito compridas!” ela pensou frustrada, o rosto corando de constrangimento, correndo atrás de sua “paixonite” pelas ruas da cidade.
Bia o viu dobrar em uma rua lateral que descia em direção ao bairro. Era um trecho de casarões antigos e terrenos em processo de verticalização. Ela apertou o passo, o coração batendo no ritmo das gotas pesadas que atingiam o asfalto. Por ruas estreitas e pouco movimentadas, ele parecia desaparecer pelos cantos da visão de Bia, como o líquido que escorre por entre os dedos.
A água que despencava do céu e pelas fachadas dos edifícios formava poças espelhadas nas calçadas, que refletiam as janelas dos casarões, prédios, e empreendimentos imobiliários que desenhavam a paisagem urbana cinzenta. A menina apaixonada já estava com as roupas molhadas de suor e água de chuva, seu guarda-chuva de gatinhos mal lhe protegendo do aguaceiro que caía.
— O que você tá fazendo, Bia? — Ela sussurrou para si mesma, o rosto ardendo de vergonha, a respiração começando a ficar ofegante. — Na minha cabeça isso tudo parecia melhor!
Foi nesse momento que Gabriel parou e olhou para trás, seu olhar agudo de um verde esmeralda brilhante capturando os olhos castanhos dela à distância. Bia entrou em ebulição. Ela ficou paralisada, encantada pela visão de seu príncipe encantado. Ele pareceu falar alguma coisa para Bia à distância e partiu novamente em sua caminhada compulsiva, entrando numa esquina.
Bia sentia a força de suas pernas falhando, seus pés pareciam não querer sair do chão, como que dotados de vontade própria, mas agora ela tinha uma razão renovada para o seguir. O que ele havia murmurado para ela? A teimosia da menina parecia não ter limites, por baixo da camisa molhada e colada a seu peito seu coração batia como uma britadeira.
— Kamisama… Onegai! — Aquela prece curta traduzia o desejo do coração apaixonado da garota, e lhe deu forças para continuar quando ela achou que não poderia mais.
Ela não queria nem imaginar o que Mariana diria se soubesse a loucura que ela estava fazendo “Bia, pára de correr atrás dele e pensa direito, menina!” Ou pior, seus queridos avós. O que diria Dona Yukimi? “Beatriz, esse rapaz não é para você. Ele é um Hazan. Eles têm as tradições deles, têm o sangue deles. Nós temos os nossos.” No Japão dos seus antepassados ou na Israel dos dele, o muro entre eles era de pedra. Mas ali, na chuva de São Paulo, Bia sentia que se pudesse apenas tocá-lo, o muro cairia.
Ele parecia perturbado. Não como alguém fugindo de um assaltante, mas como alguém que sente um zumbido incômodo no ouvido. Todavia, agora ele já não parecia apagar seus rastros para que ela não o seguisse.
— Ai, ele deve achar que eu sou uma louca! — Bia resmungou, resignada com sua própria persistência.
Nesse instante, Gabriel enfim parou de perambular. Sem sequer reconhecer sua perseguidora, ele entrou em um canteiro de obras abandonado cercado por tapumes de metal enferrujado, onde uma árvore de ipê solitária, pintada de amarelo, saltava como em desafio à esterilidade do lugar. Bia se sentiu confusa, mas seu esforço se recusava a ficar sem uma resposta.
Uma miríade de imagens e uma torrente de narrativas passou em sua cabeça como num lampejo. “É apenas um prédio de escritórios da empresa dele.” ela supôs. “Mas e se ele quiser algo comigo? Aquele olhar…” ela confabulou num misto de pavor e apreensão. — Pára, Bia! — Ela falou alto, beliscando a bochecha esquerda como quem quer colocar a mente de volta no lugar.
Ela procurou e achou uma brecha entre duas chapas de ferro, convidando-a para entrar. Hesitante, fechou seu guarda-chuva e seguiu atrás do jovem misterioso, avançando sem fazer barulho, “Só uma espiadela não fará mal”, ela tentava se convencer, “E nesta chuvarada ele nem vai perceber.”
O lugar era um vácuo de lama e escombros entre dois prédios espelhados, salvo pelo ipê solitário no canto, cujas pétalas caídas se misturavam ao lodaçal. Lá dentro, o som da cidade morreu. Gabriel estava no centro de um círculo de terra batida. Escondida atrás de sacos de cimento largados ao lado do tronco maciço, Bia conseguia ver suas costas, eretas, quase agressivas, por dentro da camisa de seda, o paletó atirado ao chão como um peso inútil. Porém ele não estava mais sozinho.
Três homens, vestidos com sobretudos cinzentos de corte impecável e antigo, surgiram das sombras das escavadeiras. Eles não falavam. Não gesticulavam. Apenas existiam ali, em silêncio, com uma densidade que parecia dobrar a luz plúmbea abaixo das nuvens que se despejava sobre a metrópole.
— Vocês estão adiantados — disse Gabriel. Sua voz não tinha o tédio da biblioteca, mas estava afiada como uma navalha. — O manuscrito encontrado em Carras ainda não foi publicado, e não será devolvido até que não me seja mais necessário. Não é preciso, nem prudente, me cercarem em um terreno baldio. Agora, desapareçam daqui. — Havia um tom de ameaça sutil, como um predador que ameaça um desafiante a sua presa.
Um dos homens deu um passo à frente. O rosto dele era simétrico demais, quase artificial. Bia esticou a mão para seu smartphone, querendo ligar para a emergência, mas parou antes de tocar no aparelho, amedrontada e curiosa demais para conseguir fazer qualquer coisa. — A linhagem Hazan tem uma dívida conosco, que viemos cobrar, Arquiteto. Nos entregue agora o que Samuel roubou de nós.
Um calafrio que não vinha da água gelada correu a espinha de Bia e se espalhou por seu corpo até a ponta de seus dedos, eriçando também os cabelos de sua nuca. Seja lá o que fosse, aquilo, com certeza, não era uma briga de negócios. Ela decidiu recuar, fugir dali, mas ao se virar para escapar seu pé resvalou em uma barra de ferro solta. O metal tilintou contra o concreto, ecoando como um sino na calada funesta que cobria aquele terreno, e traiu sua localização.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, nem mesmo a água que caía do céu como lágrimas se pronunciava. Gabriel virou a cabeça. Quando uma vez mais seus olhos verdes esmeralda encontraram os dela, Bia viu naqueles olhos, que até aquele momento sempre guardaram silêncio, algo que a aterrorizou mais que os homens de cinza: aquele rapaz de porte altivo pela primeira vez demonstrou medo, não por si mesmo, mas por ela.
— Você… — Ele permaneceu ereto, como uma estátua de bronze envelhecido, esquecendo os homens por um instante. — O que você está fazendo aqui? Por que me seguiu? — A voz dele tinha uma urgência intimidadora.
— Gabriel-senpai, eu… Eu só achei que… — As palavras sumiram, afogadas em meio medo que subia por sua garganta.
Ele estava a dois metros dela. A chuva lavava seu rosto, e ele parecia notar pela primeira vez que sua admiradora era real, não apenas um vácuo no bloco da FAU. — Qual é o seu nome? — perguntou ele, a voz pressurosa, quase desesperada.
— B-Beatriz. Beatriz Sato. — Não era o momento romântico que ela rodara como um filme em sua cabeça todos aqueles meses.
— Escute bem, Beatriz! — Ele disse em tom de ordem, e por um momento ele pareceu querer segurar as mãos dela, mas se conteve e fechou os punhos se preparando para o que viria a seguir. — Você vai sair por aquele buraco. Você vai correr até a avenida e não vai parar por nada. Haverá um táxi parado na esquina, esperando por você. Não se preocupe em o pagar, mas você tem que sumir da minha vista agora! — Ao dizer isso ele se virou novamente e começou a murmurar alguma coisa, parecia entoar um poema antigo, e do que Bia conseguia captar não parecia ser português, inglês ou japonês.
— Mas e você? Esses homens… — Ela temia por Gabriel, não se apercebendo do perigo que se aproximava.
— Agora! — Ele rugiu como uma fera acuada, sem olhar para trás.
Mas era tarde. Um dos homens de cinza já aparecera entre eles e a saída. O movimento não tivera nenhuma aceleração; ele simplesmente estava lá, em um piscar de olhos.
— Uma testemunha civil. — Disse aquele homem, a voz sem emoção. — Um resíduo indesejado.
— Não toquem nela! — Gabriel gritou se virando de novo para Bia. Ele voltou a recitar uma série de sons que não eram português, nem inglês, nem japonês. Parecia o som de pedras se chocando no fundo de um poço. Dessa vez, Bia conseguiu compreender alguma coisa, ainda que não pudesse entender nada. — Hafsek, Kadish! Lô tirtzach! — Gabriel desenhou no ar um triângulo sobreposto a outro com o indicador e, com um célere golpe da palma de sua mão, ele lançou aquela forma de luz verde esmeralda, girando até formar um disco, em direção a Bia.
Retomando sua atenção ao perigo imediato, Bia viu o homem de cinza erguer a mão, um movimento rápido, com a delicadeza de um cisne dançando, quebrando um círculo de luz esmeralda que se formara entre ela e seu agressor. No reflexo da chuva, a luz quebrada se multiplicou, iluminando algo na mão dele. Não era uma faca comum; era um estilete longo, fosco, que parecia absorver mais que refletir a luz daquele entardecer desbotado como borralha.
As fagulhas brilhavam num tom de verde fosforescente, como pequenas pedrinhas de brilhantes. Bia deu um passo desajeitado para trás, e pôde observar Gabriel movendo os lábios em câmera lenta, esticando as pernas como um artista marcial e erguendo as mãos num movimento brusco. As faíscas se transformaram em correntes que seguravam o homem perigoso à frente de Bia, ao mesmo tempo que Gabriel era atacado simultaneamente pelos outros dois. Mas o que mais chamou a atenção de Bia foi o braço do homem, que parecia se esticar sem parar por um segmento que fora dividido em infinitas partes, como se o próprio espaço o impedisse de atacar.
Com o coração tomado de pânico, ela tentou gritar, mas antes que pudesse o cordão da vida lhe foi cortado. O golpe foi rápido como um relâmpago coriscando os céus, o homem atravessando seu braço com uma eficiência sobrenatural para além das correntes luminosas. Mesmo assim, para Bia, tudo parecia lento, quase parando. A navalha de aço embotado atravessou o tecido da sua jaqueta jeans, passando por sua camisa molhada e por sua lingerie como uma faca quente passando por manteiga, perfurando por entre as costelas e atingindo em cheio seu coração atrás do peito. O frio foi a primeira coisa que ela sentiu. Um frio tão ardente que queimava mais que o fogo.
— Beatriz! — O grito de Gabriel pareceu vir de outra dimensão.
Ela caiu com um baque molhado, o guarda-chuva de gatinhos para um lado e seu já ensopado material de faculdade para o outro; a fita do cabelo se desfez e perdeu-se no marrom do chão. A lama fria da cidade misturada com as flores amarelas da bela árvore que a cobria acolheu seu corpo, se tornando quente com o sangue que rapidamente se esvaia de seu corpo. Gabriel se livrou de seus oponentes com selvageria e se jogou ao lado dela com um salto longo e uma cambalhota ágil, ignorando o homem a frente dela que, solto de sua prisão, caiu no chão na ponta de seus pés como um gato.
Gabriel a puxou para o colo, a mão com força segurando seu peito, tentando estancar um fluxo que não podia ser parado. O sangue vermelho vivo manchava a camisa de seda negra, tornando o tecido pesado e quente.
— Beatriz, olha para mim! Não fecha os olhos! — Ele falava com aquele mesmo tom de ordem de antes, observando seus adversários com a cólera de um animal arisco acuado, puxando o rosto dela até a altura de seu pescoço. — Beatriz! Boi! Kumi! Boi! Kumi! — Ele repetia as palavras como um mantra, uma ordem ao universo que esse se recusava a obedecer.
Bia tentou dizer o nome dele uma última vez. Queria dizer que o paletó dele estava sujo de lama, que mais cedo o livro de Estética foi só para chamar a atenção dele, que ela adorava como ele era gentil com ela apesar de seu jeito desapegado, que ele ficava lindo debaixo das pétalas amarelas das flores do ipê, e que ela queria ajudar ele com aquela tristeza que ela sempre via em seus olhos. Mas sua garganta se encheu de um gosto doce e enjoativo, que logo escorreu por seus lábios. Ela viu os olhos esmeralda de Gabriel se tornarem a última luz de um mundo que se apagava para ela, e sorriu ternamente para ele; se era para terminar assim por ter desvelado um mistério que não era de sua alçada, podia ser desse jeito.
Ele a apertou contra o peito, gritando algo que não era para os homens de cinza que observavam, impassíveis, mas um desafio furioso para os Céus, inconformado com o destino interrompido de uma menina que só queria compartilhar o guarda-chuva e caminhar com seu amado segurando com força em seu braço.
E então, para Beatriz Sato, o tempo parou.
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